quinta-feira, março 01, 2007

De como a ciência pode ajudar a notícia*

por Carlos Chaparro
Fonte: www.reescrita.jor.br

Jornalismo não é ciência. Mas também não é simples técnica, como alguns querem. Quanto mais complicado fica o mundo, e quanto mais rapidez, quantidade e complexidade as informações adquirem, integrando-se ao próprio ritmo da vida, mais qualidades e competências se exigem do jornalista. Isso, por causa do papel a um tempo regulador e dinamizador que ao jornalismo cabe, no sucesso dos conflitos que fazem a atualidade. Não basta à sociedade que o jornalista relate o que acontece. É preciso que se torne capaz de compreender e atribuir significados precisos ao que acontece. E deve fazê-lo rapidamente, inserindo-se no "hoje" do próprio acontecimento. Neste mundo em que os sujeitos institucionalizados discursam e agem pelos acontecimentos que produzem, o jornalismo é submetido a pressões fantásticas, as pressões da quantidade e da qualidade dos fatos noticiáveis. Está submetido, também, a crescentes pressões éticas e morais, por causa da responsabilidade dos efeitos, já que as alterações pretendidas ou provocadas pelas notícias estão inevitavelmente vinculados a interesses particulares. No espaço e no tempo do jornalismo, disputa-se o lucro, o poder, o prestígio, a influência, a dominação. Luta-se pela sobrevivência, pela dignidade, pela preservação da vida, pelos ideais, pelo futuro. E uma nova linguagem se desenvolveu e consolidou na lógica dos conflitos da atualidade: a linguagem do acontecimento. Sob o ponto de vista da técnica e da tecnologia, fazer jornalismo está cada vez mais fácil. Sob o ponto de vista da linguagem, torna-se cada vez mais complicado noticiar com rigor o que acontece. A atribuição de significados ao que acontece exige, além de compromissos de fundamento com princípios e valores universais, capacidade intelectual para apreender e compreender o que não aparece no formato material dos acontecimentos: os contextos, provavelmente complexos, e as razões motivadoras e controladoras, provavelmente ocultas. Jornalismo, repita-se, não é ciência. Mas fazia-lhe bem adotar alguns procedimentos científicos. Analogias possíveis É procedimento científico, por exemplo, olhar os fatos, recortá-los, respeitá-los, investigá-los, decompô-los, relacioná-los com outros - e sempre voltar a eles, para verificações e aferições. Estou convencido de que o jornalismo seria diferente, melhor, mais confiável, mais rigoroso, se os jornalistas adotassem profissionalmente esse procedimento como obrigação metodológica! É característica do conhecimento científico transcender os fatos, ir aos antecedentes, às consequências, às razões que os próprios fatos não revelam, para que adquiram contextos de significação que possam torná-los compreensíveis. Ah! Como o relato da atualidade seria bem mais interessante e esclarecedor para os cidadãos leitores, radio-ouvintes e telespectadores, se houvesse o cuidado e o esforço jornalístico de ir além das aparências e da simples transcrição de recados organizados! É vocação da ciência ser analítica: circunscreve os problemas, estuda-os isoladamente, em profundidade, para que do desvendamento surja a explicação clara e precisa. Que tristeza me dá quando leio textos de repórteres ou percebo decisões de editores que reduzem os relatos jornalísticos a insignificantes atas administrativas, reproduzindo discursos burocráticos, ou construindo-os. São profissionais que, talvez mais por preguiça do que por despreparo, não buscam as contradições e oposições, ou até as complementaridades que dão relevância aos problemas da atualidade. E porque não buscam a essência dos conteúdos, não a enxergam. Empobrecem o seu trabalho e o conceito de atualidade, que dá sentido e importância à profissão. Ensina a filosofia da ciência que o conhecimento científico é verificável. Para assim ser, assume hipóteses a partir de indícios, de conhecimentos pré-existentes (que devem ser pesquisados) e de raciocínios lógicos. Mas a ciência não produz nem aceita verdades a priori; testa as hipóteses, submete as conjecturas à prova, para que todas as afirmações se tornem verificáveis, ainda que para revelar a falibilidade do método. Pois está na hora de os jornalistas acreditarem que o seu sucesso depende da seriedade metodológica com que constroem e socializam conhecimento. Utilidade e isenção Há pelo menos mais duas características da ciência que permitem analogias proveitosas para o jornalismo. Uma delas, a utilidade. A ciência é útil, se não por mais nada, ao menos porque produz conhecimento. E para que possa ser útil, tem como compromisso e razão de ser a busca da verdade. Mais do que isso: não apenas procura a verdade, mas faz questão de aceitá-la, qualquer que seja, e essa, a outra característica. A qualidade das reportagens mudaria para melhor se os jornalistas se habituassem a trabalhar, em especial nas chamadas grandes reportagens, com a metodologia e o conceito da hipótese. Na prática, porém, em vez de testar hipóteses (quando as têm...), lutam por confirmá-las, porque gostam delas, ou porque as preferem, ou porque lhes convêm. Ou por nada disso, mas simplesmente porque são preguiçosos. Pelos descaminhos da conveniência, das preferências, do gosto ou da preguiça, há jornalistas que chutam para o alto a isenção, a independência e o respeito ao dever de informar. Jornalismo não é ciência, nem nas ações nem no discurso. Ainda bem, porque, no mínimo das diferenças, o jornalista precisa preservar a capacidade de indignar-se. Mas o jornalismo produziria conteúdos e criaria formas de melhor qualidade se os jornalistas acreditassem nas vantagens de trabalhar com método. E se aprendessem a fazê-lo.

Carlos Chaparro é professor de jornalismo da ECA/USP *

sábado, fevereiro 24, 2007

E assim se passaram quatro décadas


22 de fevereiro. Num piscar de olhos acordo com 40 anos nas costas e uma trajetória pessoal que mais parece um sonho (às vezes pesadelo). Só de jornalismo lá se vão mais de 16 primaveras, desde que Sergio Botelho me deu a primeira chance no universitário “Dois Pontos”. Depois O Norte e A União. Antes dos impressos passei pelo rádio, como operador de áudio na gloriosa Constelação FM de Guarabira e na Correio FM (a elitista “Classe A”).
Hoje o jornalismo é apenas o lastro profissional que me levou ao serviço público. É também o canal de tentar organizar uma categoria que nem mais se reconhece como tal, através de um sindicalismo caricato, sem conteúdo e com vazio de sentido. Diante disso tudo me pergunto: porque escolhi essa profissão? A resposta é óbvia: foi a profissão que me escolheu. Claro! Quando se nasce em Guarabira, numa família como a minha, não se pode escolher muito. É pegar ou lagar!
Foi tia Neves que me ofereceu as primeiras opções: loja de tecidos ou Rádio Cultura, e logicamente peguei a opção dois. Alguns meses depois já estava pilotando a mesa da rádio brejeira madrugada adentro. Dali pra Constelação foi um pulo. Com a carteira assinada, mudei os últimos dois anos do “científico” para aulas noturnas no velho e bom Estadual. Quando chegou a hora do vestiba, outra vez a escolha foi fácil: Comunicação Social. E lá vou eu de uma vez por todas morar na capital. Nunca mais voltei pra cidade que me pariu!
Quarenta anos passam rápido e se não fosse uma artrose de quadril, conseqüência da anemia falciforme, diria que estou “na flor da idade”. Mas, diferente da energética juventude, sinto nos miolos aquilo que os coroas chamam de “maturidade”, que nada mais é do que o acúmulo de experiências (alegrias e frustrações) que vivenciamos a cada dia. Acho que casei (e fiz filhos) cedo, aos 24 anos. Hoje teria deixado lá pros 35, olhe lá... Quatro décadas, quatro filhas! É muito, prum cara que se achava esperto, moderno e calculista. Não há de que se arrepender: vale a lição pra posteridade.
Além das herdeiras, os anos são bons também pra medir as amizades. Depois de tanto tempo, não acumulei amigos que se contasse nos dedos das minhas duas mãos. Com o passar dos anos fui me tornando mais cético e exigente com a amizade e com o amor (por tabela). Gente, quanto mais se torna íntimo, mais se decepciona (ou se apaixona, por outro lado). Eu tenho poucos em quem realmente posso contar, mas os que tenho são de qualidade. Agora, a impressão que me dá é que os amigos dessa época são os definitivos, mesmo porque não haverá mais tanto tempo para se estar experimentando com os seres humanos.
Finda a juventude, que venha a maturidade (ou a “melhor idade”, como queiram). Estou pronto e grato a Deus por alcançar este estágio de vida. Falta consolidar alguns projetos: casa própria, outras plagas, estabilidade financeira etc. E ver os frutos darem frutos!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A gata e o rato



Esse filme da briguinha de gato & rato entre o “mago” e a Dra. Paletó eu já vi antes. É sempre assim quando se trata da disputa pelo poder. Meu avô sempre disse: “dois bicudos não se beijam!”. É engraçado como dois tremendos gananciosos feito eles foram parar ao mesmo tempo no mesmo partido, o glorioso PSB, de saudosa influência comunista/socialista.

Isso mostra um pouco o processo de degeneração ideológica porque passou a maioria dos chamados “partidos de esquerda” no Brasil. As legendas passaram a ser loteadas pelos capas-pretas remanescentes do velho “regime”. No caso do arranca-rabo entre o prefeito e a vereadora, acho que a questão é mais umbilical mesmo.

Lembro-me de quando estava na Bahia, o “mago” passou por um constrangimento parecido a esse que ele está infligindo à advogada nossa, quando a máfia do PT local começou a pressioná-lo para sair do partido do presidente Lula. Ricardo resistiu até onde pode e depois resolveu se desligar da legenda petista.

O discurso dos algozes de Coutinho era semelhante ao que ele usa agora para defenestrar a vereadora: ela não aceita se submeter ao centralismo “democrático” do partido. Efetivamente, Nadja tornou-se uma oposição isolada dentro do próprio PSB, assumindo na Câmara uma posição crítica em relação ao “companheiro” prefeito.

Coisa parecida ocorreu com o vereador Professor Paiva, que estando filiado ao PT, não rezava a cartilha do partido e fez oposição sistemática ao “mago”, mesmo tendo o PT na “base aliada”.

Ficou claro que a legenda se tornou pequena demais para os dois. E o PSB tomou o partido de Ricardo (sem trocadilhos) porque ele é simplesmente hoje a principal estrela do partido no Estado, com influência direta, inclusive, no Palácio do Planalto.

Espera-se que Nadja opte por se transferir para uma sigla mais “combativa” (ainda existe isso?), para firmar de vez seu rótulo de contestadora e crítica. Com a briga perde principalmente o eleitor do PSB que votou nos dois pesando tratar-se de líderes sintonizados com os anseios populares, mas descobriu que suas ideologias foram formatadas verdadeiramente com foco nos respectivos umbigos.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Demissão em massa no Sistema Paraíba

Demissão em massa no Sistema Paraíba


O ano não poderia iniciar com uma notícia pior para os profissionais que trabalham no Sistema Paraíba de Comunicação, que está anunciando a demissão em massa de mais de 100 pessoas em vários setores do jornal. Pra se ter uma idéia, apenas na redação da capital,  cerca de 11 jornalistas estão na lista de demissão e serão afastados de suas funções.

A medida fez o Jornal da Paraíba tirar de circulação, entre outros, o suplemento "Augusto" e vai reduzir páginas e suprimir editorias. O corte acontece no momento em que a jornalista Angélica Lúcio assume a editoria geral, que já vinha na verdade comandado a edição executiva do jornal logo após a morte de Roelof Sá.

Os executivos do Sistema Paraíba alegam a necessidade de contenção de despesas para a demissão coletiva. O fato é que, sendo uma das empresas de comunicação mais atreladas ao governo estadual, o grupo Paraíba foi um dos primeiros a sentir o reflexo das medidas de austeridade administrativa adotadas pelo governo Cássio.

Fonte: http://www.sindjornalistaspb.org/Content/Noticias.aspx?id=18

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Jornalismo premiado




Numa festa bacana, dia 13 à noite, um seleto grupo se reuniu para assistir a entrega de prêmios e troféus aos profissionais da imprensa local que inscreveram trabalhos na versão anual do prêmio AETC de jornalismo. O clima era de caricatura tabajara de um desses awards da vida. Confesso que não me sinto à vontade nesse tipo de cerimônia. Além do que, ar-condicionado e gente fumando, definitivamente não combinam.

Apesar de ser uma festa do jornalismo local, a platéia se compunha de espécimes de vários setores: políticos, empresários, militares, clérigos, estudantes e “comunicadores” de toda sorte. Mas a festa era nossa! Para celebrarmos nossa profissão, nosso trabalho de cada dia. Para premiar o produto dessa indústria de contar estórias cotidianas. Por isso mesmo eu estava satisfeito, em ver o reconhecimento de profissionais que são tão pouco valorizados pelos seus empregadores, principalmente aqui na capital onde a média salarial quase não alcança os mil reais.

Cada um dos primeiros colocados levou também para casa um cheque de R$ 2.500,00, mas os segundos e terceiros colocados ficaram apenas com um “troféu” de gosto duvidoso, confeccionado com algo parecendo com material plástico. Pelamordedeus Tourino! Porque não diluíram o valor total da premiação para os três primeiros? Eu não conheço outro prêmio desse porte que só bonifica o primeirão...

Bem, de qualquer forma não deixa de ser um incentivo, para que mais coleguinhas invistam no profissionalismo, na criatividade e na sensibilidade, como fez Eliabe Elon (1º. Lugar na categoria “internet”) no seu artigo “Vida, apenas vida” publicado no portal Paraíba.com. Ou para estimular mais reportagens como a de Michelle Almeida, sobre as conseqüências do desastre da barragem de Camará, veiculada na 98 FM, do Sistema Correio, ganhadora na categoria “radiojornalismo”. Nessa categoria, aliás, as matérias deixaram um pouco a reportagem de lado e partiram muito mais para uma modalidade de campanha de utilidade pública.

Na categoria “fotojornalismo”, Francisco França (JPB) foi o vencedor com uma imagem-flagrante de uma criança em queda livre de cima de um caminhão, que ilustrou a matéria “Transporte irregular coloca vida de crianças em risco”. O segundo ligar ficou com Marcos Alexandre, do Correio da Paraíba, autor da foto “A dor de um pai que perde o filho”, um close de uma vítima fatal de acidente com moto. Bem sintonizada com a linha editorial do jornal, a foto de Alexandre traz fortes traços sensacionalistas. E o terceiro colocado é o colega Xico Morais, do glorioso Diário da Borborema, com uma foto manjada (mas perfeita) de catadores de lixo, cujo sugestivo título é “Homens urubus”.

No telejornalismo, o campeão é Laerte Cerqueira, da TV Correio, e uma matéria especial intitulada “Riquezas de Areia”. Eu teria escolhido a matéria da segunda colocada, Ivani Leitão: “Erosão ameaça a barreira do Cabo Branco”, veiculada na afiliada da Globo, por ser um belo exemplar de jornalismo científico, com fala de várias fontes e excelentes imagens. E o terceiro lugar foi para Michele Almeida, com uma espécie de mini-documentário sobre a Igreja de São Francisco, publicada na TV Assembléia.

A categoria mais importante (Impresso – Texto) foi vencida por Nara Valusca (foto), com a reportagem: “História da Paraíba: As Ligas, os EUA e o Golpe de 64”, publicada no Jornal O Norte. As matérias de Patrícia Braz (A União) sobre Sivuca, e de Toinho Vicente (Correio da Paraíba) sobre a Coluna Prestes, ficaram com as colocações posteriores.

Mestre Gonzaga

A homenagem a Luís Gonzaga Rodrigues é mais uma prova de que o jornalismo opinativo continua dando as cartas no jogo da mídia paraibana. O mestre Gonzaga é mais que um mero “colunista”: dono de um texto conciso e rebuscado, ele está mais para a crônica cotidiana que para o jornalismo, propriamente dito. Nos quatro anos que freqüentei a redação de O Norte, quase não o vi por lá. Acho que já naquele tempo seu Rodrigues mandava o texto por algum office-boy.

No discurso de agradecimento, Gonzaga se excedeu no tempo lembrando as performances de Fidel Castro. A impressão que dava é de que, por conta da fartura de uísques e espumantes, a maioria não estava prestando atenção no pronunciamento. Enquanto isso, alguns coleguinhas passavam de mesa em mesa para fazer a média.
José Nunes aproveitou a solenidade para lançar sua brochura “Gonzaga Rodrigues – Uma vida bem escrita”, pela União Editora. O livreto revela a vocação poética de Gonzaga já na página 21: “[...] Eu queria ser poeta. Vim com esse sonho literário. Chegando aqui, o choque foi que não tinha ninguém esperando a minha poesia”.

E é de poesia e de realidade que se nutre o jornalismo praticado hoje pelos colegas de Gonzaga Rodrigues. Um jornalismo que se desenvolve ao sabor das precisões corporativas e das exigências da conjuntura político-social. Menos romântico, é verdade, mas nem por isso menos sonhador. Por fim, espero apenas que prêmios como esse da AETC sirvam também de alerta aos jornalistas, no sentido de que tudo o que escrevemos e publicamos tem uma repercussão no seio da sociedade, seja refletindo nosso passado, como fez Nara Valusca, ou repintando nosso triste presente, como no texto de Eliabe.