sexta-feira, setembro 24, 2010

O neo-iluminismo como estratégia discursiva na campanha eleitoral de 2010


Por Dalmo Oliveira
           

Dentre todas as estratégias mobilizadas numa disputa eleitoral, certamente, a estratégia discursiva pode ser considerada a mais importante. Mesmo porque, desde os primórdios, modalidades do discurso, como oratória, retórica e persuasão sempre foram a base da política, como agir social.
            Na disputa eleitoral desse ano, o candidato a governador do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Ricardo Coutinho, se destaca por apresentar um discurso diferenciado dos demais concorrentes. Além de impor uma fala mais rebuscada – em alguns momentos hermética e não-usual -, Coutinho insere na discursividade da campanha eleitoral 2010 neologismos referenciais.
            O exemplo mais evidente da estratégia discursiva do candidato socialista é o termo “republicanização”, utilizado com abundância em suas falas públicas, especialmente na mídia. Talvez querendo dizer que defende o fortalecimento do modelo e valores republicanos de gestão pública, o candidato utiliza o termo na construção de uma discursividade política que se ancora no paradigma republicano como única alternativa de redenção do modelo político-partidário ora vigente.
            Nesse contexto, “republicanizar” pode significar dar à gestão pública do Estado paraibano atributos desejáveis que não estariam na perspectiva político-ideológica dos demais concorrentes. Como se a Paraíba estivesse ainda fora da “República brasileira”, ou como se ainda vivesse nos tempos da República Velha (1889-1930), que também foi chamada de "Primeira República", "República dos Bacharéis" ou "República Maçônica".
            A discursividade republicana passou a ser reutilizada pelo mundo político brasileiro a partir do governo do ex-presidente FHC. Pode ser considerado, desta forma, parte de uma estratégia discursiva neoliberal.  O fato de ter sido FHC o primeiro presidente eleito de forma direta (depois do impeachment de Fernando Collor) motivou o staff tucano a tentar convencer a opinião pública nacional de que ali surgia, finalmente, uma gestão com todas as características republicanas.


A herança iluminista
            Dentro do arcabouço discursivo-ideológico disseminado pelo candidato Ricardo Coutinho, uma outra palavrinha inovadora é aquela que diz que sua proposta de governo é oriunda de uma filosofia “iluminista”, em referência ao Iluminismo, que os franceses preferem chamar de Siècle des Lumières, e que, historicamente, teria se esgotado já nas primeiras décadas do século 17, quando Napoleão Bonaparte começou a aterrorizar a Europa.
            Conceito que tornou famoso o filósofo Immanuel Kant, cativou seguidores que defendiam a tese de que os seres humanos podem tornar este mundo um mundo melhor, através de um exercício permanente de introspecção, do fomento das capacidades humanas e do engajamento sócio-político. Os iluministas são aqueles contrários a qualquer tipo de tutelamento. Seu lema-síntese seria: “Tem coragem para fazer uso da tua própria razão!".
            Nesse sentido, o ex-prefeito da capital da Paraíba poderia ser considerado um neo-iluminista, não fosse sua forte propensão em substituir uma maneira de tutela por outra, talvez um pouco mais “republicana”, mas tutela assim mesmo. O discurso ricardista mostra-se, então, essencialmente contraditório e meramente retórico, para não dizer falacioso.
            Talvez a formação acadêmica mais humanista, a longa militância sindical e política de perfil esquerdista (socialista) e o convívio dentro de um coletivo ativista repleto de pretensas novas lideranças de parte da intelligentzia tabajara, levaram Ricardo a adotar o discurso do iluminismo tardio e da “republicanização” da vida paraibana.
            Discurso que pode funcionar perfeitamente nos ambientes academicistas e nas rodas de intelectualóides “orgânicos” onde Coutinho recebe relativo apoio. Mas, como diz Norman Fairclough, “(...) o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis; pela classe e outras relações sociais, pelas relações específicas em instituições particulares(...)”.
            A performance discursiva do candidato também pode ser entendida pelo seguinte pensamento de Foucault: “O discurso é não apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é a coisa pela qual a luta existe, o discurso é o poder a ser tomado”.  

segunda-feira, agosto 02, 2010

Cresce índice de abstenção na eleição da FENAJ



Por Dalmo Oliveira

            As eleições para a diretoria e conselho nacional de ética da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), ocorridas na semana passada, revelaram um dado, no mínimo, inquietante: cresceu o índice de abstenção entre os jornalistas aptos ao voto.
            Na eleição passada, em 2007, estavam aptos a votar 14.489 jornalistas, dos quais só foram às urnas, efetivamente, 5.429 jornalistas. Esse ano apenas 11.305 estavam aptos ao voto (ou seja, em dias com as tesourarias dos 29 sindicatos federados). Significa dizer que mais de 3 mil jornalistas se puseram inadimplentes ou se desfiliaram dos sindicatos nos últimos três anos, num Brasil onde não se exige mais diploma superior para o exercício desta profissão, que dirá o ingresso em sindicatos.
            Aqui na Paraíba essa constatação é reforçada já que em 2007, o número total de votantes aptos era de 204, mas agora caiu para 143, dos quais 133 puseram efetivamente a cédula na urna, pelas informações da comissão eleitoral, tendo à frente o próprio presidente do sindicato local.
            No município do Rio de Janeiro, segundo maior colégio eleitoral do país da nossa categoria, em 2007, havia 1.989 jornalistas aptos ao voto, esse ano apenas 625. Em Minas Gerais, onde 1.137 jornalistas estavam aptos a votar na eleição passada, votariam agora somente 437 jornalistas, dos quais cerca de uma centena foram realmente às urnas.
            O estado de São Paulo teve um singelo acréscimo no número de pessoas aptas ao voto, provavelmente em decorrência de novos filiados ao sindicato. Em 2007 eram 3.039 com direito ao voto, dos quais apenas 678 foram efetivamente às urnas. Esse ano foram 3.182 com condições de votar, sendo que deste contingente, apenas 699 foram de fato às urnas.

AVERSÃO SINDICAL
            Mas, voltando ao quadro paraibano, o que mais nos surpreendeu foi a queda brusca no número de jornalistas aptos a votar, ou seja, aqueles que se encontram em dias com a tesouraria do “nosso” glorioso sindicato. Fazendo uma continha rápida: se na última eleição local, no dia 16 de setembro de 2008, apareceram para votar mais de 350 jornalistas, todos rigorosamente em dias com suas obrigações sindicais, significa dizer que, nos últimos dois anos, mais de 200 jornalistas paraibanos deixaram de contribuir ou se desligaram do “nosso” sindicato.
            Podemos imaginar algo ainda mais aterrador, como supúnhamos naquela época: cerca de 200 jornalistas teriam quitado seus débitos com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Paraíba, naquele período, apenas para votar CONTRA a chapa Novos Rumos, que tive a honra de liderar naqueles meses inesquecíveis entre 2007 e 2008. Evidentemente há uma zona cinzenta na conferência destes números.
            São situações como essa que afastam, paulatinamente, os jornalistas de suas entidades de classe, fazendo com que, ano a ano, cresça a aversão dos jornalistas mais críticos e autônomos ao movimento sindical, especialmente aqueles que possuem graduação superior na área. É um fenômeno que só fez crescer no Brasil, de forma mais acentuada e clara a partir do final do século passado, com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores e a cooptação de lideranças sindicais para os quadros da gestão pública federal.
            A eleição na Fenaj é mais um reflexo da apatia da classe trabalhadora com as estruturas viciadas de representação sindical. Uma abstenção eleitoral que ultrapassa os 7 mil jornalistas (quase o dobro do número de votantes) só deve ser entendida como um boicote evidente dos trabalhadores que não confiam mais nos sindicalistas que dizem representá-los na batalha cotidiano contra os patrões.
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Dalmo Oliveira é jornalista graduado pela UFPB, com mestrado em Comunicação pela UFPE. Ex-diretor de mobilização do SJPEPB.
           
           

quinta-feira, julho 01, 2010

Entrevista com o homem do trombone



por Dalmo Oliveira




Radegundis Feitosa, morto hoje pela manhã, num acidente automobilístico na estrada a caminho de Itaporanga, foi um dos primeiros caras que entrevistei no início de minha vida acadêmica, em meados dos anos 80, durante a graduação em Jornalismo na UFPB.
Os departamentos de Comunicação e de Música são vizinhos, ali no prolongamento do CCHLA. Sempre que eu passava pelo portão principal do campus I, em direção ao antigo DAC, era fisgado pelos sons que saiam do bloco de Música, onde sempre há alguém ensaiando. Só esse detalhe do meu cotidiano nos quatros anos da graduação já me enchia de uma certa euforia e satisfação de poder compartilhar um ambiente tão repleto de referências e significados. Como sempre gostei de música, aquilo prá mim era um privilégio.
Mas foi durante as aulas do jornal laboratório, conduzidas pelo professor David Fernandes, se não me engano, quando tive a oportunidade de exercitar técnicas de entrevista. E uma das pautas inesquecíveis que recebi naquela ocasião foi entrevistar o trombonista Radegundis.
Imagino que nenhum aluno de jornalismo esqueceria de algo assim, a começar pelo nome incomum do entrevistado. Não lembro bem do conteúdo da entrevista, mas sei que se tratava a algo relacionado ao trabalho que Feitosa desenvolvia no Departamento. Ele me recebeu numa daquelas salas acústicas onde passava horas com seu companheiro inseparável. Não tocou nada na ocasião, mas falava da música com a paixão daqueles que têm suas existências vinculadas a essa arte.
A matéria saiu numa das raras edições do jornal laboratório, que batizamos de "Nariz de Cera". Infelizmente, essa peça eu não tenho no meu currículo. Mas foi naquela entrevista com o Radegundis, que me recebeu de forma solícita e profissional, que descobri que essa profissão nos dá algo mais que a simples capacidade de escrever notícias e de reportar acontecimentos. O jornalismo nos aproxima das pessoas, nos faz enxergar as pessoas de maneira mais profunda e mais respeitosa. Nos vincula aos demais seres humanos de maneira permanente e perene.
Depois da entrevista, o Departamento de Música passou a ter um significado específico para mim. Não era apenas mais um prédio da UFPB cheio de professores e estudantes mobilizados em busca de um canudo de doutor.Sabia que lá dentro havia um trombonista de nome esquesito, super-craque na teoria e prática musicais. Um cara simples, sertanejo, com fala mansa, olhos profundos, nariz volumoso e dedicação sacerdotal.
Com o passar dos anos a fama do meu primeiro entrevistado foi crescendo. Depois que sai do curso via sua carreira se projetando em notícias de jornal e TV. Devo tê-lo escutado tocar em algumas outras poucas ocasiões.Claro, que aquela experiência na graduação me abriu os ouvidos e coração para a música instrumental. Ainda hoje, quando passo por ali, foco o ouvido em busca dos trombones, trompetes e outros sons de sopro.
Hoje na TV, vi os restos retorcidos e chamuscados do trombone de Radegundis. O maestro se foi, mas os sons de seu instrumento musical hão de permanecer eternamente pairando no ar, entre Música e Comunicação.

sábado, junho 26, 2010

A notícia sob encomenda e o jornalismo de resultados













Diretor, editor e repórteres do Site Congresso em Foco na premiação do ano passado.





            A premiação de jornalistas em decorrência de matérias de interesse público se tornou, nas últimas décadas, um artifício bastante recorrente no universo da mídia de imprensa. O que começou com a intenção de reconhecer o papel imprescindível da imprensa como “cão de guarda” da sociedade, foi-se transformando, ao longo dos últimos anos, numa espécie de biscoito-prêmio para os adestradíssimos profissionais do jornalismo de resultado da atualidade.
            No Brasil, tudo teve início quando a norteamericana do petróleo Esso criou o prêmio que se transformaria numa espécie de “Oscar” do jornalismo tupininquim, ainda na década dos 50. No site da empresa podemos ler:
O Prêmio Esso de Jornalismo, o mais importante e tradicional programa de reconhecimento de mérito dos profissionais de imprensa do Brasil, está completando 55 anos de existência ininterrupta. Criado, em 1955, com o nome de "Prêmio Esso de Reportagem", passou posteriormente a se chamar "Prêmio Esso de Jornalismo".
Dividida em diversas categorias, o conjunto de premiações é concedido aos melhores trabalhos publicados anualmente, segundo avaliação de comissões de julgamento integradas exclusivamente por jornalistas renomados ou profissionais de comunicação. Atualmente, para a mídia impressa estão destinadas 11 categorias, mais o prêmio principal, que leva o nome do programa. Completa a premiação, pelo 10º ano consecutivo, o Prêmio Esso de Telejornalismo, conferido ao melhor trabalho jornalístico exibido na televisão.
De 1955, até os dias de hoje, concorreram ao Prêmio Esso mais de 27 mil trabalhos jornalísticos. Para os profissionais de Imprensa, a conquista de um Prêmio Esso constitui elevada distinção, não só por sua tradição mas, principalmente, pelas características de independência e credibilidade do programa, construídas e mantidas ao longo de mais de cinco décadas.

            Durante o período da ditadura militar ocorreu, naturalmente, um refluxo no incentivo e reconhecimento  ao jornalismo mais crítico e autônomo, e os prêmios de jornalismo deixaram de proliferar, retornando com outras características a partir do início da década dos 90.
            Evidentemente, a exemplo do que aconteceu com a maioria das manifestações  nascidas no seio da sociedade civil, esse tipo de premiação passou também por aquilo que vou chamar de metamorfose institucional. Nesse sentido, hoje, os prêmios de jornalismo se transformaram nalgo semelhante a um concurso público de redações (produções jornalísticas), patrocinados pelo mundo corporativo, principalmente, ou por instituições vinculadas aos poderes públicos.
            Esse tipo de premiação passou a compor uma série de estratégias empresariais dentro de um conjunto de medidas que o universo corporativo passou a chamar de “responsabilidade social”. Os prêmios de reportagem da atualidade configuram-se, assim, numa extensão da chamada comunicação empresarial.
            Jornalistas profissionais do país inteiro, fundamentalmente aqueles que trabalham nas chamadas “grandes redações”, perceberam que essas premiações significam duas grandes oportunidades em suas carreiras: 1) uma boa quantia em dinheiro para turbinar seus nem sempre gloriosos salários; 2) reconhecimento social dentro da própria categoria, assim como pela sociedade de um modo geral.
            É o que acontece atualmente no jornalismo paraibano onde a caça aos editais dos prêmios de reportagem se tornou um esporte disputado. Recentemente profissionais da TV Correio alardearam, sem falsa modéstia, mais uma premiação desse tipo, tendo à frente o jovem (e ambicioso) repórter Wendell Rodrigues. Desta vez foi o primeiro lugar nacional no prêmio concedido pelo Banco do Nordeste, com a série de reportagens “Pode dar certo”. O conjunto de reportagens já havia sido premiada anteriormente num concurso patrocinado pelo Sebrae.
            Anualmente o Sindicato e Associação das Empresas de Transportes Coletivos Urbanos de João Pessoa (AETC-JP e Sintur-JP) também realizam, no nível estadual, sua premiação aos melhores da mídia tabajara. O auge do evento é um jantar de final de ano onde os jornalistas (e outros profissionais de Comunicação) se confraternizam.
            Num olhar menos crítico, os prêmios de jornalismo pode parecer iniciativa inquestionável por reconhecer os talentos e a missão honrosa dos profissionais de imprensa. A crítica pode soar como inveja dos que não participam ou não são agraciados.
            Mas o que acontece, de fato, é que esse tipo de “incentivo” ao jornalismo cotidiano acaba por consolidar a desconfiguração da missão precípua daquilo que chamávamos de jornalismo a bem pouco tempo. Em primeiro lugar porque por menos tendencioso que seja a banca julgadora das matérias concorrentes, todos sabem quem está bancando a premiação e quais os interesses não-jornalísticos por detrás deste tipo de patrocínio.
            No caso do Prêmio AETC, grande parte dos julgadores jamais exerceram aquela atividade jornalística que estão avaliando, ou só a conhecem teoricamente. Por outro lado, são poucas as reportagens construídas sem que o “foco” do tema da premiação já não tenha sido pautado pelo relise da assessoria de imprensa do órgão que promove o concurso.
            Enquanto os jornalistas se locupletam nas festas das premiações, o cidadão consumidor das notícias premiadas acaba sendo o maior perdedor nesta história toda, ao consumir, inadvertidamente, um jornalismo encomendado.

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Dalmo Oliveira é jornalista formado pela UFPB, com especialização pela UFJF e mestrado em Comunicação pela UFPE. Ex-diretor do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba e nunca recebeu um prêmio pelo que escreve.