sexta-feira, maio 28, 2010
O PT da Paraíba é um fenômeno
Mas a pretensa votação da candidata lulista na Paraíba me fez refletir sobre um realidade curiosa: porque essa aceitação do PT não reflete também para os candidatos petistas tabajaras? Porque os paraibanos têm votado massiçamente em Lula (e agora em Dilma), mas não votam nos candidatos do PT local?? É como se fossem até de partidos diferentes...
Lembro que o último candidato a governador que o PT paraibano lançou, o professor Avenzoar Arruda, não conseguiu atingir 5% da votação. A legenda também não consegue, historicamente, emplacar deputados e senadores. Na capital, João Pessoa, o número de vereadores da legenda também é irrisório. Porque será que o PT cresceu sua bancada no país inteiro, mas encruou na Paraíba?
Acho que uma primeira razão é o fato de o partido fazer questão de mostrar para a população que, na Paraíba, continua alimentando uma divisão interna tão irracional que não consegue consenso para nada. A disputa pelos comando locais continuam fazendo do PT paraibano seu principal inimigo. Traições, expulsões se juntam a uma combinação peculiar de políticos inescrupulosos e autoritários que encontraram na legenda petista local o campo fértil de suas carreiras personalistas.
Dessa forma, homens e mulheres de bem, que fundaram o partido na Paraíba, acabam sendo confundidos com personalidades de caráter duvidoso na disputa dos parcos votos destinados aos candidatos do partido. É preciso observa ainda que o partido deixou ingressar em suas fileiras figuras pesadas da tradicional política paraibana, como a ex-deputada Lúcia Braga. Ao tempo em que afastou militantes promissores como o ex-prefeito Ricardo Coutinho.
Mas o que mais atrapalha o progresso do PT no estado continua sendo sua baixa auto-estima. Nos últimos anos, sob uma visão estratégica equivocada, o partido preferiu o caminho fácil e preguiçoso das alianças partidárias, deixando de disputar os principais cargos executivos nas maiores cidades do estado e também ao Palácio da Redenção. Dessa maneira, os comandantes-em-chefe da legenda na Paraíba assumiram o triste papel de coadjuvantes no mercado da política partidária local.
Por causa desta postura, Luciano Cartaxo, atual vice-governador, não conseguiu manter sequer seu nome na chapa majoritária do peemedebista José Maranhão para as eleições deste ano. De maneira semelhante, o deputado Luiz Couto não ousa disputar uma das vagas ao Senado, conformando-se apenas em tentar manter seu mandato na Câmara Federal.
A autofagia petista leva o partido do presidente Lula a se contentar com as migalhas que sobram dos partidos tradicionais que monopolizam a política partidária paraibana. Em 2010 veremos qual a repercussão desta postura para aqueles que ainda crêem que o PT pode ser uma alternativa à política fisiologista e ultrapassada que se pratica por esses rincões.
Literatura em desencanto
Antigamente eu curtia ler os devaneios memorísticos de Aranha na sua coluna "Essas Coisas", no Correio da Paraíba. Não imaginava como o cara podia ter tanta coragem de expor coisas tão somente ligadas ao seu interesse pessoal, memórias familiares ou causos sobre amigos artistas mais chegados. Na maioria das vezes, informações que só interessam a um seleto grupo. Mas era bacana poder ver a liberdade de escrita dum cara que flertou de perto com o movimento tropicalista, contando suas aventuras e (desventuras) no circuito alienado de uma espécie de versão flower power tupiniquim.
Mais recentemente, ver Aranha ocupar o espaço privilegiado daquilo que seria o lugar do Editorial do CP me dá vertigem. Primeiro porque não entendo como um veículo "engajado" como o CP abre mão de ter seu Editorial. Depois por perceber que para Aranha, aquele espaço é pesado demais para o exercício de uma literatura pulp fiction.
Quando Carlos Aranha anunciou sua disposição de concorrer a uma cadeira na Academia Paraibana de Letras eu pensei: "É muita coragem!". Mas ele conseguiu e hoje é um dos nossos imortais. Ficava imaginando como um cara pop feito Aranha se encaixaria num universo tão naftalínico como aquele, mas parece que os odores da APL lhes renovaram os pulmões. Agora vejo que a obrigação à imortalidade literária o leva a uma humilhante auto-exposição nas páginas do Correio.
Que descanse em paz!
domingo, março 21, 2010
Vergonha de voar – porque a Paraíba não é digna de um aeroporto competitivo e moderno?
Um grupo de jovens comissários de bordo de uma das companhias aéreas que mantém conexão no aeroporto da cidade de Santa Rita, na região metropolitana da capital, João Pessoa, desembarca pela primeira vez no Castro Pinto. Uma das aeromoças comenta com os colegas voadores:
- Esse aeroporto é bem charmosinho, né?!
Talvez a aeroviária tenha sido apenas gentil ao achar charme na pequenez e simplicidade do principal aeroporto paraibano. Mas para quem costuma pegar avião, saindo do Nordeste para os principais destinos nacionais, sabe que chamar o Castro Pinto de “charmoso” é apenas um cordial eufemismo.
Se os nossos visitantes fossem julgar a Paraíba pelas dimensões de seu aeroporto, certamente nosso primeiro “cartão de visitas” não estaria compatível com o nível de desenvolvimento, muito menos com o estoque de belezas das “terras tabajaras”. Além disso, é preciso reforçar o apelo à falta de acessibilidade às plataformas de embarque. O Castro Pinto deve ser um dos poucos aeroportos de padrão “internacional” que possui apenas o chamado “piso superior”.
É realmente humilhante ver os passageiros atravessarem parte da pista a pé para tomarem seus acentos nas aeronaves que decolam do CP. Para pessoas com alguma limitação de locomoção, embarque e desembarque aqui se torna uma aventura vexatória.
A impressão que eu tive quando anunciaram o final da reforma do CP foi de que o aeroporto havia passado apenas por uma espécie de maquiagem. Granito por todos os lados na portada principal e nos saguões, mas nada significativo ao que se refere à logística de embarque e desembarque. A área construída permaneceu praticamente a mesma.
Agora ficamos sabendo que o CP não dispõe de equipamentos mais modernos que permitem a decolagem e aterrissagem de aeronaves em condições climatológicas especiais, mesmo considerando que a localização geográfica do CP é uma das melhores entre os aeroportos em todo o país: longe das principais zonas urbanas e no topo do magnífico planalto santarritense.
É claro que não dá para comparar nossa pujança turística com a de uma Recife ou de uma Natal, ou Salvador ou ainda de uma Fortaleza. Mas parece evidente que, se tivéssemos um aeroporto mais bem equipado e melhor estruturado, automaticamente atrairíamos mais e mais companhias aéreas e, consequentemente, mais turistas do que aqueles trazidos e levados pelos oito vôos diários do CP. Essa equação me lembra a história do ovo e galinha: não atraímos turismo porque temos um aeroporto fuleiro, ou temos um aeroporto fuleiro porque não conseguimos potencializar nosso turismo???
Penso que podemos conciliar o “charme” do CP com sua importância estratégica para o turismo made in PB. Aqui não seria necessária uma reforma que transformasse o CP numa espécie de shopping center “temático” pra gringo ver, como ocorre, por exemplo, com o aeroporto de Brasília ou o Dois de Julho, na capital baiana, que a partir das 23 horas se transforma num deserto. Nosso aeroporto também tem a vantagem de não oferecer aos usuários a visão desagradável de uma espécie de garagem de luxo dos aviões militares da FAB, como ocorre na vizinha Natal. Nem está no coração da metrópole como em Recife e Congonhas.
O que os paraibanos queriam ver é tão somente um aeroporto moderno e funcional, que mereça ser chamado de “aeroporto”, e não uma espécie de “entreposto” aeroviário, entre Recife e Natal. Outra vocação possível do CP seria como integrador regional para vôos comerciais de menor porte entre as principais capitais nordestinas e para as grandes cidades do interior nordestino, a exemplo, do que já ocorre entre Recife e Salvador, via WebJet.
Mais do que respeito, a Infraero, a ANAC e o Ministério da Defesa, a quem elas são subordinadas, deveriam dispensar aos paraibanos aquilo que qualquer lugar minimamente desenvolvido espera nessas ocasiões: condições de competitividade.
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*Jornalista, servidor público e turista de eventos.
quarta-feira, março 10, 2010
Eva, negra
Confirmada a hipótese de que a humanidade tenha sua gênese na África, parece-nos óbvio que a primeira mulher surgida na face da terra tinha características negróides. Nas Américas, a descoberta do que teria sido o corpo do mais antigo humanóide, é de um indivíduo do sexo feminino, com feições negras, batizada de “Luzia”.
Segundo a mitologia iorubá, Nanã Buruki poderia ser considerada uma Eva mítica da ancestralidade humana. Mas, um tipo emancipado de Eva, que ajuda o companheiro de “paraíso”, Osàlá, na tarefa de criar as coisas e o mundo das coisas. A iabá dos pântanos, das lamas, que reina de maneira autônoma também junto ao campo dos eguns.
A mitologia dos orixás e das iabás é rica em personalidades fortes do universo feminino. Iemanjá, a iabá dos oceanos, adotou o primogênito de Nanã, Obaluaê, orixá também chamado de Omolú, que teve sua nudez revelada por Iansã, a iabá guerreira, dona dos ventos e dos raios, que enfrenta todas as conseqüências em nome do novo amor possível.
A Eva negra africana é influenciada, desta maneira, por várias personalidades vinculadas às diversas forças da criação, que algumas pessoas chamam de “natureza”. Entre as mais exuberantes yabás, ainda temos Oxum, mãe das águas doces, que usa o convencimento e as estratégias discursivas para obter o que deseja.
No panteão dos orixás, ainda existe a figura enérgica de Obá, guerreira que enfrenta e vence quase todos os orixás masculinos, com exceção de Ogun, dando ao universo feminino os dotes da coragem e da força para a guerra.
A Eva ancestral da África é, portanto, a gênese da mulher atual: companheira, independente, autônoma, aguerrida, maternal, amorosa, misteriosa. Evidentemente que no ocidente, onde o modelo matriarcal, foi substituído pelo patriarcalismo machista, muito da essência feminina ancestral se perdeu.
É a ausência dessas referências dos nossos antepassados que nos leva a uma sociedade cada vez mais fria, egocentrista e desnorteada. Perdemos nossa origem feminina em nome duma competitividade capitalista cada vez mais negadora das essências de feminilidade e masculinidade complementares.
terça-feira, janeiro 26, 2010
Jornalista paraibano recebe transplante de células-tronco para recuperação do fêmur

por Fabiana Veloso
Na última quinta-feira, 21, o jornalista paraibano Dalmo Oliveira foi submetido a uma cirurgia inovadora no Hospital Universitário Professor Edgar Santos (HUPES), no Vale do Canela, em Salvador. Portador de anemia falciforme, Dalmo usou células-tronco, retiradas de sua própria medula óssea, para tentar reverter uma necrose da cartilagem que recobre a cabeça do fêmur de sua perna esquerda.
O procedimento foi conduzido pelo ortopedista e professor titular da Universidade Federal da Bahia, Gildásio Daltro, com auxílio de uma equipe multidisciplinar de médicos residentes. Segundo Daltro, 80% dos pacientes com anemia falciforme terão em algum momento lesões ósseas e, destes, 38% têm necrose no fêmur. É nestes casos que o transplante é recomendável, mas Gildásio diz que para fazer o transplante é necessário que a lesão não tenha comprometido totalmente o osso, pois, em estado avançado, não é possível reconstituir o fêmur. Neste caso, a única solução seria a prótese ortopédica.
Para o transplante é retirada uma quantidade de células-tronco do paciente. O material é separado em uma máquina por cerca de 40 minutos, depois é aplicado no local onde o osso foi mais afetado.
A cirurgia de Dalmo durou quase duas horas. Ele recebeu raquianestesia, que consiste na injeção de anestésico dentro do canal que leva a condução das sensações táteis e dolorosas das pernas e barriga ao cérebro.
O jornalista ficou internado por apenas dois dias e já se encontra em recuperação na casa de parentes na capital baiana. “Graças a Deus ocorreu tudo tranqüilo. A equipe é muito competente e capacitada. Agora devo fazer sessões de fisioterapia para melhorar a recuperação da locomoção”, diz Oliveira.
Inicialmente a cirurgia estava marcada para o dia 11, mas teve que ser adiada, por conta de avaliações clínicas mais detalhadas do paciente. “Estamos tentando promover um intercâmbio da equipe do Dr. Gildásio com médicos ortopedistas e hematologistas paraibanos vinculados ao HU da UFPB. Esse conhecimento e essa técnica precisam ser difundidas”, diz o jornalista.
Ele diz que os maiores beneficiados com essa nova técnica cirúrgica são pessoas de baixo poder aquisitivo, usuários do SUS com a doença falciforme, a grande maioria composta por afrodescendentes. “Segundo o médico, a necrose da cabeça do fêmur acomete crianças com anemia falciforme ainda na primeira década de vida. Quanto mais cedo o problema for diagnosticado, mais chances se têm de obter uma cura mais definitiva”, diz Dalmo.
