quinta-feira, agosto 18, 2011

Dinossauros e Ciganos, patrimônios de Sousa

Texto e fotos de Fabiana Veloso (fabiana.velosopb@gmail.com)

Fogão improvisado em casa cigana num dos ranchos de Sousa
Ouro, luxo, riqueza, fartura... Essas seriam algumas das palavras que comporiam o imaginário sobre os ciganos. Até seria para os que vivem em outras regiões, mas não para os ciganos que moram em Sousa, Alto sertão da Paraíba.

Miséria e fome foram apontados pelos participantes da conferência de segurança alimentar regional em visita a comunidade cigana do local. Uma terra seca, que contrasta com as, aproximadamente, 800 vidas que moram no local. Falta água. Falta autoestima dos remanescentes que ficaram nas comunidades, chamadas de ranchos. São três ao todo, organizados por famílias. Todas marcadas pelo mesmo estigma do preconceito e da discriminação. É sabido que a população de Sousa, aqueles que não moram nos ranchos Raimundo Benevides Gadelha (conhecida também como Pedro Maia), Vicente Vidal de Negreiros e Valério Correia, manifestam um tratamento ainda de desconfiança para com o povo cigano.

Em 1982 os “ciganos de Sousa” receberam um terreno do candidato à deputado, na época, Gilberto Sarmento, e na seqüência o então governador Antônio Mariz fez projeto para a construção de casas em alvenaria. José Maranhão, em seu governo, após a morte de Mariz, construiu umas 100 casas, faltando outras para a conclusão do projeto. Foi então o começo de um novo tempo, onde os ciganos deixariam a filosofia nômade para se fixarem em um lugar - já fazem trinta anos, mas pouco se conquistou depois disso.

Segundo dados da pesquisa da professora doutora Janine Marta, apresentados pelo gerente de Políticas de Ações Afirmativas da SEMDH, Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana do Estado da Paraíba, José Roberto da Silva, na Conferência de Segurança Alimentar Regional, em Sousa, estima-se que existam quatro mil ciganos na Paraíba. A maior parte no município de Sousa com cerca de 750. Destes apenas 32 ciganos sabem ler e escrever e quatro estão na universidade.

A pesquisa mostra o quanto os ciganos na Paraíba precisam de atenção do governo federal, estadual e municipal. Pois além do terreno doado por Gilberto Sarmento, a maior população de ciganos no estado pouco receberam. Projetos foram iniciados e abandonados com as mudanças de gestão.

CCDI: um computador para toda a comunidade
Numa situação de verdadeiro descaso do poder público. Francisco Vidal, conhecido como Nestor Cigano, vice-presidente da CCDI (Centro Calon de Desenvolvimento Integral), fala do potencial cultural das comunidades ciganas. Segundo ele, através do Centro, os ciganos poderiam estar desenvolvendo várias atividades como a confecção de roupas típicas e, através de cursos, o repasse do aprendizado na elaboração da comida e da música, por exemplo. A tradição da dança cigana ainda é mantida com dificuldades por um grupo de jovens que, vez ou outra, se apresenta. No entanto, o dialeto cigano está dia a dia sendo esquecido.

Ronaldo reclama do forte preconceito que seu povo ainda sofre
Ronaldo Carlos, líder das comunidades ciganas de Sousa, diz que o maior problema é mesmo o preconceito. Segundo ele, antes de qualquer apuração, tudo que aparece de ruim o povo cigano é responsabilizado. Esse tratamento é confirmado quando uma atendente do de um posto de saúde é chamada para fazer um curativo em uma cigana de 84 anos, e ao chegar ao local a prestadora do serviço se recusa a fazer o atendimento com alegações discriminatórias, diz Carlos. Fatos como estes são reforçados quando Renato Soraio, membro da comunidade cigana Pedro Maia. Ele informa que apenas 5% das famílias estão sendo beneficiadas com um programa de distribuição de pão.

Vida cigana: tradição e resistência
A Conferência Regional de Segurança Alimentar ocorrida em Sousa , no dia 13 de agosto, contou com apenas 25 inscritos. Segundo a organização, mesmo com os convites feitos as secretarias dos municípios, a participação foi baixa. Aparecida, Bom Sucesso, São José do Rio do Peixe, Poço de José de Moura, São Francisco e Sousa estavam representados e terão delegados para a estadual.

segunda-feira, agosto 15, 2011

SFA-PB vai compor comitê gestor da produção integrada da caprinocultura leiteira

Fonte: afe.com.br

Paraíba é o maior produtor nacional de leite de cabra, com 18 mil litros/dia

A Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento na Paraíba (SFA-PB) está compondo o comitê gestor do Sistema Agropecuário de Produção Integrada de Caprinocultura Leiteira no estado da Paraíba.  Segundo o fiscal federal Antonio Hybernon da Silva, o sistema deve se concentrar na região do Cariri Paraibano.
“A proposta do comitê é definir diretrizes e normas, com a participação de representantes de toda a cadeia produtiva da caprinocultura leiteira local, de forma a incentivar o uso racional dos recursos naturais, com aumento de produção e de produtividade”, explica Hybernon.
Outra iniciativa será a qualificação de técnicos multiplicadores, instrutores e produtores rurais. “Com isso queremos promover a qualidade do leite, agregando valor e competitividade a esse agronegócio, gerando as condições para a avaliação da conformidade dos produtos derivados dessa bacia leiteira”, acrescenta.
Segundo Hybernon, está sendo sugerida ainda a criação de uma central de comercialização do leite de cabras e seus derivados em uma cidade-pólo do Cariri. A Paraíba é o maior produtor brasileiro de leite de cabra, com uma produção diária de cerca de 18 mil litros. Os técnicos da SFA-PB deverão colaborar também na escrituração zootécnica, o que permitirá a rastreabilidade e auditorias para avaliações das conformidades técnicas do leite caprino e seus derivados.
Além da SFA-PB, o comitê será composto pela Embrapa Caprinos e Ovinos, localizada em Sobral (CE), Universidade Federal da Paraíba, a partir do campus de Areia, Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Pesca da Paraíba (Sedap), Emater-PB, Emepa, SEBRAE, Federação da Agricultura  e Pecuária da Paraíba (FAEPA), Associação Paraibana de Criadores de Caprinos e Ovinos (APACCO) e Banco do Nordeste. 

quinta-feira, agosto 11, 2011

Sousa sedia conferência do Alto Sertão

Evento acontece neste sábado, 13, no campus da UFCG

Aldenora, da Pastoral da Criança, é uma das principais ativistas na Paraíba (Foto: Dalmo Oliveira)

A cidade de Sousa recebe neste sábado, dia 13, a Conferência Regional de Segurança Alimentar e Nutricional do Alto Sertão. O evento ocorrerá entre as 9 e 17 horas, no auditório principal do campus da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Segundo Arimatéa França, presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea-PB), a conferência regional mudou de local por necessidade de ajustes na estrutura e organização do evento. “Estamos esperando cerca de 200 pessoas representando as cidades polarizadas por Sousa para trazer a indispensável contribuição nesse processo de erradicação da pobreza e da insegurança alimentar nos seus municípios e no estado da Paraíba”, diz Ari.
Além de Sousa, a conferência do Alto Sertão deverá atrair representantes de Cachoeira dos Índios, Bonsucesso, Brejo Santo, São José de Caiana, Santa Helena, Marizópolis, Santa Cruz, Nazarezinho, Aparecida, São José da Lagoa Tapada e Riacho dos Cavalos.
Três eixos nortearão as discussões do evento em Sousa: 1 – Avanços, ameaças e perspectivas para a efetivação do direito humano à alimentação adequada e saudável e da soberania alimentar; 2 – Plano de Segurança Alimentar e Nutricional; 3 – Sistema e Política de Segurança Alimentar e Nutricional.
Ao final do dia serão escolhidos os delegados à 3ª Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional da Paraíba, cujo tema é “Alimentação Adequada e Saudável: direito de todos”, programada para ser realizada nos dias 15, 16 e 17 de setembro, em Campina Grande, com local ainda indefinido.. A Conferência Estadual visa a elaboração do plano de segurança alimentar da Paraíba. Ela antecede a Conferência Nacional, prevista para o período de 7 a 11 de novembro, em Salvador (BA).
Para outras informações, os interessados poderão entrar em contato com o Consea-PB através dos endereços eletrônicos conseapb@yahoo.com.br ou conseapb@gmail.com, ou ainda pelos telefones (83) 3218.5630 e (83) 3211.8758 ou pelo celular 8846.6075.
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Redação: Dalmo Oliveira - (MTB-PB 0598)
(83) 8897.1340
twitter: @dalmo_oliveira

segunda-feira, agosto 08, 2011

Povo Potiguara continua sofrendo insegurança alimentar na Paraíba

Por Dalmo Oliveira


Momento da mística potiguara (Fotos: Fabiana Veloso)
Uma população de quase 20 mil pessoas, segundo o IBGE. Esse é o tamanho da cidadania do povo potiguara que vive na região da Baía da Traição, Marcação e Rio Tinto, no litoral norte paraibano. Autodenominados “povos originais”, essa parcela da população da Paraíba é uma das mais expostas à insegurança alimentar e nutricional em nosso estado.
            Para discutir essa temática, o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional promoveu no último dia cinco, na Pousada das Ocas, a Conferência Temática Indígena preparatória para a terceira Conferência Estadual, que acontecerá no dias 01, 02 e 03 de setembro em Lagoa Seca.
            Dentre os temas discutidos, o que mais se destacou foi aquele relacionado à recuperação ambiental do Rio Sinimbu, que corta grande parte do território da reserva potiguara. Segundo as lideranças locais, é preciso que os órgãos ambientais autorizem e promovam urgentemente o desassoreamento do leito do Sinimbu.
            Manoel Eufrásio Rodrigues, membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena, ex-cacique da aldeia São Miguel, relatou que é preciso que se garanta a reconstrução imediata das comportas (represas) instaladas na desembocadura do rio, para evitar que a água do mar invada o rio nos períodos de maré cheia. Segundo Nel, quando isso ocorre, o rio se torna inviável para o uso agrícola por um longo período devido o acúmulo de sal em seu leito. “Precisamos de um projeto produtivo permanente”, acrescenta.
Comadre da aldeia do Forte: presença das mulheres
            Sandro Gomes Barbosa, liderança potiguara que representa a população indígena paraibana na Secretaria de Políticas para Mulheres e da Diversidade Humana, diz que, para o desenvolvimento agrícola local, é necessário a garantia de acesso a máquinas e implementos agrícolas.
Outro problema apontado pelos líderes potiguara diz respeito à burocracia dos órgãos ambientais na autorização de licenciamentos ambientais para o cultivo de ostras na bacia do Rio Mamanguape. Segundo Eufrásio, esse tipo de atividade tem um potencial considerável para a ativação da economia indígena naquela região, mas está emperrado por causa do excesso de burocracia de órgãos como IBAMA e SUDEMA.
            Os rios da região proporcionam as condições para os cultivos de subsistência, nas várzeas, chamados de paús, como milho, feijão, macaxeira, mandioca, inhame, batata, verduras e fruteiras, como banana, abacaxi. A base da alimentação indígena também está ligada à pesca e à criação de aves e outros animais.
Conferência temática atraiu lideranças indígenas
        Outra reclamação saída da conferência está relacionada aos editais do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), devido à quantidade de documentos para o cadastramento dos produtores indígenas, o que acaba inviabilizando a participação de grande parte deles na oferta de alimentos para as escolas da região. Os potiguara também reclamaram o fato de que os editais só são divulgados em datas muito próximas aos prazos finais da concorrência, não dando chance para que os produtores locais se preparem para disputar os certames públicos.
            As mulheres potiguara também reclamaram do atraso na entrega das cestas-básicas, e exigem que a distribuição ocorra mensalmente. Segundo elas, as cestas só são entregas a cada três meses e houve ocasião em que os alimentos só foram distribuídos duas vezes num ano.
            “As cestas devem ser distribuídas para cada família e não uma cesta para cada casa”, reclama Cida, parteira da Aldeia do Forte, ao argumentar que na tradição potiguara, em cada casa coabitam várias famílias. Ela também se queixa da baixa qualidade dos alimentos que compõem as cestas e defende que haja um aumento nos itens que compõem as cestas-básicas. Uma pesquisa realizada recentemente nas aldeias, revelou um índice elevado de obesidade nas crianças por conta do acesso aos alimentos inadequados.
Grupos avaliaram políticas públicas de segurança alimentar
            Foram citados ainda problemas envolvendo o cadastramento para o bolsa-família na região e a burocracia para a obtenção dos benefícios do salário-maternidade. As lideranças, entretanto, consideram positiva a criação do Sistema Previdenciário Indígena, mas cobraram agilidade na capacitação de técnicos para o manuseio do novo sistema, o que tem retardado o cadastramento nas áreas dos potiguara.
            Os líderes indígenas da Baía da Traição aproveitaram a conferência para redigir uma moção cobrando a instalação imediata de uma Unidade Gestora da FUNAI naquela reserva. Segundo o cacique Sandro Gomes Barbosa, da Aldeia do Forte, é preciso que se desenvolva um trabalho de vigilância nutricional nas aldeias. Ele também apontou para a urgência de que as prefeituras da região implantem conselhos municipais de segurança alimentar.
Evento alcançou objetivos do CONSEA


SAÚDE INDÍGENA

            Mais terra, mais saúde. Essa é uma das conclusões preliminares de uma pesquisa iniciada pela estudante de medicina da UnB, Nadielle Targino de Lima, que está fazendo um levantamento das condições de saúde dos índios potiguara na Paraíba. A pesquisa é uma atividade do Programa de Extensão “Vidas paralelas”, e vai ouvir grupos específicos nas aldeias, como líderes, profissionais da saúde, jovens, idosos e mulheres.
            Apesar de inicial, a pesquisa indica que os profissionais de saúde dos municípios estão mais próximos à população indígena do que outros agentes, como o pessoal da FUNASA e do SESAI. “Não existe apoio da FUNAI algum”, diz Nadielle.
            Ela informou que os casos relatados são de hipertensão, problemas gastrointestinais, diarréias e verminoses. Houve relatos ainda de ocorrência de cânceres e alcoolismo, em menor proporção. 

quinta-feira, agosto 04, 2011

Tiro no pé!

Comunitários ouvem o governador (Fotos: Vanivaldo Ferreira/SECOM)













A audiência popular convocada pela equipe do Orçamento Democrático Estadual para o último dia 02, no Colégio Municipal Fenelon Câmara, no Conjunto Geisel, para discutir o "projeto de segurança pública da região", com a presença do governado Ricardo Coutinho e do Secretário Claudio Lima, foi um verdadeiro "tiro no pé" para os organizadores do evento.
Mesmo com uma presença tímida dos moradores locais, a maioria das falas populares apontou pela rejeição aos equipamentos de segurança pública que o governo pretende instalar no terreno disponível na entrada principal do bairro. Para a grata surpresa dos presentes, segmentos diversos do Geisel apresentaram propostas diferenciadas das duas que estariam em jogo - inclusive o shopping center -, como a construção de uma central de serviços de cidadania, com agências bancárias, posto dos Correios e outros serviços diretamente direcionados às demandas antigas daquela localidade.
Alguns moradores também aproveitaram a oportunidade para pedir ao governador que leve para o Geisel uma unidade de saúde, tipo UPA. Noutras intervenções, cidadãos que moram hoje vizinhos ao terreno em disputa registraram seus receios em terem que passar a conviver diariamente com uma academia de polícia onde ocorre a prática de tiros em stands para treinamento de policiais.
O argumento do governo de que o equipamento diminuiria a violência crescente na região também não convenceu muita gente. Moradores lembraram que a delegacia que funcionava no Geisel (4ª DD) está fechada há oito anos. A Acadepol, em Mangabeira, também não fez diminuir a violência naquela região, é só lembrar que a Academia e a Secretaria de Segurança ficam na entrada para a praia de Jacarapé, onde a bandidagem local costuma "desovar" suas vítimas.
Ao final, o governador revelou que os representantes dos policiais já manifestaram interesse em que a Acadepol seja instalada próximo ao novo IPC, na PB 008, na comunidade de Mussum Mago, onde o Estado dispõe de um amplo terreno e onde os stands de tiro poderiam funcionar sem colocar a população em risco.
De qualquer forma o evento serviu para trazer o governador ao Geisel para ouvir muitas outras reivindicações comunitárias. Serviu também para que as lideranças locais se rearticulassem, mostrando o potencial que podem alcançar quando unificam suas bandeiras reivindicatórias. Como morador do Geisel desde sua fundação, confesso que me senti orgulhoso com a qualidade das nossas intervenções.
Infelizmente não houve tempo nem oportunidade de apresentarmos a proposta de plebiscito para a mudança do nome do conjunto, uma reivindicação antiga dos moradores que nunca engoliram o fato do bairro homenagear um general que comandou com mão de ferro uma das fases mais violentas da ditadura brasileira.

Ricardo disse que pode levar Acadepol para PB 008