RADIOWEB ZUMBI DOS PALMARES

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Bahia reconhece candaces contemporãneas

Fotos: Dalmo Oliveira
por Dalmo Oliveira


Trinta mulheres negras ou que possuem uma atuação reconhecida na promoção dos direitos da mulher negra no estado da Bahia receberam na noite de ontem uma premiação de reconhecimento através de um projeto proposto pelo Bloco Afro Giga Negro, vencedor de edital público da Secretaria Estadual de Políticas Públicas para Mulheres (SPM). O evento ocorreu no Largo Quincas Berro D’água, no Pelourinho.


Segundo Lindinalva de Paula, do Coletivos de Entidades Negras (CEN), a premiação ocorre dentro das ações dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Ela diz que a ideia foi contemplar, nesta edição, especialmente, mulheres negras religiosas de matriz africana e quilombolas. “Escolhemos esse público-alvo porque essa discussão ainda não chegou de forma concreta nas comunidades de povos tradicionais”, informa de Paula.
Lindinalva de Paula, uma das organizadoras 

O critério de escolha foi destacar e dar visibilidade às mulheres que constroem o dia a dia dentro das comunidades periféricas e que não estão na mídia. O projeto destacou mulheres que atuam na produção cultural, especialmente nos blocos afro de pouca projeção. Mulheres que atuam na comunicação também foram premiadas. Militantes do movimento negro, ativistas do movimento de juventude negra, entre outras.

“Nosso projeto foi todo filmado. As nossas idas aos quilombos e terreiros. Queremos preparar um vídeo que sirva para a rede de ensino, ajudando a implementar a lei 10.639 nas escolas. É um material riquíssimo”, detalha Lindinalva. “A população negra hoje passa de 82% e nós somos invisíveis. Nós somos invisíveis na cultura: as cantoras que se destacam foram da Bahia não têm a cara da Bahia, não têm a nossa identidade. Então você traz o resgate, a manutenção e a preservação da nossa cultura, com esse tipo de ação”, diz.

“Esse prêmio é uma simbologia, tendo em vista que o índice de desigualdades é maior sobre a população negra. A gente hoje não quer mais pedir, a gente quer nosso lugar de direito na sociedade brasileira”, diz Rose Marie de Jesus, da SPM. Segundo ela, a Secretaria pretende priorizar a mulheres negras e as trabalhadoras rurais em 2013.

Denice Santiago: PM mais negra

“O mais bonito de tudo isso é entendermos que nós somos senhoras dos nossos destinos. Não deixar que a violência sexista, que nos oprimiu durante anos, continue a nos subjugar. A PM viveu 176 anos apenas com homens nos seus quadros, é importantíssimo a gente firmar a força da mulher nessa profissão, tão reconhecidamente masculina”, destaca a capitã Denice Santiago, outra condecorada na noite de premiação. “Sendo Salvador uma cidade negra, por excelência, é importante a gente fazer uma homenagem a uma mulher negra dessa corporação, pra que possamos dizer a todas as nossas meninas negras dessa cidade que elas podem, que elas devem, que elas têm que vencer”, avalia Santiago.

A engenheira química Gildete Clarinda das Virgens, também homenageada, fez menção à heroína baiana Maria Felipa Oliveira. “Nós estamos nos conscientizando de buscar aquilo que nos foi negado”, comenta. Ela destacou o projeto que desenvolve no Curuzu com ensino de línguas estrangeiras e de informática para adolescentes carentes.
Gildete: investindo na formação de crianças negras

Projeto incentivou combate à violência contra mulheres
As 30 mulheres homenageadas foram consideradas como “candaces” na modernidade baiana. As candaces, ou kandaces, foram guerreiras governantes da civilização Cush, uma das mais antigas organizações matriarcais do mundo antigo, que habitaram a região onde hoje está a Etiópia. Segundo os antropólogos e historiadores, nessa organização matriarcal não havia escravização, nem exploração de gênero, fenômenos que só surgiram com o advento do patriarcado nas antigas sociedades africanas. O modelo de governança das candaces também teria sido a base do modelo de democracia, saindo da região de Kemet, no Egito, e sendo adotado, posteriormente, pelos gregos.
Música e dança animaram premiação


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