sexta-feira, junho 02, 2006

Trairagem


Essa estratégia é do tempo em que a Benetton botava negros diabinhos e loiros anjinhos em altidóres para aumentar a venda de sua malharia. Agora o Andorra Motel (http://www.andorramotel.com.br/), com lojas na estrada de Cabedelo, e em Bayeux, apelou para a provocação e baixaria ao conclamar a rapaziada para a prática da trairagem: “traia seus amigos e venha assistir aos jogos copa com quem você ama”, estampou na propaganda espalhada em pontos-chave da cidade. Já tem gente escrevendo pros jornais para reclamar do “abuso”. Os moralistas certamente vão enxergar no comercial do motel um atentado forte ao pudor coletivo e aos bons costumes da sagrada família pessoense. Mas, aqui pra nós, apologia à traição não é lá uma estratégia boa de marketing, é?... Já não basta o exemplo dos políticos nas próximas eleições!

Intercom nordestino


De 26 a 28 de maio estive em Maceió (AL) para apresentar um trabalho no 8º. Intercom Nordeste. Foi uma viagem agradável, com novos amigos do mestrado no Recife. Saímos de carro da “Veneza” por volta das 10h30 da sexta. Eu havia feito aquele percurso há uns dois anos, vindo de Salvador. Foi quando conheci a pacata Porto da Pedra, típica cidade praieira no litoral norte de Alagoas. Vale a pena fugir da estressada 101 e ir para o sul beirando o litoral alagoano, com as ondas do mar “lambendo as rodas”.
Ficamos na casa do Thiago Paulino em Barra de São Miguel: um luxo! Condomínio fechado com quartos vista-ao-mar. Sem dúvida um dos lugares mais “bacanas” (como diria Aranha) daquela península. Uns 30 minutos nos separava do Cefet, onde rolou o evento, no centro. Definitivamente é um dos litorais mais organizados do Nordeste. A suntuosidade dos edifícios da orla impressiona o turista. Há bares e restaurantes pra todos os gostos por toda parte. Fomos especialmente ao Divina Gula, com atendimento de primeira e uma bela jovem atenciosa checando o atendimento. Nossa mesa ruidosa chamava a atenção dos comensais. No domingo, 28, antes do retorno à Paraíba, encontramos, por acaso, o Akuaba , onde me deliciei com abará e bobó que só baiano sabe fazer. Se for por lá, não deixe de experimentar a cozinha do soteropolitano Osvaldo.
Além do gostoso passeio, a ida a Maceió serviu também para mostrar como anda a pesquisa comunicacional na região. Infelizmente veio pouca gente da Bahia, de Sergipe e do Ceará. Na conferencia de abertura, a professora Ana Maria Fadhul falou sobre a importância de uma regionalização dos estudos sobre a mídia nordestina. Nos bastidores, Fadhul entusiasmou-se pela história do comunicador Mussão. “É um excelente objeto”, garantia.
Interessante também os dados trazidos pelo professor César Bolaño: o Nordeste tem 10,7 milhões de lares com aparelhos de TV. Os senadores com concessões de rádio/tv: ACM-05; Edson Lobão-06; Efraim Moraes-01; Garibaldo-12; Sarney-09; Roseane-10. Outra coisa curiosa é que apenas algo em torno 5% da programação nordestina é produzida na Região, o resto vem do eixo Rio_Sampa e dos states. No campo do cinema, a novidade é o pólo de Fortaleza, segundo da região, atrás de Salvador. Bolaño explica que a partir dos 70`s a região ver ocorrer o fenômeno da “oligopolização” da indústria cultura (principalmente a televisão), que substitui um modelo mais “concorrencial” de mercado. É nesse período que se consolida o império global e se configuram as redes de comunicação modernas.
Na Paraíba, segundo o professor Luis Custódio (UEPB), o ensino de comunicação chega aos 35 anos, com cinco cursos funcionando no estado. Já temos mais de 20 doutores na área e as escolas da UFPB, em João Pessoa, e UEPB, em Campina Grande, se preparam para instalar seus respectivos programas de mestrados. Na capital tudo caminha para estudos de “mídia & cotidiano”, promovendo a interface das pesquisas em Comunicação e Sociologia, sob a batuta do professor Wellington Pereira. A outra linha promissora é a “comunicação & culturas populares”, liderada pelos professore Oswaldo Trigueiro.

terça-feira, maio 09, 2006

De como a Paraíba se tornou sinônimo de província

Há um certo vício semântico em nossos intelectuais, notadamente os camaradas jornalistas, na utilização irrefletida e banalizada da palavra “província”, ao referirem-se à cidade de João Pessoa e, às vezes, até à própria Paraíba. Eu diria um vício provinciano, reacionário e inocente.
Talvez até por ignorância muitos desses escribas usam a terminologia quando na verdade estavam querendo apenas dizer que João Pessoa/Paraíba é “atrasada”, ou quem sabe “ultrapassada”. Neste sentido, o referencial dessas senhoras e desses senhores é inequivocamente o da modernidade, ou, melhor, da pós-modernidade. Um conceito tão gasoso como ideologicamente impositivo.
Na imprensa paraibana, a cidade e o Estado são culpados de serem “provincianos” pelo fato de não acompanharem, por razões históricas, culturais e estruturais, o padrão de desenvolvimento dos grandes centros. Província, desta forma, foi ligada ideologicamente ao mesmo conceito de periferia: “O que era velho no norte, se torna novo no sul”, lembra Zero Quatro.
Do latin provincia, o primeiro significado que é dado ao termo é o de “Divisão regional e/ou administrativa de muitos países, em geral sob a autoridade de um delegado do poder central”. A vinculação com o campo da política é evidente nessa palavra. O tal “delegado do poder central” nada mais é que o excelentíssimo senhor governador, nomeado pelo povo, mas ligado inequivocamente ao poder central pelo chamado “pacto federativo”, onde todos os governadores mantém uma relação de dependência com o presidente da República.
Por tanto, quanto mais subserviente à Brasília, mais provinciano. Quanto mais dependente econômica e culturalmente de São Paulo, mais provinciano. “No Segundo Reinado, cada uma das grandes divisões administrativas, a qual tinha por chefe um presidente”, acrescenta o “pai dos burros”. Antigamente, os governadores eram também chamados de presidentes (das Províncias).
Nos tempos atuais, província também significa “o interior de um país, por oposição à capital e seus subúrbios”, segundo o Aurélio. Por extensão, os habitantes da província, ou seja, os paraibanos, somos todos um bando de “provincianos”. Claro! Muito mais que os pernambucanos e sua “Veneza brasileira”. Bem mais que os baianos e sua cosmopolita São Salvador, primeira capital brasileira e, talvez por isso mesmo, jamais poderá ser taxada de “provínciana”. Somos mais provincianos (poderíamos dizer tabaréis) que o pessoal de Natal, que assimilou tão bem a influência norte-americana, ou dos cearenses, esse povo negociador por natureza e que por isso mesmo precisa do intercâmbio constante com os centros de consumo e da moda.
Província também era a região conquistada fora da Itália e administrada por um governador patrício, nos primórdios do Império Romano. Ou o conjunto de conventos e conventuais duma ordem religiosa, governados pelo “provincial” e dependentes do superior-geral da ordem. Taí o dedo clerical na composição de nossa condição provinciana, às vezes franciscana, às vezes carmelita, às vezes beneditina.
O dicionário diz também que a província é uma “Extensão da jurisdição de uma metrópole”. Nesse caso, historicamente, a Paraíba é uma extensão jurisdicional de Pernambuco, conseqüentemente, João Pessoa seria uma espécie de sucursal da Grande Recife. Por isso que nossa intelectualidade se nutre do que escrevem os coleguinhas do Diário de Pernambuco. Por isso todo mundo acha bacana sair no Galo da Madrugada.
É esse complexo provinciano de inferioridade que faz com que os aviões com os turistas só cheguem até Guararapes, ou passem direto para Natal ou Fortaleza. Por culpa do nosso provincianismo (leia-se incompetência) é que a ilha de Fernando de Noronha pertence a Pernambuco, apesar de, geograficamente, estar mais próxima do litoral paraibano, de onde não se pode tomar barco ou avião para um passeio no arquipélago paradisíaco. Foi essa relação de dependência que fez com que por longos anos o paraibano fosse obrigado a fazer compras no Shopping Center Recife. É porque somos provincianos que nossos times não têm futuro e só torcemos pelo Flamengo, Vasco, Sport ou Náutico.
Já para a Fitogeografia, “província” é um “Território florístico que se caracteriza pela posse de ao menos uma comunidade climática e pelo endemismo de nível genérico e específico”. Desta forma, teríamos no Brasil três espécies de províncias: amazônica, central e atlântica. Por essa disciplina, somos uma província do gênero atlântico, graças a Deus! Estamos defronte para o oceano, de cara para a Mãe África, no extremo oriente dessa América velha, colonizada e tão provinciana quanto a Paraíba. O resto é charme de quem só enxerga seu próprio umbigo.

*Dalmo Oliveira é jornalista e provinciano de Guarabira (PB)

quinta-feira, abril 27, 2006

A lógica do cavalo de tróia na imprensa paraibana

Em pleno século 21, numa sociedade pós-moderna, a comunicação é, de fato, uma das atividades sociais mais importantes. A imprensa se tornou o mais disputado lugar de fala no universo batizado por Jürgen Habermas de “Esfera Pública”. Ele idealizou um espaço de comunicação social que estivesse fora da vida doméstica, que não fossem os fóruns eclesiais das igrejas, e, logicamente, um lugar fora do alcance dos domínios do governo. Habermas pensou num espaço onde as pessoas discutissem livremente sobre os mais variados aspectos da vida (inclusive sobre a família, a igreja e o governo).
É na esfera pública onde idéias são debatidas democraticamente. Depois de séculos sendo desenvolvida e aprimorada a tal esfera pública vem sendo paulatinamente contaminada pela ação das grandes corporações e pela influência da mídia. A internet, considerada uma espécie de nova esfera pública, deslocou o debate para um ambiente que se tornou, ambiguamente, democrático e excludente. Democrático porque, teoricamente, nele todos poderiam se manifestar. Excludente porque, mesmo com a disseminação da informática, grande parte da população não tem acesso a esse tipo de plataforma para comunicação.
Aqui em João Pessoa um fenômeno na comunicação chama a atenção daqueles que se interessam diretamente pelo assunto. É o que eu vou chamar de febre jornalística. Vamos tentar explicar: a cada dia cresce o número de opinadores com colunas em jornais e sites tabajaras. Geralmente trata-se de figuras de renome na sociedade, como líderes religiosos, políticos e professores universitários.
O caso mais assombroso é o do novo arcebispo da Paraíba Aldo Pagotto. Bem falante, viciado em mídia, polêmico, o dirigente da Igreja Católica no estado publica seus textos opinativos nos três principais jornais paraibanos. Dom Pagotto escreve geralmente sobre questões eclesiásticas, mas não deixa de puxar a “caneta” para outras pautas como comportamento, violência, ambiente etc. É o discurso da Igreja disputando espaço hegemônico na esfera pública midiática paraibana.
Outro opinista juramentado é o professor Ivaldo Gomes, que se especializou numa espécie de webmilitância com ares de jornalismo de opinião. Gomes escreve cotidianamente no www.portalbip.com e no site do jornalista Anco Marcio (www.ancomarcio.com). Ferrenho defensor do direito à liberdade de expressão, Ivaldo confunde o exercício da expressão livre com a prática jornalística, reservada aos profissionais habilitados em cursos de graduação. Ivaldo Gomes transformou sua coluna numa tribuna livre, de onde dispara impressões político-ideológicas mescladas a informações que o escriba considera “de interesse público”.
Nosso derradeiro exemplo de doublé de jornalista vem da “militante do movimento cultural e pesquisadora”, Nara Limeira. Ela publica sua coluna semanalmente no jornal A União e no site www.portalbip.com, enfocando temas mais afeitos à cena cultural paraibana.
Nossos três opinistas poderiam, ao menos, buscar regularizar suas atividades na imprensa local solicitando à DRT-PB e ao Sindicato dos Jornalistas registro como “colaborador”. A lei que regulamenta a profissão de jornalista prevê a figura do colaborador, “assim entendido aquele que, mediante remuneração e sem relação de emprego, produz trabalho de natureza técnica, científica ou cultural, relacionado com a sua especificação, para ser divulgado com o nome e qualificação do autor” (DECRETO-LEI N.º 972, DE 17 DE OUTUBRO DE 1969).
Nos três casos ocorre um fenômeno comunicacional idêntico, batizado por Pierre Bourdieu em seu livro Sobre a Televisão, como a "lógica do Cavalo de Tróia". Consiste, mais ou menos, em enxertar inimigos na linha de lá da fortaleza. Bourdie pode explicar melhor: "(...) introduzindo nos universos autônomos produtores heterônomos que, com o apoio das forças externas, receberão uma consagração que não podem receber de seus pares".
O jornalismo transformou-se nesses dois últimos séculos numa atividade institucionalmente reconhecida, um campo do conhecimento humano que conquistou o direito de autonomia enquanto práxis sociabilizante e de utilidade pública, como o Direito, a Medicina e as Engenharias. Como modalidade privilegiada de discurso, do ponto de vista do reconhecimento social, o jornalismo também é o espaço em que o saber e o poder se articulam e se auto-promovem. Na concepção de outro francês, Michel Foucault, a disputa pela construção de enunciados no campo jornalístico se dá, principalmente, por acontecer neste campo a configuração dos discursos, onde legitimamente se veiculam os saberes institucionalizados, o locus onde se gesta o poder na sociedade.
É preciso destacar que a grande maioria desses opinadores ad hoc é composta justamente por aqueles notórios profissionais que usam o jornalismo para divulgar opiniões, pontos-de-vista. Todos sabemos que essa é a modalidade do jornalismo que mais influencia a chamada "opinião pública". É nesse sub-campo do jornalismo onde o jogo é jogado. Mas é aqui também onde estão concentrados os jornalistas mais consagrados. É no jornalismo opinativo onde o cidadão adquire reconhecimento social e consagração entre seus pares.
Nenhum desses jornalistas de ocasião quer, de fato, exercer o jornalismo na concepção estrita de reportar os fatos. O que os campos de interesses heterônomos desejam, de verdade, é tão somente obter a concessão de opinar sobre fatos escolhidos, massificar opiniões da tendência que representa e ganhar prestígio entre o grupo ao qual assumiu compromissos, ungidos pela áurea de neutralidade imputada ao fazer jornalístico.
O privilégio de ganhar a vida vendendo "verdades" não foi dado impunemente ao profissional de imprensa. O jornalista paga caro por esse cinismo de ares científicos. A lógica do cavalo-de-tróia é uma espécie de pirataria do privilégio: Oba! Vamos invadir a praia da comunicação, afinal, no início do século 21, informação anda colada à consagração, à inclusão e ao prestígio social. Mais agora que, potencialmente, cada ser humano pode produzir e distribuir suas idéias, fazer sua comunicação, turbinado pelas infovias que interligam a nova esfera pública habermasiana.


quinta-feira, março 30, 2006

O porteiro de aço e a metáfora pós-industrial

O porteiro de aço e a metáfora pós-industrial

Para mim todo esse episódio a cerca da obra do artista plástico Jackson Ribeiro, o agora famoso “Porteiro”, serviu ao menos para uma coisa: mostrar o nível cultural de figuras da sociedade pessoense, consagrados líderes de opinião em meio à nossa comunidade. Não vou me posicionar a favor ou contra a exposição da peça de Ribeiro (temos outro Jackson famoso!). O que gostaria de entender/discutir melhor é sobre uma questão sublime, que foi ignorada nessa discussão senilizada: qual a função social da arte e da cultura na vida dos nossos concidadãos (pra usar um termo em voga pelos políticos).

A mim não interessa, sobremaneira, se o metálico porteiro vai “vigiar” a entrada do céu ou da casa de lúcifer. Nem quero saber se a “instáuta” será fixada ao lado da matriz Batista (na cabeceira da avenida Beira Rio) ou no giradouro que dá acesso ao bairro do Altiplano. O importante é que a obra de arte esteja acessível, de preferência em local público. Afinal, como diria o poeta, arte tem que ir onde o povo está.

Em qualquer outro lugar, onde a sociedade tenha noções básicas sobre a importância da cultura e das artes, obras como a do porteiro de Jackson Ribeiro seriam disputadas com avidez. Mas em João Pessoa só é possível ver “arte” nas praças quando um busto (geralmente de políticos) é erguido. Quando peças de arte tomam os logradouros da capital a reação mais comum é a depredação. Os pichadores de plantão não perdoam.

Se os batistas rejeitaram o porteiro não há novidade. Se vereadores reacionários instigam os moradores do Altiplano e do Cabo Branco a protestarem contra a instalação da obra nas imediações desses bairros, pode-se aferir que se trata apenas de picuinha política misturada à ignorância cultural. Mas, e a sociedade pessoense o que pensa sobre o porteiro de aço? Qual o impacto dessa celeuma na formação estética da atual geração da Paraíba??

Obras de arte ao ar-livre não é algo que se vê comumente por aí. Em centros urbanos “avançados”, como NYC, Paris, Madri, São Paulo ou Buenos Aires pode até ser, mas na capital paraibana é considerado, no mínimo, uma extravagância.


Metáfora versus ignorância

Ontem fui ver de perto a obra de arte que é o pivô de tanta polêmica. Depois de uma boa recondicionada e de uma cobertura de tinta anti-ferrugem, o porteiro está mais lindo do que nunca. Permanece no canto da cerca, ao lado direito da Praça do Povo (para quem está defronte pro palco fixo), no Espaço Cultural. É uma peça realmente intrigante. Pedaços de trilhos ferroviários compõem “braços” e “pernas” do que (para mim) mais parece uma espécie de besta pós-industrial. Outras peças de aço foram usadas pelo artista para descrever a “cabeça” e o “tórax” do porteiro. Com quase três metros de altura, a “escultura” de Jackson Ribeiro é a materialização de uma metáfora do espectro pós-industrial, que, certamente, assombrava a cabeça de um artista antenado como o falecido Jack.

Ano passado, durante as aulas de Estudos Culturais no mestrado em Comunicação da UFPE, discutíamos com a professora Ângela Pryston sobre uma instalação feita pelo artista mexicano Marcos Ramírez na fronteira dos EUA com a cidade mexicana de Tijuana, relatada no livro La globalización imaginada, de Canclini. Ramírez criara uma obra semelhante ao cavalo de Tróia, mas com uma sutil diferença: o cavalo de Ramírez tem duas cabeças. O artista criava assim uma metáfora sagaz sobre as relações conflituosas entre americanos e mexicanos. A instalação fazia parte, em 1997, da última edição do Programa de Arte Urbana batizado de inSITE. Canclini comenta que,
“Ramírez não apresenta uma obra de afirmação nacionalista, senão um símbolo universal modificado. A alteração desse lugar-comum da iconografia histórica, que é o Cavalo de Tróia, busca indicar a multidirecionalidade das mensagens e as ambigüidades que provoca sua utilização midiática”.

A metáfora comunicada pelo porteiro de Jackson é um pouco menos óbvia, mas tão carregada de simbologia quanto o cavalo pós-troiano de Ramírez. Mostra, numa figura, o que pode significar uma sociedade baseada no industrialismo capitalista. Materializa os monstros que podem surgir pela exploração desenfreada dos recursos naturais. Se Virginius Mello viu o “inferno” na besta metálica de Jakcson certamente foi o inferno criado pela própria civilização humana na sua corrida cega por uma modernidade construída a todo preço.

O que a ignorância cultura daqueles que preferem deixar o porteiro num porão não deixa ver é que o porteiro amaldiçoado simboliza que a sociedade pessoense daquela época estava preste a inaugurar um rito de passagem entre o arcaico e o moderno. Uma transformação de valores que tem como testemunhas criaturas nascidas daquilo que chamamos “progresso”.