terça-feira, março 24, 2009

VÂNDALOS DEPREDAM PRAÇA NOVA DO RADIALISTAS


por Dalmo Oliveira e Fabiana Veloso 

      O povo brasileiro ainda precisa percorrer um longo caminho até se tornar um povo cidadão de fato e de direito. Um exemplo dessa deficiência cidadã os moradores do Conjunto dos Radialistas, que fica colado com o Geisel, já podem assistir cotidianamente na praça recém-reformada pela Prefeitura de João Pessoa. Antes mesmo da inauguração oficial do novo espaço público parte dos equipamentos do novo playground já foi roubado. Isso mesmo: roubaram os balanços do parquinho das crianças.

      Alguém, provavelmente, achando-se mais esperto do que todo o restante da comunidade resolveu levar as cadeirinhas do balanço do parque infantil prá casa. “As cadeirinhas não ficaram aí nem uma semana sequer pra que as crianças pudessem usar”, atesta um dos moradores vizinhos da praça, que prefere não se identificar para evitar represálias dos malfeitores. O local sofreu a revitalização que a PMJP vem fazendo em vários bairros da cidade, mas alguns problemas já começam a surgir precocemente.

      Além do desaparecimento das cadeirinhas do balanço, outro “defeito” começa a surgir na obra ainda inacabada: o surgimento de um formigueiro imenso no espaço do jardim central. “Eles deveriam ter eliminado o formigueiro antes de reformarem a praça”, diz a estudante Rosa Almeida, que passou a frequentar a praça depois da reforma.

      Noutras praças reformadas pela prefeitura foi nomeado a figura do curador, um membro da comunidade responsável pela conservação do equipamento comunitário. No Bancários, por exemplo, o músico Kennedy Costa assume a função, promovendo eventos, shows e outras ações de utilização e valoriação para esse tipo de espaço urbano comunitário.

      No caso da praça do Radialistas tem mais um agravante. Por ser historicamente uma área estigmatizada por conta da proximidade a uma comunidade super-carente, o local passou um bom período sendo evitado pelos comunitários, que reclamavam da ação de traficantes e do risco permanente de assaltos.

      Agora, com a revitalização do lugar, com a recuperação da iluminação pública, a reconstrução do passeio público e com a instalação de equipamentos novos, como os parquinhos para a criançada, a praça do Radialistas devolveu aos moradores da região um dos mais caros bens comunitários que é justamente a sociabilidade, onde as pessoas podem circular livremente, com segurança.

      E por falar em segurança, seria recomendável que o local ganhasse um posto permanente da PM, para consolidar de vez a recuperação do espaço dos cidadãos daquele conjunto habitacional e dos bairros circunvizinhos.  
 

sexta-feira, março 13, 2009

Jornalistas paraibanos promovem feijoada de adesão à candidatura de Marcela Sitônio

foto: Fabiana Veloso


Marcela disputa API


por Edmilson Pereira

Uma feijoada de adesão vai marcar o lançamento da chapa encabeça pela jornalista Marcela Sitônio a presidência da Associação Paraibana de Imprensa.
O evento vai acontecer no dia 28 de março (último sábado do mês) a partir do meio dia no Restaurante Panorâmico do Clube Cabo Branco, em Miramar, em João Pessoa.
Será cobrada uma taxa de R$ 10,00 por pessoa e muitas novidades estão previstas para a feijoada festiva que deverá reunir profissionais da imprensa de todo Estados, além de amigos e simpatizantes da candidatura de Marcela Sitônio. Informações pelos telefones 9983-3800 ou 9979-2989

<>
Mulheres jornalistas promovem quarto encontro na Paraíba.
Será no dia 18 de Abril (um sábado), o Quarto Encontro das Mulheres Jornalistas da Paraíba.
O evento vai acontecer a partir das 15h no restaurante L’Atlantique do Hotel Hardman, em Manaíra, com muitas novidades, descontração e a animação de sempre. A coordenação geral será de Marcela Sintônio, Ruth Avelino, Haceldama Borba e Ana Felipe.
Teremos uma convidada especial  ainda não definida, mas em breve estaremos divulgando.
A coordenação do evento pede que todas as mulheres da imprensa espalhem a notícia e participem dessa grande festa e aos homens que divulguem esse evento com muito carinho...

quarta-feira, março 04, 2009

Outro olhar sobre o carnaval baiano

foto: Dalmo Oliveira





















Outro olhar sobre o carnaval baiano1

Nos dias 22 e 23 de fevereiro participei de uma experiência muito interessante na área de jornalismo, indo a Salvador para uma cobertura especial de aspectos do carnaval soteropolitano. O convite foi feito pela Agência Afro-Latina e Euro-Americana de Informação (ALAI). Fomos ciceroneados pela fundadora da ONG, a jornalista Ana Alakija.






O programa se iniciou ao meio dia do domingo, 22, quando conhecemos o Observatório da Igualdade Racial e Violência contra a mulher, da Secretaria Municipal da Reparação de Salvador (SEMUR). A estrutura foi montada na ladeira de São Bento,quase na bifurcação da Castro Alves com a Avenida 7 de setembro. Nesse horário, a SEMUR oferecia uma suculenta feijoada baiana para os convidados. Ali encontrei meu camarada de lutas pelos direitos das pessoas com a doença falciforme (como eu), Altair Lira, presidente da Fenafal, e sua esposa, a enfermeira Maria Cândida Queiroz, que atua no programa de atenção aos portadores dessa hemoglobinopatia naquele município.








Lira acaba de ser contratado como consultor da SEMUR. “Hoje precisamos atuar na gestão de conflitos sociais”, diz Altair. A ONG que ele coordena, ABADFAL, acaba de lançar uma cartilha para a rede pública de ensino falando de anemia falciforme numa linguagem mais light.



A secretária municipal da Reparação, Maria Alice Pereira, revelou que a Prefeitura de Salvador deve tornar permanente o Observatório da Discriminação Racial e da Violência contra a mulher, ampliando sua ação para o ano inteiro, para além do período carnavalesco. O observatório foi criado em 2005 para receber denúncias de discriminação contra pessoas que trabalhavam no carnaval, principalmente ambulantes, afrodescendentes e mulheres. "A idéia era ver como a sociedade tratava esses pessoas que na verdade são a base do nosso carnaval. Agora queremos efetivamente tornar esse monitoramento permanente", diz Alice. Com uma infra-estrutura montada na Ladeira de São Bento, o Observatório está localizado no coração da folia baiana, próximo à Praça Castro Alves e ao Campo Grande, no chamado Circuíto Osmar. Entre as personalidades ligadas ao movimento pela igualdade racial, visitou o Observatório, o historiador paulista Hélio Santos, membro do Instituto Brasileiro da Diversidade (IBD). Ele nos contou que está envolvido na criação, no Rio de Janeiro, do "Selo da Diversidade" junto à secretaria da reparação carioca.

O Observatório funciona, na verdade, como um point de encontro da militância negra de Salvador, por onde passam ativistas, jornalistas, políticos e outras categorias diretamente interessadas no combate ao racismo e à violência contra mulheres. A idéia é tentar monitorar os eventos dessa categorias. Mas na cabeça da população parece funcionar de forma simbólica, ao dizer para os foliões “nós nos importamos com a exploração de negros e mulheres”.


foto: Dalmartim Oliveira














feijoada no Observatório


Do ponto de vista humanístico ou antropológico, o carnaval soteropolitano em 2009 poderia ser traduzido num misto de celebração pública da festa, do esgotamento do modelo axé music, do fortalecimento dos grupos fundadores, ligados diretamente à cultura afrobaiana, como os Filhos de Gandhi, completando 60 anos em 2009. Felizmente ou não, acabamos sem poder acompanhar efetivamente o desfile dos blocos etc. Mas não era exatamente esse intuito. O que podemos afirmar, enfim, é que o carnaval de Salvador está cada vez mais multicultural.



Primeiro porque no grande circuito só aumenta a participação de artistas de fora da indústria carnavalesca axezeira da Bahia. Depois porque durante a fuzarca a cidade fica cheia de alternativas ao axé, aos afoxés e outros ritmos hegemônicos na sonoridade da festa. O Pelourinho se transformou na ilha de resistência alternativa ao chamado “carnaval baiano”. Ali o nativo e os turistas (continuam indo aos milhares para a cidade do Salvador) podem usufruir de uma boa e velha bandinha carnavalesca, uma troça. Na praça do chafariz luminoso eu vi até apresentação de RAP, Break e outros trecos importados. Tem de tudo!

Sem falar na super-programação que foi montada nos largos. Ainda no domingo nós assistimos à apresentação do trio Simples REPortagem, no Largo Tereza Batista. Estava programada a vinda do lendário rapper estadunidense Afrikka Bambbatha, mas o show foi cancelado dada as condições de saúde de um dos fundadores do movimento Hip Hop.






foto: Dalmo Oliveira

O trio do Simples REPortagem: crítica social ácida



Na praia de Piatã, perto de onde costumo ficar hospedado na cidade (Jaguaribe!), rolava mais uma edição do descoladíssimo festival de hard core, que, anualmente, faz o contra-ponto ao tanto quanto profano carnaval do “axé”. Pra se ter ma idéia, esse ano uma das atrações foi a também lendária banda paulista Inocentes.


O meu primo, Matias Aquino, foi um dos corajosos jovens soteropolitanos que se dispôs a desembolsar R$ 200 pelo abadá estilisadíssimo dos Filhos de Gandhi. Ele tentava convencer minha prima, Mônica Nunes, de que queria sair no afoxé não por causa do assédio das mulheres aos membros do bloco, mas tão somente por conta da bela tradição cultural que o Gandhi simboliza para os soteropolitanos. Na concentração, ainda no Pelourinho, Matias e seu primo, Ravi Aquino, escolhiam colares com contas azuis e brancas para pendurar no pescoço e distribuir pelo trajeto. Quando o vocalista principal da banda do Filhos de Gandhi começou a gritar “Ajaiô!”, um arrepio ancestral tomou meu corpo.

Outro momento inesquecível foi o encontro com as senhoras baianas vindas de São Francisco do Conde, no Recônvaco Baiano. Aí sim, as legítimas baianas! Acho que é um viés interessante para a ALAI explorar: a tradição cultural do interior do estado e o diálogo entre as raízes culturais e a festa axé que se institucionalizou em Salvador.



foto: Dalmo Oliveira

Tradicionais baianas do Recônvavo



No Pelô ainda pude fotografar um maracatu rural misturado com tribo indígena a acompanhar uma fascinante passista negra vestida de Yemanjá. Uma imagem simplesmente linda, harmônica e mística. Esse é o lado “raíz”, do carnaval que falamos. Sem a presença da invasiva industria cultural do carnaval axé. Talvez, uma saída para a cidade seja justamente espalhar seu carnaval pluricultural para as periferias, onde as raízes da cultura do povo baiano são melhor preservadas.
foto: Dalmo Oliveira





Mas foi também no Pelourinho onde pudemos constatar que a desigualdade social na cidade continua longe de ser resolvida. Deitado no chão da praça, dormindo profundamente, talvez drogado e doente, fotografei um menino que devia ter uns nove anos de idade. Mesmo com o tempo chuvoso e toda a agitação do lugar, a criança se encolhia no chão sem que qualquer barulho o despertasse. Roupas velhas e imundas cobriam o corpo negro e magricela do garoto. Para terminar de compor a cena deprimente, um cão vira-latas também dormia próximo ao menino. Procurei localizar algum agente de saúde no local, mas não detectei nenhum. Ironicamente, perto dali lia um outdoor da Prefeitura informando que praquele carnaval 2000 profissionais de saúde seriam mobilizados. Aquela situação ficou me incomodando até que expus o drama do garoto para o Altair Lira, mas quando fomos em busca do garoto ele já havia sumido.

foto: Dalmo Oliveira

Vida de cão: menor dorme na praça durante o carnaval do Pelourinho



Na segunda-feira, 23, fomos acompanhar o bloco de arrasto “Mudança do Garcia”, que esse ano foi proibido de usar trios elétricos. O bloco ganhou fama pela forma esculachada como seus foliões desfilam e por causa dos inúmeros protestos que a população faz levando cartazes para a avenida com críticas a Deus e o mundo. Dentro do Mudança vários outros blocos se incorporam. Nós engrossamos as fileiras do bloco Os Bikud@s, fomentado pelo Instituto Cultural Steve Biko, uma entidade sem fins lucrativos fundada em 31 de julho de 1992, com a missão de promover a ascensão social da população negra através da educação e do resgate de seus valores ancestrais.





Pela primeira vez na história o Mudança entrou na programação oficial do carnaval baiano. O bloco entrou no Campo Grande com carroças puxadas por burros e muito protesto social. Haviam cartazes criticando o prefeito, defendo o aborto, o direito dos homossexuais e em defesa do ambiente. Durante o trajeto do Garcia até o Campo Grande, encontramos figuras ilustres da política soteropolitana, como a ex-prefeita Lidice da Mata e o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo.

foto: Dalmo Oliveira

Mudança do Garcia: irreverência e prostesto




SOBRE O INTERCÂMBIO



Talvez a ALAI possa ampliar sua abordagem para a cobertura midiática étnica noutros estados brasileiros. Poderiam ser montados núcleos estaduais interessados em promover uma cobertura alternativa dos carnavais regionais. Isso não impediria a continuidade dos intercâmbios internacionais, principalmente com os países africanos lusófonos.




Faz-se urgente um projeto de captação de recursos para a logística do intercâmbio. Passagens, hospedagem e refeições (ou diárias) são indispensáveis para o progresso do programa.




Seria importante a otimização da publicação do material produzido pelos participantes do programa, em formato de revista ou livro, com coletânea de artigos. Imagino que algumas escolas de comunicação da região teriam interesse nesse tipo de parceria com a ALAI.









1Artigo-relatório para a ALAI, produzido pelo jornalista Dalmo Oliveira, a partir de cobertura especial durante o carnaval 2009.

domingo, março 01, 2009

Meus irmãos e irmãs


Ao povo paraibano,
Meus irmãos e irmãs,




No início da Quaresma e na abertura da Campanha da Fraternidade, fui pego de surpresa por minha suspensão das atividades de sacerdote desta querida Arquidiocese. Estranhei que a decisão da suspensão do exercício ministerial fosse dada sumariamente e publicizada na imprensa local antes que eu fosse previamente ouvido; pois, já estava certo de que no dia seguinte, eu iria encontrar-me com o Sr. Arcebispo. Somente no dia 26/02/2009, às 16:20h, recebi o comunicado oficial da Arquidiocese. Assim sendo, venho prestar alguns esclarecimentos.
Sou padre desta Igreja particular desde 1976 e venho me dedicando ao meu ministério sacerdotal com muito empenho, assumindo diversas atividades, como pároco, professor e hoje Deputado Federal. Nunca tive dúvida de que minha opção de vida foi o sacerdócio que é vivido em muitas frentes. Tenho a graça de ser representante do povo paraibano, quando coloquei meu nome à disposição do Partido dos Trabalhadores pleiteando um mandado parlamentar. Fui eleito Deputado Estadual por duas vezes e Federal por duas legislaturas. O que é mais gratificante é o serviço que posso prestar ao povo brasileiro, em especial do meu Estado.
A minha ordenação me configurou à pessoa de Jesus Cristo. A sua causa é a minha causa. Por isso, não temo as ameaças que me fazem. Se sou uma pessoa marcada para morrer, é porque como padre e deputado não posso calar-me diante das injustiças e da violação dos Direitos Humanos. O que me dá forças para continuar denunciando as arbitrariedades, é o Evangelho, é o chamado de Jesus para segui-lo em defesa dos excluídos da sociedade.
A minha suspensão das atividades sacerdotais foi devida a entrevista que saiu na revista eletrônica Congresso em Foco no dia 14 de fevereiro e reproduzida pelo jornal “O Norte”em 26/02/2009. O que está contido na entrevista já é debatido no seio da Igreja. Digo-lhes com sinceridade que não esperava por tal punição que me impede de celebrar a Eucaristia que é o Oxigênio e motivação existencial do meu 'Munus Sacerdotal' na comunhão com Deus com a Igreja e com o povo. Alguns pontos da entrevista merecem algumas considerações que fiz e que estão ausentes no referido jornal, e que agora tenho a oportunidade de esclarecê-los.
Primeiro: O celibato é um valor na vida da Igreja. . Muitos celibatários vivem uma vida exemplar e inspiradora. Portanto, não é o celibato que questiono, mas sua obrigatoriedade. Quando o celibato é imposto e obrigado pode trazer sofrimentos humanos desnecessários. O celibato aceito como carisma é abençoado e o celibato obrigatório e imposto pode se tornar um martírio silencioso. Esse tema já foi bastante discutido na Igreja e continua sendo. Recentemente, o bispo Dom Clemente Isnard falou sobre o assunto num livro intitulado: “Reflexões de um bispo” . E o teólogo americano Donald Cozzens, lançou o livro: “Liberar o Celibato”. Entretanto, o que digo na entrevista não desvaloriza a disciplina do celibato.
Segundo: No que diz respeito aos homossexuais, temos que amá-los como irmãos. Hoje devido a homofobia que é crescente, se impõe, como nunca, o espírito de tolerância. Caso contrário, assistimos a esgarçamentos do tecido da sociedade civil com consequências funestas para o convívio e para o respeito necessários. Como padre e Deputado, luto pela tolerância e contra a discriminação entre os diferentes. Ninguém pode ser alijado dos seus direitos por ser homossexual. Jesus de Nazaré mostrou que o respeito à dignidade humana é o remédio para combater a intolerância e a discriminação.
“Qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou que se fundamente no sexo, na raça, na cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada, porque é contrária ao plano de Deus”. (GS 29). Jesus na sua pedagogia acolhia a todos, pouco importava quem eram seus ouvintes, bastava que tivessem os ouvidos bem abertos para acolher sua palavra e o coração aberto para iniciar o caminho de adesão ao Reino. Os homossexuais nessa sociedade homofóbica são silenciados. Só se liberta dos preconceitos quem é capaz de restituir a palavra aos silenciados. A tolerância para com os homossexuais é antes de mais nada uma exigência ética. Ela representa o direito que deve ser reconhecido a cada pessoa .
Terceiro: A epidemia de AIDS é uma realidade que desafia a Igreja na sua moral. A moral é uma realidade prática que tem conseqüências. Nos confrontamos constantemente entre a Moral Ideal pregada pela Igreja e a realidade. O ideal da moral da Igreja deve ser vista como metas para onde se orientar. Nessa perspectiva, ninguém se sente culpabilizado ou desobediente por não realizar o proposto, mas sabe para onde se dirigir. O ideal seria que ninguém se contaminasse com a AIDS, mas a realidade é outra. Devido ao número crescente de pessoas vítimas de doenças sexualmente transmissíveis, o preservativo entra como uma questão de saúde pública, como é o caso da gravidez na adolescência. Lembro-me de uma entrevista que o Cardeal Arns disse nos anos noventa que o preservativo era um mal menor. No entanto o cardeal, em nenhum momento desrespeitou a doutrina da Igreja.
Como padre aprendí que o Bispo é o pastor da Igreja, por isso jurei no dia da minha ordenação, obediência ao meu bispo, porém, quero frisar que a obediência no seu sentido teológico envolve a capacidade de dialogar sem submissão. Como lembra Dom Tomás Balduíno “a autoridade da Igreja tem mil caminhos para dialogar com o sacerdócio”
Que o Deus da misericórdia, da ternura, da bondade e do amor me conceda, nesta Quaresma, a serenidade das Bem aventuranças para que eu possa enfrentar esse meu sofrimento, que me levará à alegria da Páscoa.

João Pessoa PB, 29/02/2009
LUIZ ALBUQUERQUE COUTO - Sacerdote e Dep. Federal.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Encontro com Gil

fotos: dalmo oliveira









 






 

Esse é um relato duma noite meio que mágica, meio que trágica. Mas o que se sobressai mesmo é a magia! Quando encontrei o Gilberto Gil, minutos antes do início do show, ele tabulava uma tranqüila conversa/entrevista com o Sílvio Osias, renomado jornalista de cultura da cidade. Fiquei esperando minha vez e prestando atenção no papo dos dois. Aproveitei para fazer umas fotos desse encontro antropocultural proporcionado por aquele flagrante inesperado.

 

Imaginava, minutos antes, enquanto vínhamos no carro pro local do concerto, o que ele pensaria em se apresentar num canto com emblema tão sui generis: Jacaré Pop. “Porra, botar o Ministro pra tocar no Jacaré é sacanagem! É ou não é Tadeu?”. O cara cansado de tocar em estruturas como as do Canecão... Mas o poeta tem razão, e o bom artista deve ir aonde o povo está. E lá estava Gil e seu público sedento e apaixonado.

 

Quando, enfim, a produção começou a avisar ao Gil que o espetáculo começaria pontualmente às 11h30, e o Sílvio foi embora com sua filha, pude pedir um minuto da atenção de um dos meus maiores ídolos vivos na MPB. Expliquei que também sou jornalista e que trazia algumas “lembranças” para ele. Primeiro dê-lhe um exemplar do último cd do Toninho Borbo,  “Para fins de mercado”, explicando que se tratava de uma nova (e boa!) geração de músicos de Campina Grande.

 

Depois ofereci uma camiseta de nossa campanha ao Sindicato dos Jornalistas da Paraíba. Com a frase “Jornalismo combina com ética”. Expliquei que o produto fora produzido com tecidos do algodão da variedade naturalmente colorido, desenvolvido pela Embrapa, que, por coincidência ou não, também fica na Rainha da Borborema.

 

E por último, tirei da sacolinha um exemplar duma cartilha sobre anemia falciforme, recém lançada na cidade de Salvador, numa parceria da ABADFAL com as secretarias municipais de Saúde e de Educação de lá, especialmente pensada para o público escolar.

Gil falou que conhece a hemoglobinopatia que possuo. “Atinge mais nós pretos, né!?”, disse-me o Ministro. Daí revelei que queremos desenvolver um projeto para a mídia televisiva e internet com depoimentos de personalidades nacionais afrodescendente e de outras etnias, explicando para a população, em rápidos spots, aspectos da doença falciforme, que hoje é, reconhecidamente, o maior problema de saúde pública brasileiro e, mesmo assim, a população não tem informação.

 

“Procurem-me quando estiver tudo pronto. Pode me procurar”, disse Gil. Dê-lhe boas-vindas à Paraíba, agradeci e sai. Fui curtir o show magnífico que ele e sua mágica banda realizaram naquela noite, para um púbico, digamos, modesto prum cara como o Gil. O que se seguiu foram DUAS horas inteiríssimas de uma apresentação absolutamente inesquecível para mim.

 

Só quem curte muito o Gil sabe o transe que rola enquanto ele canta e toca. O que vi foi um músico incansável sobre o palco, que encerrou o espetáculo aos pulos, como se estivera na beira-mar de Ondina, arrastando o povo no seu Expresso 2222. Dá gosto de ver aquele negro chegar a esse ponto da carreira e da vida como ele chegou, na manha, na resistência e na coragem.

 

Admiro Gilberto Gil pelo rastaman que sempre foi, e agora mais que nunca com suas dreadlocks exuberantes, reconhecendo neste artista uma espécie de militância, um certo sacerdócio, atéico e fervoroso, ao mesmo tempo. O papo que ele levara com o Osias antes do início do show, tinha a ver com essa viagem filosófica-existencialista, sobre Deus etc. “Alguém me disse uma vez, é preciso refletir sobre a morte e o que ela realmente significa para cada um de nós”, comentava o artista. Uma das músicas executadas no show do Jacaré Pop foi “Não Tenho Medo da Morte”, do mais novo disco, Banda Larga Cordel, com músicas inéditas de Gil, depois que Quanta, em 1997. Veja o que diz a letra:

Não tenho medo da morte/mas sim medo de morrer/qual seria a diferença/você há de perguntar/é que a morte já é depois/que eu deixar de respirar/morrer ainda é aqui/na vida, no sol, no ar/ainda pode haver dor/ou vontade de mijar

A morte já é depois/já não haverá ninguém/como eu aqui agora/pensando sobre o além/já não haverá o além/o além já será então/não terei pé nem cabeça/nem figado, nem pulmão/como poderei ter medo/se não terei coração?

Não tenho medo da morte/mas medo de morrer, sim/a morte e depois de mim/mas quem vai morrer sou eu/o derradeiro ato meu/e eu terei de estar presente/assim como um presidente/dando posse ao sucessor/terei que morrer vivendo/sabendo que já me vou/ então nesse instante sim/sofrerei quem sabe um choque/um piripaque, ou um baque/um calafrio ou um toque/coisas naturais da vida/como comer, caminhar/morrer de morte matada/morrer de morte morrida/quem sabe eu sinta saudade/como em qualquer despedida.

 

Eu acho que estava cursando a 7ª série do antigo ginasial, no Colégio Santo Antonio, em Guarabira, quando uma de minhas melhores amigas da época, Ismênia, me perguntou, do nada, o que eu achava do Gilberto Gil. Lembro muito claramente que ela fez essa pergunta porque estávamos, na hora do recreio, perto de um lugar onde o rádio tocava “Andar com fé”. Naquele momento eu não sabia o que responder para a menina dos meus olhos. Depois saquei que ela perguntara aquilo provavelmente porque comparava minha negritude e similitude com a do cantor baiano. Mena está no meu imaginário, então, como uma das primeiras pessoas a tocar, sutilmente, através do Gil, na questão racial que me acompanharia a vida inteira.

  




















com a galera, curtindo o show