RADIOWEB ZUMBI DOS PALMARES

quinta-feira, junho 15, 2006

Anemia Falciforme: evidência da evolução das espécie


Um mal que atinge 15% da população negra mundial pode ser uma peça importante de um antigo quebra-cabeças da comunidade científica mundial. A "peça" é a Anemia Falciforme e o quebra-cabeças dos pesquisadores é a teoria controversa e fascinante da evolução das espécies, cujo idealizador foi o naturalista inglês Charles Darwin.
A Anemia Falciforme tem origem desconhecida, mas provavelmente desenvolveu-se na África, há milhões de anos atrás. As evidências levam a crer que a doença surgiu como autodefesa do organismo humano para se proteger da malária, doença comum e muito séria nas regiões de clima quente. No jargão da Imunologia a falcemia, seria uma defesa auto-imune. Pelo prisma evolucionista a mutação genética do gene da hemoglobina é um dispositivo visível e comprovável da adaptação das espécies ao ambiente.
"No sistema imune de vários organismos vemos a maioria dos processos evolutivos da teoria de Darwin, mas em uma escala molecular. Os antígenos são reconhecidos pelos anticorpos ou receptores de células T, que sofrem um processo de eliminação (seleção negativa). Um paralelo à seleção natural são as variantes de antígenos que alteram seus epitopos, de modo a não serem mais reconhecidos pelo sistema imune podem se multiplicar. Deste modo parasitas (vírus, bactérias, etc.) escapam do sistema imune, porque são melhor adaptados em termos de possuírem antígenos que não são eliminados pela seleção natural (sistema imune)". A comparação entre o sistema imune e a seleção natural é feita pelo geneticista Fabrício Santos, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais.
Santos explica que este processo é cíclico, porque o sistema imune pode desenvolver novas moléculas capazes de reconhecer novos antígenos. "Isto se chama Teoria da Rainha de Copas ou 'Alice no país das maravilhas', pois cada um (antígeno, sistema imune) desenvolve novas características que são sempre acompanhadas pela outra parte envolvida. É como correr, correr, sem sair do lugar", ilustra o especialista.

Falcemia
A Anemia Falciforme é uma doença genética e hereditária, causada por uma anomalia da hemoglobina dos glóbulos vermelhos do sangue. A hemoglobina é a responsável pela retirada do oxigênio dos pulmões, transportando-o para os tecidos. A falcemia faz com que os glóbulos vermelhos percam a forma discóide original, enrijecendo-os e dando-lhes um formato de “foice”, daí a denominação "falciforme".
A forma comum da Anemia Falciforme (Hbss) acontece quando uma criança herda um gene da hemoglobina falciforme da mãe e outro do pai. É necessário que cada um dos pais tenha pelo menos um gene falciforme, o que significa que cada um é portador de um gene da hemoglobina falciforme e um gene da hemoglobina normal.
Quando duas pessoas portadoras do traço falciforme resolvem ter filhos, é importante que saibam que para cada gestação há a possibilidade, na razão de um para quatro, de que a criança tenha doença falciforme. Esse mesmo casal poderá gerar até 50% de sua prole transmitindo-lhe o traço da falcemia. As chances de gerarem crianças com hemoglobina normal é de um em quatro.
"Originalmente, o sistema imune foi associado a uma função de defesa do organismo. Mas uma outra função, igualmente importante e pouco abordada, é o papel que exerce na homeostasia (equilíbrio) do organismo. Nesta sua atividade, pode ser um sistema extremamente interligado aos sistemas endócrino e nervoso", diz a especialista em Imunologia Vivian Rumjanek, da Universidade Federal de do Rio de Janeiro.
Adaptação da espécie humana
A hipótese é de que o sistema imunológico tenha agido como gatilho do processo de evolução, à medida em que possibilitou a adaptação da raça humana a uma situação ambiental exterior desfavorável, em que a malária representava uma séria ameaça à sobrevivência da espécie.
No Brasil estima-se que em cada grupo de 100 pessoas 3 sejam portadoras do traço de Anemia Falciforme. Um em cada 500 negros brasileiros nasce com uma forma da doença.
"A Anemia Falciforme é uma anemia hemolítica severa, com índice alto de mortalidade e é hereditária, com padrão de herança autossômica recessiva. Em Cuba é freqüente a forma homozigótica de SS e o SC, como também é freqüente no país e, na Cidade de Havana, de portadores saudáveis (heterozigóticos AS e AC), que são aproximadamente respectivamente 3 e 0,7%", relata o especialista Marcos Raúl Martín Ruiz, especialista em Genética Clínica, do Centro Nacional de Genética Médica de Cuba.
Martín Ruiz diz que a enfermidade não tem tratamento específico, e que o tratamento usual se concentra em resolver as manifestações clínicas e educar o paciente e seus parentes na prevenção de episódios de crise e complicações. "A Anemia Falciforme também é conhecida com o nome de siclemia, ou sicklemia que é um anglicismo, mas esta denominação só é equivalente ao homozigótico de tipo SS. Outras denominações são: anemia por hemácias falciformes, anemia de células falciformes, drepanocitosis, anemia drepanocítica, falcemia e hemoglobinopatias SS e SC, em referência específica para ambas as formas genéticas" detalha o pesquisador cubano.
Embora haja uma maior incidência na raça negra, os brancos, particularmente os que são provenientes do mediterrâneo (Grécia, Itália, etc.) Oriente médio, Índia, também desenvolveram a mutação no gene da hemoglobina e apresentam a doença.
Reprodução humana

"A Anemia Falciforme não deve ser confundida com o traço falciforme. Possuir o traço falciforme significa que a pessoa é apenas portadora da doença, o que possibilita uma vida social normal. Como a condição de portador do traço falciforme é um estado benigno, muitas pessoas não estão cientes de que o possuem", informa o site da Associação dos Amigos e Portadores de Hemoglobinopatias (Amiph).
Como a questão reprodutiva está no cerne do processo evolucionista, a Anemia Falciforme, apesar de ter sido a vacina genética que o sistema imune desenvolveu para dar combate à malária, transformou-se na atualidade num importante problema de saúde publica, nos países onde o número de portadores é expressivo, como no Brasil. "Diante deste quadro é possível deduzir que a miscigenação racial existente no Brasil está gerando a continuidade desta anemia, conforme ratifica a literatura cientifica brasileira" opina a associação, que tem sede em Franca (SP).
Talvez não seja exatamente a miscigenação racial a grande responsável pelo alastramento do problema no país, mas a falta de uma cultura médica a respeito da falcemia. No sistema público de saúde não se vê qualquer campanha de esclarecimento para a população. No interior do país ainda é possível encontrar profissionais de saúde que desconhecem o problema ou tem pouquíssima informação a esse respeito.
Como a doença ataca mais severamente as crianças ainda no primeiro ano de vida, é bastante comum o caso de óbitos sem que a causa real tenha sido detectada. "Geralmente é durante a segunda metade do primeiro ano de vida de uma criança que aparecem os primeiros sintomas da doença. Exceção é feita nos casos onde o exame de sangue – específico para detecção da doença – foi realizado já no nascimento ou no berçário. Até atingir a idade escolar é comum a doença se manifestar", avisa a Amiph.
Cuba tem seu "Programa de Prevenção de Anemia Falciforme" que atende casais com alto risco de ter filhos afetados com as formas SS ou SC. O sistema de saúde da Ilha realiza o diagnóstico pré-natal, ajudando os casais a decidir sobre a continuação da gravidez, se o feto estiver afetado. "A coleta de amostra de sangue para o diagnóstico pré-natal se realiza geralmente até a semana 22 de gestação" diz Raul. A detecção prévia de casais com alto risco se faz mediante exame de hemoglobinas anormais em gestantes e do estudo do cônjuge naquelas que tiveram resultados positivos.