quinta-feira, outubro 14, 2010

Atacama’s survivors


Por Dalmo Oliveira











O resgate dos trabalhadores mineiros no deserto de Atacama, na região norte do Chile, se tornou uma das imagens mais marcantes da televisão mundial nos últimos tempos. Não à toa, a cápsula criada para o resgate subterrâneo foi batizada de Fênix.
O efeito que a mídia criou sobre o episódio pode ser comparado ao impacto do milagre que Jesus realizou ao ressuscitar Lázaro, narrado pela Bíblia. Hoje, o “milagre” tem uma razão tecnológica.
A saga dos mineiros chilenos foi exaustivamente acompanhada pela mídia, desde o dia em que o desmoronamento selou a sorte daqueles operários. Os dramas pessoais, a aflição das famílias, a situação psicológica do grupo sepultado vivo. Tudo isso foi se somando para o sucesso de audiência da cobertura midiática sobre o resgate dos soterrados.
O ingrediente tecnológico foi, sem dúvida, o grande diferencial no desdobramento desse caso. A começar pelo contato permanente das equipes de resgate com os mineiros através de celulares, câmeras digitais etc.
Mas o desafio maior realmente foi o de desenvolver, em tempo recorde, um dispositivo seguro, eficaz e eficiente capaz de trazer os mineiros à superfície. Para a construção do dispositivo diversos campos do conhecimento humano foram mobilizados, entre as várias engenharias, geologia e as áreas da saúde.
O socorro aos mineiros chilenos, configurado numa espécie de superelevador, mostrou à humanidade, através da mídia, as enormes capacidades que os homens podem mobilizar para solucionar problemas considerados incontornáveis e irremediáveis.
Algo semelhante ocorrera recentemente no caso do vazamento de petróleo numa plataforma em alto mar no Golfo do México, quando foram gastos vários dias para que uma solução de sucesso fosse enfim encontrada.
Com o avanço tecnológico para a exploração ambiental em vários setores econômicos, a humanidade tem se confrontado, cada vez mais, com desafios impensados pelo capitalismo na atualidade. Os desastres ambientais, decorridos da mega-exploração de recursos ambientais forçam os pesquisadores, técnicos e demais envolvidos nas diversas etapas desses processos a repensarem suas estratégias.
A prevenção de acidentes pode ser a área mais beneficiada e demandada quando fatos como esse no Atacama ocorrem repentinamente. É diante dos mais duros desafios que ocorre de fato a evolução humana. A necessidade de inovação, de adaptação, de inventividade, obrigam-nos a buscar sempre novas soluções, novos rumos para os obstáculos que a vida e a natureza nos oferecem constantemente.
Por isso, a melhor definição para humanidade é sobrevivência.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Sem tolerância religiosa não há democracia







(fotos: Dalmo Oliveira)
Governador Maranhão participou de Conferência Estadual
Prefeito Luciano Agra prestigiou Conferência Regional

Por Dalmo Oliveira

Em junho do ano passado eu participei, de maneira bastante ativa, da organização da 2ª Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial, evento promovido pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Humano (SEDH). O evento foi aberto pelo governador José Maranhão (PMDB), que se confraternizou com todas as pessoas presentes.
Na platéia havia uma representação qualificada e significativa de lideranças ligadas às religiões de matriz africana no estado – leia-se religiosos e adeptos do candomblé, da umbanda e da jurema. Outro político presente ao evento foi o deputado (e padre) Luiz Couto (PT), mostrando o caráter ecumênico do evento. Semanas antes, o prefeito de João Pessoa, Luciano Agra (PSB), esteve na abertura da conferência regional preparatória do evento estadual.
Nas últimas semanas, em decorrência das disputas para o segundo turno das eleições para o governo da Paraíba, começaram a surgir manifestações, provavelmente oriundas de setores de sustentação do candidato peemedebista, acusando o adversário, Ricardo Coutinho, de ligações com "cultuadores do demônio", numa vinculação preconceituosa e equivocada aos religiosos de matriz africana.
Anteriormente, Coutinho foi hostilizado pelos adversários sendo taxado de “ateu”, ou seja, descrente em Deus. Agora a acusação muda e dá ao ex-prefeito de João Pessoa uma espécie de “fé no maligno”.
Religião e política sempre andaram juntas, desde que o mundo é mundo. Por mais que se tente negar, a prática religiosa continua sendo um exercício de poder, às vezes muito semelhante com o que ocorre nos parlamentos e palácios.
Agora mesmo, o arcebispo da Paraíba, Dom Aldo Paggoto, utiliza o youtube para divulgar um manifesto de ataque à candidata petista Dilma Roussef. Nas eleições passadas, o pastor máximo dos católicos paraibanos, foi ao guia eleitoral defender a candidatura do tucano Cássio Cunha Lima.
Maranhão, um reconhecido católico praticante, esposo de uma senhora também muito militante do catolicismo local, não parece ser o tipo de político que se utilizaria do fundamentalismo religioso para atacar seus adversários políticos. Os ataques – muitas vezes anônimos – ao oponente e ex-aliado Ricardo Coutinho, tendo as religiões afrobrasileiras como pano-de-fundo, não devem ter recebido a anuência de Maranhão.
Esse tipo de apelação parece ser mais característica de setores religiosos mais fundamentalistas, como os grupos evangélicos neopentencostais, que estariam mais próximos à candidatura do atual governador.
Numa guerra às cegas, como parece ser a disputa eleitoral deste ano, fica quase impossível aos comandantes-em-chefe das duas facções impedir que seus “soldados” utilizem de armas desleais no campo de batalha ideológico.
Entretanto, as batalhas religiosas dentro da guerra política poderiam ser arrefecidas se os líderes da disputa tivessem investido, desde o início, mais em propostas concretas e objetivas do que em misticismos metafísicos.
O surgimento deste tipo de artifício na campanha eleitoral de 2010 na Paraíba, serve, ao menos, para fortalecer a justificativa de uma demanda antiga dos movimentos sociais em defesa da promoção da igualdade racial: de que precisamos, urgentemente, discutir de forma madura e civilizada a laicidade da vida pública e do Estado paraibano.
 Seja quem for que se consagre o novo governante do Estado no próximo dia 31, é preciso, desde já, que os dois aglomerados políticos em disputa, assumam compromissos visando o fomento de políticas públicas que garantam a livre manifestação religiosa dos afroparaibanos.
Políticas públicas que acabem com os privilégios de religião A ou B nos locais públicos mantidos com os recursos dos cidadãos. Se é permitido a exposição de símbolos cristãos nas repartições públicas, nos tribunais, nas casas legislativas, que se garanta, em pé de igualdade, a exposição da simbologia não-cristã também nesses locais. Ou, como ideal, que se limpe esses locais de qualquer referencial religioso.
A relação das pessoas com o sagrado não pode ser monopólio de uma crença apenas. Antes do cristianismo, antes do judaísmo, antes do espiritismo, e de tantas outras manifestações religiosas na atualidade, a humanidade já se relacionava com as divindades no continente africano, no extremo oriente e na América pré-colombiana. Por isso, a base da democracia será sempre a tolerância.

sexta-feira, setembro 24, 2010

O neo-iluminismo como estratégia discursiva na campanha eleitoral de 2010


Por Dalmo Oliveira
           

Dentre todas as estratégias mobilizadas numa disputa eleitoral, certamente, a estratégia discursiva pode ser considerada a mais importante. Mesmo porque, desde os primórdios, modalidades do discurso, como oratória, retórica e persuasão sempre foram a base da política, como agir social.
            Na disputa eleitoral desse ano, o candidato a governador do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Ricardo Coutinho, se destaca por apresentar um discurso diferenciado dos demais concorrentes. Além de impor uma fala mais rebuscada – em alguns momentos hermética e não-usual -, Coutinho insere na discursividade da campanha eleitoral 2010 neologismos referenciais.
            O exemplo mais evidente da estratégia discursiva do candidato socialista é o termo “republicanização”, utilizado com abundância em suas falas públicas, especialmente na mídia. Talvez querendo dizer que defende o fortalecimento do modelo e valores republicanos de gestão pública, o candidato utiliza o termo na construção de uma discursividade política que se ancora no paradigma republicano como única alternativa de redenção do modelo político-partidário ora vigente.
            Nesse contexto, “republicanizar” pode significar dar à gestão pública do Estado paraibano atributos desejáveis que não estariam na perspectiva político-ideológica dos demais concorrentes. Como se a Paraíba estivesse ainda fora da “República brasileira”, ou como se ainda vivesse nos tempos da República Velha (1889-1930), que também foi chamada de "Primeira República", "República dos Bacharéis" ou "República Maçônica".
            A discursividade republicana passou a ser reutilizada pelo mundo político brasileiro a partir do governo do ex-presidente FHC. Pode ser considerado, desta forma, parte de uma estratégia discursiva neoliberal.  O fato de ter sido FHC o primeiro presidente eleito de forma direta (depois do impeachment de Fernando Collor) motivou o staff tucano a tentar convencer a opinião pública nacional de que ali surgia, finalmente, uma gestão com todas as características republicanas.


A herança iluminista
            Dentro do arcabouço discursivo-ideológico disseminado pelo candidato Ricardo Coutinho, uma outra palavrinha inovadora é aquela que diz que sua proposta de governo é oriunda de uma filosofia “iluminista”, em referência ao Iluminismo, que os franceses preferem chamar de Siècle des Lumières, e que, historicamente, teria se esgotado já nas primeiras décadas do século 17, quando Napoleão Bonaparte começou a aterrorizar a Europa.
            Conceito que tornou famoso o filósofo Immanuel Kant, cativou seguidores que defendiam a tese de que os seres humanos podem tornar este mundo um mundo melhor, através de um exercício permanente de introspecção, do fomento das capacidades humanas e do engajamento sócio-político. Os iluministas são aqueles contrários a qualquer tipo de tutelamento. Seu lema-síntese seria: “Tem coragem para fazer uso da tua própria razão!".
            Nesse sentido, o ex-prefeito da capital da Paraíba poderia ser considerado um neo-iluminista, não fosse sua forte propensão em substituir uma maneira de tutela por outra, talvez um pouco mais “republicana”, mas tutela assim mesmo. O discurso ricardista mostra-se, então, essencialmente contraditório e meramente retórico, para não dizer falacioso.
            Talvez a formação acadêmica mais humanista, a longa militância sindical e política de perfil esquerdista (socialista) e o convívio dentro de um coletivo ativista repleto de pretensas novas lideranças de parte da intelligentzia tabajara, levaram Ricardo a adotar o discurso do iluminismo tardio e da “republicanização” da vida paraibana.
            Discurso que pode funcionar perfeitamente nos ambientes academicistas e nas rodas de intelectualóides “orgânicos” onde Coutinho recebe relativo apoio. Mas, como diz Norman Fairclough, “(...) o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis; pela classe e outras relações sociais, pelas relações específicas em instituições particulares(...)”.
            A performance discursiva do candidato também pode ser entendida pelo seguinte pensamento de Foucault: “O discurso é não apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é a coisa pela qual a luta existe, o discurso é o poder a ser tomado”.  

segunda-feira, agosto 02, 2010

Cresce índice de abstenção na eleição da FENAJ



Por Dalmo Oliveira

            As eleições para a diretoria e conselho nacional de ética da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), ocorridas na semana passada, revelaram um dado, no mínimo, inquietante: cresceu o índice de abstenção entre os jornalistas aptos ao voto.
            Na eleição passada, em 2007, estavam aptos a votar 14.489 jornalistas, dos quais só foram às urnas, efetivamente, 5.429 jornalistas. Esse ano apenas 11.305 estavam aptos ao voto (ou seja, em dias com as tesourarias dos 29 sindicatos federados). Significa dizer que mais de 3 mil jornalistas se puseram inadimplentes ou se desfiliaram dos sindicatos nos últimos três anos, num Brasil onde não se exige mais diploma superior para o exercício desta profissão, que dirá o ingresso em sindicatos.
            Aqui na Paraíba essa constatação é reforçada já que em 2007, o número total de votantes aptos era de 204, mas agora caiu para 143, dos quais 133 puseram efetivamente a cédula na urna, pelas informações da comissão eleitoral, tendo à frente o próprio presidente do sindicato local.
            No município do Rio de Janeiro, segundo maior colégio eleitoral do país da nossa categoria, em 2007, havia 1.989 jornalistas aptos ao voto, esse ano apenas 625. Em Minas Gerais, onde 1.137 jornalistas estavam aptos a votar na eleição passada, votariam agora somente 437 jornalistas, dos quais cerca de uma centena foram realmente às urnas.
            O estado de São Paulo teve um singelo acréscimo no número de pessoas aptas ao voto, provavelmente em decorrência de novos filiados ao sindicato. Em 2007 eram 3.039 com direito ao voto, dos quais apenas 678 foram efetivamente às urnas. Esse ano foram 3.182 com condições de votar, sendo que deste contingente, apenas 699 foram de fato às urnas.

AVERSÃO SINDICAL
            Mas, voltando ao quadro paraibano, o que mais nos surpreendeu foi a queda brusca no número de jornalistas aptos a votar, ou seja, aqueles que se encontram em dias com a tesouraria do “nosso” glorioso sindicato. Fazendo uma continha rápida: se na última eleição local, no dia 16 de setembro de 2008, apareceram para votar mais de 350 jornalistas, todos rigorosamente em dias com suas obrigações sindicais, significa dizer que, nos últimos dois anos, mais de 200 jornalistas paraibanos deixaram de contribuir ou se desligaram do “nosso” sindicato.
            Podemos imaginar algo ainda mais aterrador, como supúnhamos naquela época: cerca de 200 jornalistas teriam quitado seus débitos com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Paraíba, naquele período, apenas para votar CONTRA a chapa Novos Rumos, que tive a honra de liderar naqueles meses inesquecíveis entre 2007 e 2008. Evidentemente há uma zona cinzenta na conferência destes números.
            São situações como essa que afastam, paulatinamente, os jornalistas de suas entidades de classe, fazendo com que, ano a ano, cresça a aversão dos jornalistas mais críticos e autônomos ao movimento sindical, especialmente aqueles que possuem graduação superior na área. É um fenômeno que só fez crescer no Brasil, de forma mais acentuada e clara a partir do final do século passado, com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores e a cooptação de lideranças sindicais para os quadros da gestão pública federal.
            A eleição na Fenaj é mais um reflexo da apatia da classe trabalhadora com as estruturas viciadas de representação sindical. Uma abstenção eleitoral que ultrapassa os 7 mil jornalistas (quase o dobro do número de votantes) só deve ser entendida como um boicote evidente dos trabalhadores que não confiam mais nos sindicalistas que dizem representá-los na batalha cotidiano contra os patrões.
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Dalmo Oliveira é jornalista graduado pela UFPB, com mestrado em Comunicação pela UFPE. Ex-diretor de mobilização do SJPEPB.