domingo, abril 13, 2008

Balula morreu: viva Balula!


Balula morreu: viva Balula!

Por Dalmo Oliveira*


Eu ainda não me acostumei com a idéia da morte de João Balula. Tentei visitá-lo quando esteve internado no Pavilhão Henfil. Levei uma revista para ele passar o tempo. Quando entrei no quarto ele já havia anunciado que não estava mais disposto a receber novas visitas. Encontrei-o todo encoberto num lençol encardido de hospital, escondendo-se do mundo. No quarto havia mais dois pacientes. Tentei tabular um diálogo com um deles para saber como estava a situação deles. O cara me disse que Balula mantinha uma febre freqüente.

O pior veio na saída: no quarto da frente deparei-me com um quadro dantesco, onde duas figuras humanas compunham a cena. Uma delas era um paciente deitado e algemado a uma cama de ferro. Na porta do quarto um policial militar vigiava o doente. Rapidamente percebi que se tratava de um presidiário em estado terminal pela AIDS.

Pensei “meu Deus, onde foram colocar o meu amigo!”. Saí às pressas pelo corredor pouco iluminado do pavilhão, olhando pelos cantos os grupos de pacientes internados naquela espécie de purgatório. No saguão do hospital comentei com Mabel Dias, que havia me acompanhado na visita, o quanto seria deprimente para Balula estar internado ali.

Disse a ela que precisávamos arranjar um outro hospital para transferir o companheiro. Sai de lá com essa idéia na cabeça. Não é possível que não se consiga um hospital para internar Balula com mais dignidade. Não entendia como o governo havia investido tanta grana para reformar a recepção do Clementino Fraga, mas as condições lá dentro continuavam tão ruins.

Na semana seguinte recebi a notícia que a saúde do Balula estava melhor e que ele havia saído do quadro crítico, daí relaxei com relação à vontade de tirá-lo do Henfil. Os dias se passaram e na fatídica noite do estranho eclipse lunar, por volta da 1h da manhã o telefone fixo toca. Era o professor Antonio Novaes: “Dalmo, o Balula morreu!”, disse-me de uma só lapada.

Durante o velório e enterro do cara, acho que fui uma das pessoas que mais chorou. Havia tempo que não chorava tanto. Nem nas piores crises álgicas da anemia falciforme que me fazem não esquecer da condição humana miserável que herdei dos meus antepassados africanos. Mas aquele não era um choro de dor. Chorava e sentia uma angústia triste pelo fato de não ter afido quando podia ter tomado alguma providência para dar dignidade à internação do meu amado companheiro. A sensação de omissão se apoderava da minha mente com um nitidez insuportável.

Nada adiantava, o pior acontecera, meu amigo estava morto. Perdíamos simplesmente o maior militante da causa do povo negro paraibano, de maneira torpe, desumana, cruel. Logo agora que eu abraçara a militância no movimento negro exatamente para tentar colaborar no quesito da saúde da população. Não me conformo!

Nas semanas seguintes, os movimentos sociais que lidam com DST/AIDS e as pessoas mais chegadas a Balula resolveram denunciar as condições do Pavilhão Henfil. Começamos a pensar de que forma poderíamos agir para que outras vítimas da AIDS não morressem por falta de uma UTI. Alguns atos públicos foram planejados e já realizados, mas ainda estamos longe de resolver o problema. A sociedade civil precisar exigir dos poderes públicos que algo seja feito para dar dignidade às pessoas que estão tentando escapar da morte provocada pela AIDS no único hospital de referência do Estado.

Para mim ficou a certeza de que é preciso acabar com uma estruturar hospitalar que mais parece um porão para depósito de soropositivos condenados à morte. Na minha cabeça ficou a idéia de que esse tipo de atendimento é uma espécie de punição a mais para aqueles que contraíram o vírus, seja em que circunstâncias forem.


PÓSTUMAS HOMENAGENS

Desde que o Balula morreu as homenagens ao fantástico guerreiro da negritude e de outras causas populares não cessam de acontecer. A mais recente foi ventilada por dirigentes da fundação onde ele trabalhava, a Funjope. A idéia foi comprada pelo vereador Fuba e rapidamente ganhou adesão de todos que testemunharam o empenho do Balula em prol da cultura popular pessoense. Trata-se de dar seu nome à lei de incentivo à cultura do município de João Pessoa, que passaria a ser denominada “Lei de Incentivo à Cultura Viva Balula”.

Homenagem justíssima na concepção de inúmeros promotores culturais que interagiram com o militante do movimento negro tabajara. Além do reconhecimento, a homenagem poderá funcionar também como estímulo à auto-estima de uma comunidade que, a despeito de toda a contribuição que deu e dá à cultura local e nacional, permanece numa posição de inferioridade e descriminação em relação à “branca” elite paraibana.

Elite que, aliás, já deflagrou uma campanha reacionária à propositura do Fuba, através das declarações do jornalista Carlos Aranha divulgadas, via correio eletrônico, pela internet, defendendo que no lugar do negro Balula, a mudança no nome da lei deveria homenagear o já também falecido Altimar Pimentel. Evidentemente ninguém poderá imputar ao jornalista e compositor de “Sociedade dos poetas putos” o rótulo de porta-voz da elite branca e racista tabajara. O que nos parece, nesse episódio, é que o discurso de Aranha em defesa de Altimar, se constituiu, provavelmente, e até de forma inconsciente, a partir dos pressupostos de um ideal de cultura como exercício exclusivo de determinados setores sociais, geralmente privilegiados do ponto de vista econômico e social.

Comparar João Balula e Altimar Pimetel é, no mínimo, ridículo. Ambos tiveram sua importância no fortalecimento da cultura paraibana, com suas competências, em campos sociais diversos (e às vezes antagônicos). Altimar como autêntico catalogador e fomentador de manifestações culturais tradicionais. Balula como agitador cultural dos guetos, periferias e outros espaços alternativos e marginalizados da cultural popular local. Pimentel como o clássico intelectual forjado pela academia. Balula o típico intelectual orgânico gramischiniano. Um que utilizava as ferramentas clássicas da pesquisa, outro que se valia de instrumentais alternativos, como intuição, improviso e atos anti-convencionais.

Por fim, é preciso entender que esse tipo de disputa se coloca muito mais no campo ideológico do que no meramente artístico-cultural. Tratar a cultura nesse patamar de discussão é semelhante ao tratamento que os soropositivos das classes subalternas recebem no Henfil. Simplesmente vergonhoso!


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* Dalmo Oliveira é jornalista, militante do movimento negro da Paraíba, mestre em Comunicação pela UFPE e coordenador geral da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias.


domingo, dezembro 16, 2007

Prêmio AETC mostra sinais de cansaço

Cerimônia enfadonha e critérios duvidosos marcaram edição 2007


foto: Portal Correio





João Pinto, Alessandra Torres, Land e Mislene


Sempre considerei eventos como o Prêmio AETC de Jornalismo uma espécie de mímica da entrega do Oscar do cinema estadunidense. Faz bem ao ego da galera! É quando tiramos o mofado paletó do guarda-roupas e a categoria se confraterniza numa festa que marca, efetivamente, os festejos de fim-de-ano para os jornalistas paraibanos. Num salão romano os coleguinhas montam torcidas organizadas pela cor da corporação que representam.

Na edição 2007 os organizadores resolveram homenagear o jornalista Adalberto Barrreto, que acabou proporcionando a primeira “saia justa” da noite ao apresentar um discurso anti-capitalista numa festa organizada por empresários sem nenhuma vocação socialista.

No ano passado fui pela primeira vez à festa e minha impressão não foi mais otimista do que agora. Esse ano as coisas só se confirmaram. E para não dizerem depois que critico “de fora”, resolvi submeter uma reportagem também à disputa. Por ter saído no Portal Correio e pelo perfil do autor, imaginei que teria poucas chances de premiação, ainda mais sendo avaliado por gente sem experiência profissional prática, como o ex-diagramador Land Seixas.

As web-reportagens premiadas foram de autoria de Clóvis Roberto, do Portal O Norte Online (“Costinha: história da caça à baleia no litoral da PB”); de Vanessa Ferreira, do Portal PS Online (“A modernidade devorou o lambe-lambe”) e de Cláudia Carvalho, do Portal Paraíba.com (“Religião, Arte e Censura”). A matéria de Clóvis é boa, mas peca por focar muito no passado, por isso não tem impacto de atualidade (o principal atributo de noticiabilidade dos manuais de jornalismo), apesar do forte apelo econômico e ambiental.

Do conjunto da premiação, só fiquei realmente satisfeito com a escolha do primeiro lugar em fotojornalismo, com a obra fotográfica de Rizemberg Felipe do Jornal da Paraíba. Já na categoria telejornalismo ficou claro que a matéria de Hariane Arruda, “Trabalho Infantil: Infância Perdida”, veiculada na da TV João Pessoa merecia a primeira colocação muito mais que o showrnalismo de “Crônica para o aniversário de João Pessoa”, de Daniele ‘Basilio’ Huebra, (TV Cabo Branco). O terceiro lugar ficou de bom tamanho para Clara Torres, com a matéria “Tambaba: Paraíso dos Naturistas”, principalmente pela coragem de enfrentar, microfone em punho, todo o “naturismo” dos banhistas na famosa praia paraibana.

A vitória de José Euflávio, do Jornal A União, com a gigantesca reportagem-encarte “A Tragédia da Seca e a luta pela Transposição”, parecia meio óbvia. Pelo volume e qualidade do material, ele se tornou imbatível, ainda mais patrocinado pela máquina do Governo do Estado. Com esse tipo de infra-estrutura, até eu né Euflávio... Nesse caso, também preferiria a matéria de Cristina Fernandes, repórter do caderno Cidades, do CORREIO, que garantiu o terceiro lugar com “Salário maternidade vira negócio”. Mesmo sem ter lido, me parece tocar num tema social atualíssimo e muito mais importante que a polêmica da transposição. Sou mais esse tipo de jornalismo engajado que as matérias com pauta encomendada, como parecem ser as do primeiro e segundo lugares nessa categoria.

Em radiojornalismo a turma do Sistema Correio papou tudo. O primeiro lugar ficou com o jornalista Herbert Araújo, correspondente da Correio em Guarabira, com a matéria “Sapé: Poder e Prostituição”. Alessandra Torres e Mislene Santos, da CBN Notícias, obtiveram o segundo lugar, com a matéria “Clandestino”, abordando a questão do transporte urbano na Capital. Em terceiro lugar, o prêmio ficou com Verônica Guerra, coordenadora de jornalismo da Correio Sat e Edileide Villaça, jornalista e apresentadora da Rádio CBN, que produziram a matéria “Violência doméstica: Até Quando?”.

Numa coisa a premiação evoluiu: passou a premiar os segundos e terceiros lugares, coisa que não ocorreu em 2006. Mas o formato da premiação mostra sinais evidentes de cansaço, tendo como principal sintoma o próprio troféu confeccionado pelo artista plástico Marcos Pinto.

A vocação de Mário Tourinho para MC é latente, mas numa festa pomposa como aquela fica estranho o anfitrião dando uma de Sílvio Santos. Será que iria alterar tanto o orçamento do evento se os promotores contratassem um profissional gabaritado (da própria imprensa tabajara ou de fora) para fazer a condução da cerimônia? Falha da assessora de comunicação da AETC, Eliane Sobral, que pode ser boa jornalista, mas está vacilando quando tenta acumular a função de RP.

O que mais me incomoda, entretanto, é o caráter meramente institucionalizado desse tipo de premiação, onde o bom jornalismo está em posição desfavorável em relação às matérias institucionais, ou em pautas da moda, como turismo e economia. Ali não se premia jornalismo, mas peças de mídia, que em determinados momentos mais parecem artefatos da publicidade.

A comissão julgadora é outro ponto frágil do AETC Awards. Parece-me louvável inserir membros de setores da sociedade, como Ministério Público Estadual (MPE), Associação Paraibana de Imprensa (API) e dos Sindicatos dos Jornalistas e de Radialistas da Paraíba. Mas, imagino que se chamassem alguém de fora, como o pessoal do Observatório da Imprensa, da Fenaj ou da ABI, a credibilidade e sensação de isenção melhoraria.

No caso dos representantes das duas entidades relacionadas ao jornalismo (API e Sindicato dos Jornalistas), considero que, por mais experiência profissional que João Pinto e o Sr. Seixas possam ter na área, não estão preparados para avaliar com embasamento todas as categorias. Imagino que tanto na API, quanto do SJPEPB existam outros diretores com capacidade de avaliação tão boa, ou melhor, que a dos presidentes. Seria o caso da AECT quebrar a hierarquia institucional e convidar profissionais consagrados em cada categoria para avaliar os trabalhos dos colegas.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

O sonho procrastinado

O sonho procrastinado












Maranhão: fala difícil!



Às vezes acho que o senador Maranhão esquece que nós já chegamos ao século 21. Principalmente quando recorre a alguns arcaísmos do linguajar específico do direitês. Ontem mesmo ele voltou à carga quando os repórteres perguntaram sua opinião sobre a segunda cassação do governador Cássio. Não se fez de rogado e sapecou o verbo “procrastinar” para dizer que o adversário tentaria, a todo custo, retardar a saída, adiando seu sonho de retorno ao Palácio da Redenção.

Imagino que Zé Maranhão, quando usa esse tipo de discurso, tem em mente apenas o eleitorado de sua geração. Ele fala para uma parcela da população que valoriza o doutor que “fala difícil”. É um certo intelectualismo forçado que mais atrapalha do que ajuda o discurso político moderno. Essa mania pela fala rebuscada pode ter sido aquilo que provocou o “apagão” de memória do senador peemedebista no debate televisivo da última eleição, dando a Maranhão uma imagem injusta de senilidade precoce.

Os consultores de imagem e marqueteiros do senador deveriam tentar corrigir esses “vícios” de linguagem do ex-futuro-governador. Além de passar a idéia de que o locutor está ultrapassado, esse tipo de discurso empregado por Maranhão acaba se tornando ineficaz para boa parcela da população, que adota largamente um linguajar mais pop.

Esse é o tipo de desvantagem semântica que Maranhão tem em relação a Cunha Lima, apesar de quê, Cássio muitas vezes exagera na discursividade do campo jurídico, num discurso que é ao mesmo tempo empolado e vazio. As pessoas não estão interessadas mais em pirotecnias discursivas como propaganda da bagagem intelectual dos políticos. Elas preferem um discurso direto, sem arrudeios metalingüísticos, ou disfarces pseudo-intelectualóides.

Na Paraíba grassa ainda o modelo tradicionalista de se fazer política, onde o candidato deve ser forçosamente do time dos advogados. Sem preconceito com a galera jurística, mas hoje em dia o político de sucesso em comunicação com o eleitorado é aquele que domina discursos de várias disciplinas e os usa para destinatários específicos em situações e ambientes específicos.

Para as intervenções de mídia o mais acertado é construir um discurso sóbrio, pontual, objetivo, informativo. Nada de arcaísmos nem anglicismos, tipo stakeholders. O discurso da Administração também soa boçal, com coisas como “pro-ativo” ou “re-engenharia”. O ideal é que o político, ou qualquer outro “homem público” fale à imprensa como se precisasse explicar algo para sua neta de oito anos, claro que tomando o cuidado de não ser superficial, fluido nem simplório.

O último exemplo do senador é riquíssimo: ele usou o verbo transitivo direto procrastinar, que se origina do termo em latin “procrastinare”, querendo dizer apenas que o seu antagonista campinense intenta transferir para outro dia; adiar, delongar, demorar, espaçar, protrair. Mas se a intencionalidade de Maranhão era o uso na forma intransitiva, na verdade ele quis dizer que Cássio tentara “usar de delongas, de adiamentos” (cf. a versão eletrônica do Dicionário Aurélio – Século XXI).

Para o doutor Maranhão não custa lembrar que falar difícil, só em ocasiões especiais, feriados e fins de semana. Durante o “expediente” é melhor usar o velho e simples brasileirês mesmo. Sem firulas, pré-fixos, sufixos ou pós-fixos.

sábado, outubro 13, 2007

Meninas são principais vítimas da insegurança alimentar na Paraíba

fotos: Dalmo Oliveira

Família se alimenta em rua do conjunto Geisel, em João Pessoa (PB)


por Dalmo Oliveira






"A luta contra a fome e sua possível eliminação da superfície da Terra não constitui utopia, mas um objetivo perfeitamente realizável nos limites da capacidade dos homens e das possibilidades da terra"
Josué de Castro


Uma pesquisa finalizada no ano passado mostra uma realidade cruel da histórica guerra de gêneros. Nos 14 municípios onde os questionários foram aplicados foi verificado que as meninas, com idade inferior aos cinco anos, enfrentam problemas de desnutrição e insegurança alimentar numa proporção bem mais acentuada que os meninos. “A desnutrição foi mais grave entre as meninas, especialmente no indicador de déficit de peso para a idade”, diz o professor Rodrigo Pinheiro de Toledo Vianna, do Departamento de Nutrição, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, um dos coordenadores da pesquisa, iniciada em 2005.
Com o título de “Diagnóstico de Insegurança Alimentar na Paraíba”, a pesquisa é um alerta também para a questão da relação de gêneros numa realidade sociológica marcada pela predominância masculina e suas consequentes extensões, como o patriarcado e o machismo exacerbados. Sem dúvida um sério problema social em cidades do interior nordestino, como aquelas onde a pesquisa de Vianna foi realizada.
Na opinião de Rodrigo Vianna, as meninas são mais afetadas porque acabam recebendo menos atenção dos adultos, enquanto que os meninos usufruem de uma dedicação especial. Do ponto de vista antropológico, o “esquecimento” que atinge as meninas é o reflexo de uma cultura que vê no macho as maiores chances de perpetuação da espécie. As fêmeas seriam, numa percepção evolucionista, “desenhadas” para serem mais quietas, mais calmas, chamando menos atenção para si, necessitando, por isso, de menos recursos. Por outro lado, é a própria fêmea que se encarrega de cuidar e de alimentar os menores, abrindo mão até de sua própria sustentabilidade nutricional. É comum no Nordeste ver meninas a partir dos seis anos cuidando dos irmãos pequenos. Na mesa, na hora das refeições, a menina sofre por causa dessa determinação cultural ao ficar em segundo plano no momento de receber a comida.
Os entrevistadores ouviram cerca de cinco mil famílias nos municípios que em 2002 foram contemplados com as primeiras ações do programa federal Fome Zero. Os municípios pesquisados foram: Araruna, Areial, Aroeiras, Bananeiras, Bernadino Batista, Boqueirão, Cacimba de Dentro, Esperança, Itabaiana, Nova Floresta, Picuí, Queimadas, São José dos Ramos e Umbuzeiro. Rodrigo Vianna diz que nesse último a situação da insegurança alimentar da população é mais caótica, com 22,8% na categoria grave. Pelos dados da pesquisa, a Paraíba possui hoje cerca de 11% de sua população em situação de insegurança alimentar grave.




fonte: Rodrigo Vianna/CCS-UFPB



Com relação ao local de moradia, 14% dos domicílios pesquisados que apresentam um quadro grave de insegurança alimentar e nutricional estão situados na zona rural, contra 9% da zona urbana. Do total de domicílios investigados que apresentam problemas de insegurança alimentar, 2.404 casos estão no perímetro urbano, contra 2080 casos na zona rural.
Os pesquisadores dividem a problemática da insegurança alimentar em três níveis: Insegurança alimentar grave, que é o estado onde a família convive com a situação real de fome, obrigando os adultos e as crianças a pular refeições ou até mesmo ficarem até um dia inteiro sem comida. A considerada “moderada”, que significa a restrição na quantidade de alimentos disponíveis para a família, e a insegurança alimentar leve, “que representa o estado de diminuição da qualidade da alimentação das famílias”, explica o nutrólogo da UFPB. “Nas famílias com número de refeições inferiores a três por dia a situação começa a se agravar”, complementa.
Esse é o caso da família do desempregado Manoel Andrade, 34, morador da comunidade Nova República. Encontramos ele e a família perambulando pelas ruas do conjunto Ernesto Geisel e adjacências em busca de alimento e oportunidades de trabalho. A família de Andrade se compõe de quatro crianças mais a esposa, dona Josefa, 27. São crianças com seis, quatro, três e a mais nova de um ano e poucos meses. Três meninos (João, 6, Inácio, 4 e Beto Jr., o caçula) e a menina Jussara, 5. “Os mais velhos ajudam a pedir comida e a gente come tudo junto”, diz a mãe, durante o almoço na calçada. “Acho que os meninos são mais vivos. O novinho ainda tá no colo e a menina me ajuda muito a cuidar dele quando tenho que sair”, relata dona Zefa, a mãe da prole que apresenta um aspecto inegável de desnutrição.
“De vez em quando eu faço bico, limpo quintal, lavo carro, mas emprego fixo faz tempo que não tem. O jeito é botar todos pra pedir na rua”, diz Andrade. Ex-presidiário, com tatuagens na perna direita e no pescoço, o pai de família não é exatamente o modelo padrão de provedor. Mas nem por isso se mostra relapso com os filhos.“Na hora de comer a gente divide o que tem”, comenta.
O menino Júnior está sem roupas. Apesar do calor intenso, a impressão é de que sua nudez está mais relacionada com as péssimas condições da família do que pela elevada temperatura. Perto das 13 horas, as crianças se distraem com pirulitos. Algumas delas acabaram de conseguir pedaços de carne numa mesa no bar de seu Carlos, mais conhecido pelos fregueses como “Bar do Carrá”. “Eles passam de vez em quando aqui, pedindo nas casas. A prefeitura ou o estado deviam fazer alguma coisa com isso”, opina o dono do estabelecimento, contemplando a cena da família se alimentando na rua.

Negros e mestiços mais vulneráveis

A pesquisa também conclui que a prevalência da insegurança alimentar é maior quando há nos domicílios adolescentes e crianças. Outro agravante é quando a pessoa de referência da casa é do sexo feminino, provavelmente pelo fato de serem as mulheres trabalhadoras, historicamente, pior remuneradas que os homens. A situação se agrava ainda mais entre a população negra ou parda e nos domicílios com rendimentos per capita de no máximo um salário mínimo.
Em relação às crianças, a inseguridade alimentar piora na mesma proporção de quanto menor for a escolaridade dos pais. A pesquisa mostrou também que crianças de cor (da raça negra, também chamadas de “parda”, “mulata” ou “morena”) estão mais vulneráveis. Na região Nordeste, 6% das crianças na faixa até cinco anos de idade estão desnutridas, um quadro bem melhor que o da década de 70, quando 50% delas estavam nessa situação.
A pesquisa foi realizada por três professores e dez alunos de iniciação científica de várias áreas, como Nutrição, Enfermagem e Serviço Social. Eles fizeram perguntas do tipo: “Nos últimos três meses a(o) senhora (senhor) teve preocupação de que a comida na sua casa acabasse antes que a(o) senhora(senhor) tivesse condição de comprar, receber ou produzir mais comida?”. Perguntou-se também se nos últimos três meses, algum morador com menos de 18 anos de idade, ficou sem comer por um dia inteiro porque não havia dinheiro para comprar a comida.
“O IBGE fez pesquisa similar e os dados foram muito parecidos. A pesquisa foi conduzida com base na lei de segurança alimentar. Por esses dados, 50% da população estaria em insegurança”, acrescenta o pesquisador da UFPB. Vianna diz que, ao contrário do que ocorria em décadas anteriores, a desnutrição é pequena, mas um dado novo e curioso chamou a atenção dos especialistas: Há um quadro de obesidade crescente. “Dez por cento dos homens adultos estão obesos e 40% tem excesso de peso. Com relação às crianças, seis por cento estão com excesso de peso”, revela o pesquisador.
Ele diz que esse fenômeno nutricional se dá porque a população mantém hábitos ruins de alimentação por falta de recursos, preferindo investir o pouco recurso disponível em alimentos de baixa qualidade nutricional, como o macarrão, e em alimentos super-calóricos e ricos em açúcar. “O que temos é uma bomba-relógio armada para explodir mais adiante, porque estamos saindo de um quadro onde o problema era doenças ocasionadas pela desnutrição, como anemia, para gerar doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e complicações cardiovasculares”, adverte.
Para Rodrigo Vianna, falta política pública para garantir uma alimentação saudável. “A má alimentação aparece por vários aspectos, desde a falta de hábitos alimentares saudáveis até a dificuldade em se conseguir dinheiro para a compra de alimentos de melhor qualidade. Precisamos também melhorar a atenção primária nos sistemas de assistência públicos como o SUS”, aconselha.
A Chamada Nutricional realizada em 2005 no Semi-árido do Nordeste e no Norte de Minas, pelo Ministério do Desenvolvimento Social, também apontou problemas similares aos encontrados na pesquisa da Paraíba. Vianna diz que no ano passado a campanha de vacinação dos índios e quilombolas também encontrou quadros preocupantes de insegurança alimentar e nutricional junto a essas comunidades.
Para saber se há um estado de desnutrição nas crianças os nutricionistas comparam as medidas de dois itens: o déficit de peso e o déficit de altura. O primeiro diz ao investigador se a criança tem passado por privações nutricionais recentes. Já a deficiência na altura das crianças pode mostrar que elas foram submetidas a privações alimentares e de nutrientes durante um período longo de suas existências, chegando, portanto, ao que os especialistas chamam de desnutrição crônica. Os dois tipos de déficits têm uma implicação direta na qualidade de vida e até na espectativa de vida das pessoas. No Brasil, a esperança de vida, ao nascer, é de 71.7 anos. No Nordeste essa espectativa cai para 68.6 e na Paraíba é menor ainda: 67.9.
Foi o livro “Geopolítica da Fome” (Ed. Casa do Estudante do Brasil, Rio, 1954), do pernambucano Josué de Castro, que inaugurou um alerta nutricional para o surgimento, no Nordeste, de um novo biótipo humano, o homem-gabiru, raquítico e pouco maior do que um anão, como resultado de séculos de desnutrição.
Alguns especialistas do problema, como Bertoldo Kruse Grande de Arruda, professor Adjunto do Departamento de Medicina Social da UFPE e membro do Conselho Consultivo Técnico-Científico do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN), analisa a problemática alimentar e nutricional em dois níveis: 1) microeconômico, “Que envolve os fatores estruturais, aponta para medidas de longo prazo, de modo a assegurar uma oferta qualitativa e quantitativa de alimentos, em função das necessidades nutricionais da população”. E 2) macroeconômico, que segundo Kruse abrange os fatores do microambiente, confere elevado peso à demanda, que se faz de modo desigual em virtude, predominantemente, do poder de compra do consumidor, e considera a influência dos fatores ocupacionais, fisiológicos e sobretudo patológicos.
“É imprescindível ter em mente que estes setores se complementam, mutuamente se reforçam e consubstanciam a definição de uma política integrada de desenvolvimento econômico e social. As doenças carenciais não têm uma distribuição aleatória na população. Há um risco de ocorrência que pode ser estimado ou previsto em face de determinadas variáveis. Além dos aspectos relativos à oferta e demanda de alimentos, no caso brasileiro faz-se mister chamar a atenção para alguns condicionamentos que interferem na probabilidade do aparecimento da desnutrição: o predomínio de populações jovens (70% no grupo materno-infantil), com elevado padrão reprodutivo, prole numerosa, franco desequilíbrio na relação entre pessoas economicamente ativas e dependentes, gestações em menores de 20 anos, ou inversamente, em maiores de 35 anos”, acrescenta o pesquisador.
















Vianna, retrato da insegurança alimentar na PB

terça-feira, setembro 11, 2007

Seminário discute importância da cobertura de ciência e tecnologia na mídia regional
















O jornalista Dalmo Oliveira vai falar sobre jornalismo científico
na comunicação corporativa


Jornalismo científico na mídia regional é o tema central do seminário que acontece na próxima quarta – feira, 12 de setembro, a partir das 15 horas, no auditório da Embrapa Algodão, no bairro do Centenário, em Campina Grande. O evento tem o apoio da Embrapa e da Universidade Estadual da Paraíba.
Três painelistas abordarão temas relacionados à questão: o primeiro deles será o professor Cidoval Sousa (UEPB), que vai falar sobre “Educação & Divulgação científica”. Em seguida é a vez do professor Luíz Custódio (UEPB), que vai discorrer sobre “Mídia regional e notícia rural”. Para finalizar, o jornalista Dalmo Oliveira (Embrapa) apresenta considerações sobre o “Jornalismo científico na Comunicação empresarial”.
“Cada vez mais a mídia regional vê crescer sua importância no âmbito da comunicação social. Campina Grande é um exemplo rico dessa realidade, onde veículos locais e jornalistas formados na própria cidade assumiram há um bom tempo esse papel de protagonistas da divulgação midiática”, diz Dalmo Oliveira, assessor de comunicação da Embrapa e diretor do sindicato dos jornalistas no Estado.
Ele ressalta que o jornalismo científico e a divulgação de ciências na mídia regional ainda acontece de forma espontânea e pouco sistemática. “Esse tipo de cobertura precisa ser profissionalizada nos veículos locais já que Campina Grande é, inegavelmente, um pólo reconhecido de produção científica e tecnológica”, afirma.