quarta-feira, março 04, 2009

Outro olhar sobre o carnaval baiano

foto: Dalmo Oliveira





















Outro olhar sobre o carnaval baiano1

Nos dias 22 e 23 de fevereiro participei de uma experiência muito interessante na área de jornalismo, indo a Salvador para uma cobertura especial de aspectos do carnaval soteropolitano. O convite foi feito pela Agência Afro-Latina e Euro-Americana de Informação (ALAI). Fomos ciceroneados pela fundadora da ONG, a jornalista Ana Alakija.






O programa se iniciou ao meio dia do domingo, 22, quando conhecemos o Observatório da Igualdade Racial e Violência contra a mulher, da Secretaria Municipal da Reparação de Salvador (SEMUR). A estrutura foi montada na ladeira de São Bento,quase na bifurcação da Castro Alves com a Avenida 7 de setembro. Nesse horário, a SEMUR oferecia uma suculenta feijoada baiana para os convidados. Ali encontrei meu camarada de lutas pelos direitos das pessoas com a doença falciforme (como eu), Altair Lira, presidente da Fenafal, e sua esposa, a enfermeira Maria Cândida Queiroz, que atua no programa de atenção aos portadores dessa hemoglobinopatia naquele município.








Lira acaba de ser contratado como consultor da SEMUR. “Hoje precisamos atuar na gestão de conflitos sociais”, diz Altair. A ONG que ele coordena, ABADFAL, acaba de lançar uma cartilha para a rede pública de ensino falando de anemia falciforme numa linguagem mais light.



A secretária municipal da Reparação, Maria Alice Pereira, revelou que a Prefeitura de Salvador deve tornar permanente o Observatório da Discriminação Racial e da Violência contra a mulher, ampliando sua ação para o ano inteiro, para além do período carnavalesco. O observatório foi criado em 2005 para receber denúncias de discriminação contra pessoas que trabalhavam no carnaval, principalmente ambulantes, afrodescendentes e mulheres. "A idéia era ver como a sociedade tratava esses pessoas que na verdade são a base do nosso carnaval. Agora queremos efetivamente tornar esse monitoramento permanente", diz Alice. Com uma infra-estrutura montada na Ladeira de São Bento, o Observatório está localizado no coração da folia baiana, próximo à Praça Castro Alves e ao Campo Grande, no chamado Circuíto Osmar. Entre as personalidades ligadas ao movimento pela igualdade racial, visitou o Observatório, o historiador paulista Hélio Santos, membro do Instituto Brasileiro da Diversidade (IBD). Ele nos contou que está envolvido na criação, no Rio de Janeiro, do "Selo da Diversidade" junto à secretaria da reparação carioca.

O Observatório funciona, na verdade, como um point de encontro da militância negra de Salvador, por onde passam ativistas, jornalistas, políticos e outras categorias diretamente interessadas no combate ao racismo e à violência contra mulheres. A idéia é tentar monitorar os eventos dessa categorias. Mas na cabeça da população parece funcionar de forma simbólica, ao dizer para os foliões “nós nos importamos com a exploração de negros e mulheres”.


foto: Dalmartim Oliveira














feijoada no Observatório


Do ponto de vista humanístico ou antropológico, o carnaval soteropolitano em 2009 poderia ser traduzido num misto de celebração pública da festa, do esgotamento do modelo axé music, do fortalecimento dos grupos fundadores, ligados diretamente à cultura afrobaiana, como os Filhos de Gandhi, completando 60 anos em 2009. Felizmente ou não, acabamos sem poder acompanhar efetivamente o desfile dos blocos etc. Mas não era exatamente esse intuito. O que podemos afirmar, enfim, é que o carnaval de Salvador está cada vez mais multicultural.



Primeiro porque no grande circuito só aumenta a participação de artistas de fora da indústria carnavalesca axezeira da Bahia. Depois porque durante a fuzarca a cidade fica cheia de alternativas ao axé, aos afoxés e outros ritmos hegemônicos na sonoridade da festa. O Pelourinho se transformou na ilha de resistência alternativa ao chamado “carnaval baiano”. Ali o nativo e os turistas (continuam indo aos milhares para a cidade do Salvador) podem usufruir de uma boa e velha bandinha carnavalesca, uma troça. Na praça do chafariz luminoso eu vi até apresentação de RAP, Break e outros trecos importados. Tem de tudo!

Sem falar na super-programação que foi montada nos largos. Ainda no domingo nós assistimos à apresentação do trio Simples REPortagem, no Largo Tereza Batista. Estava programada a vinda do lendário rapper estadunidense Afrikka Bambbatha, mas o show foi cancelado dada as condições de saúde de um dos fundadores do movimento Hip Hop.






foto: Dalmo Oliveira

O trio do Simples REPortagem: crítica social ácida



Na praia de Piatã, perto de onde costumo ficar hospedado na cidade (Jaguaribe!), rolava mais uma edição do descoladíssimo festival de hard core, que, anualmente, faz o contra-ponto ao tanto quanto profano carnaval do “axé”. Pra se ter ma idéia, esse ano uma das atrações foi a também lendária banda paulista Inocentes.


O meu primo, Matias Aquino, foi um dos corajosos jovens soteropolitanos que se dispôs a desembolsar R$ 200 pelo abadá estilisadíssimo dos Filhos de Gandhi. Ele tentava convencer minha prima, Mônica Nunes, de que queria sair no afoxé não por causa do assédio das mulheres aos membros do bloco, mas tão somente por conta da bela tradição cultural que o Gandhi simboliza para os soteropolitanos. Na concentração, ainda no Pelourinho, Matias e seu primo, Ravi Aquino, escolhiam colares com contas azuis e brancas para pendurar no pescoço e distribuir pelo trajeto. Quando o vocalista principal da banda do Filhos de Gandhi começou a gritar “Ajaiô!”, um arrepio ancestral tomou meu corpo.

Outro momento inesquecível foi o encontro com as senhoras baianas vindas de São Francisco do Conde, no Recônvaco Baiano. Aí sim, as legítimas baianas! Acho que é um viés interessante para a ALAI explorar: a tradição cultural do interior do estado e o diálogo entre as raízes culturais e a festa axé que se institucionalizou em Salvador.



foto: Dalmo Oliveira

Tradicionais baianas do Recônvavo



No Pelô ainda pude fotografar um maracatu rural misturado com tribo indígena a acompanhar uma fascinante passista negra vestida de Yemanjá. Uma imagem simplesmente linda, harmônica e mística. Esse é o lado “raíz”, do carnaval que falamos. Sem a presença da invasiva industria cultural do carnaval axé. Talvez, uma saída para a cidade seja justamente espalhar seu carnaval pluricultural para as periferias, onde as raízes da cultura do povo baiano são melhor preservadas.
foto: Dalmo Oliveira





Mas foi também no Pelourinho onde pudemos constatar que a desigualdade social na cidade continua longe de ser resolvida. Deitado no chão da praça, dormindo profundamente, talvez drogado e doente, fotografei um menino que devia ter uns nove anos de idade. Mesmo com o tempo chuvoso e toda a agitação do lugar, a criança se encolhia no chão sem que qualquer barulho o despertasse. Roupas velhas e imundas cobriam o corpo negro e magricela do garoto. Para terminar de compor a cena deprimente, um cão vira-latas também dormia próximo ao menino. Procurei localizar algum agente de saúde no local, mas não detectei nenhum. Ironicamente, perto dali lia um outdoor da Prefeitura informando que praquele carnaval 2000 profissionais de saúde seriam mobilizados. Aquela situação ficou me incomodando até que expus o drama do garoto para o Altair Lira, mas quando fomos em busca do garoto ele já havia sumido.

foto: Dalmo Oliveira

Vida de cão: menor dorme na praça durante o carnaval do Pelourinho



Na segunda-feira, 23, fomos acompanhar o bloco de arrasto “Mudança do Garcia”, que esse ano foi proibido de usar trios elétricos. O bloco ganhou fama pela forma esculachada como seus foliões desfilam e por causa dos inúmeros protestos que a população faz levando cartazes para a avenida com críticas a Deus e o mundo. Dentro do Mudança vários outros blocos se incorporam. Nós engrossamos as fileiras do bloco Os Bikud@s, fomentado pelo Instituto Cultural Steve Biko, uma entidade sem fins lucrativos fundada em 31 de julho de 1992, com a missão de promover a ascensão social da população negra através da educação e do resgate de seus valores ancestrais.





Pela primeira vez na história o Mudança entrou na programação oficial do carnaval baiano. O bloco entrou no Campo Grande com carroças puxadas por burros e muito protesto social. Haviam cartazes criticando o prefeito, defendo o aborto, o direito dos homossexuais e em defesa do ambiente. Durante o trajeto do Garcia até o Campo Grande, encontramos figuras ilustres da política soteropolitana, como a ex-prefeita Lidice da Mata e o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo.

foto: Dalmo Oliveira

Mudança do Garcia: irreverência e prostesto




SOBRE O INTERCÂMBIO



Talvez a ALAI possa ampliar sua abordagem para a cobertura midiática étnica noutros estados brasileiros. Poderiam ser montados núcleos estaduais interessados em promover uma cobertura alternativa dos carnavais regionais. Isso não impediria a continuidade dos intercâmbios internacionais, principalmente com os países africanos lusófonos.




Faz-se urgente um projeto de captação de recursos para a logística do intercâmbio. Passagens, hospedagem e refeições (ou diárias) são indispensáveis para o progresso do programa.




Seria importante a otimização da publicação do material produzido pelos participantes do programa, em formato de revista ou livro, com coletânea de artigos. Imagino que algumas escolas de comunicação da região teriam interesse nesse tipo de parceria com a ALAI.









1Artigo-relatório para a ALAI, produzido pelo jornalista Dalmo Oliveira, a partir de cobertura especial durante o carnaval 2009.

domingo, março 01, 2009

Meus irmãos e irmãs


Ao povo paraibano,
Meus irmãos e irmãs,




No início da Quaresma e na abertura da Campanha da Fraternidade, fui pego de surpresa por minha suspensão das atividades de sacerdote desta querida Arquidiocese. Estranhei que a decisão da suspensão do exercício ministerial fosse dada sumariamente e publicizada na imprensa local antes que eu fosse previamente ouvido; pois, já estava certo de que no dia seguinte, eu iria encontrar-me com o Sr. Arcebispo. Somente no dia 26/02/2009, às 16:20h, recebi o comunicado oficial da Arquidiocese. Assim sendo, venho prestar alguns esclarecimentos.
Sou padre desta Igreja particular desde 1976 e venho me dedicando ao meu ministério sacerdotal com muito empenho, assumindo diversas atividades, como pároco, professor e hoje Deputado Federal. Nunca tive dúvida de que minha opção de vida foi o sacerdócio que é vivido em muitas frentes. Tenho a graça de ser representante do povo paraibano, quando coloquei meu nome à disposição do Partido dos Trabalhadores pleiteando um mandado parlamentar. Fui eleito Deputado Estadual por duas vezes e Federal por duas legislaturas. O que é mais gratificante é o serviço que posso prestar ao povo brasileiro, em especial do meu Estado.
A minha ordenação me configurou à pessoa de Jesus Cristo. A sua causa é a minha causa. Por isso, não temo as ameaças que me fazem. Se sou uma pessoa marcada para morrer, é porque como padre e deputado não posso calar-me diante das injustiças e da violação dos Direitos Humanos. O que me dá forças para continuar denunciando as arbitrariedades, é o Evangelho, é o chamado de Jesus para segui-lo em defesa dos excluídos da sociedade.
A minha suspensão das atividades sacerdotais foi devida a entrevista que saiu na revista eletrônica Congresso em Foco no dia 14 de fevereiro e reproduzida pelo jornal “O Norte”em 26/02/2009. O que está contido na entrevista já é debatido no seio da Igreja. Digo-lhes com sinceridade que não esperava por tal punição que me impede de celebrar a Eucaristia que é o Oxigênio e motivação existencial do meu 'Munus Sacerdotal' na comunhão com Deus com a Igreja e com o povo. Alguns pontos da entrevista merecem algumas considerações que fiz e que estão ausentes no referido jornal, e que agora tenho a oportunidade de esclarecê-los.
Primeiro: O celibato é um valor na vida da Igreja. . Muitos celibatários vivem uma vida exemplar e inspiradora. Portanto, não é o celibato que questiono, mas sua obrigatoriedade. Quando o celibato é imposto e obrigado pode trazer sofrimentos humanos desnecessários. O celibato aceito como carisma é abençoado e o celibato obrigatório e imposto pode se tornar um martírio silencioso. Esse tema já foi bastante discutido na Igreja e continua sendo. Recentemente, o bispo Dom Clemente Isnard falou sobre o assunto num livro intitulado: “Reflexões de um bispo” . E o teólogo americano Donald Cozzens, lançou o livro: “Liberar o Celibato”. Entretanto, o que digo na entrevista não desvaloriza a disciplina do celibato.
Segundo: No que diz respeito aos homossexuais, temos que amá-los como irmãos. Hoje devido a homofobia que é crescente, se impõe, como nunca, o espírito de tolerância. Caso contrário, assistimos a esgarçamentos do tecido da sociedade civil com consequências funestas para o convívio e para o respeito necessários. Como padre e Deputado, luto pela tolerância e contra a discriminação entre os diferentes. Ninguém pode ser alijado dos seus direitos por ser homossexual. Jesus de Nazaré mostrou que o respeito à dignidade humana é o remédio para combater a intolerância e a discriminação.
“Qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou que se fundamente no sexo, na raça, na cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada, porque é contrária ao plano de Deus”. (GS 29). Jesus na sua pedagogia acolhia a todos, pouco importava quem eram seus ouvintes, bastava que tivessem os ouvidos bem abertos para acolher sua palavra e o coração aberto para iniciar o caminho de adesão ao Reino. Os homossexuais nessa sociedade homofóbica são silenciados. Só se liberta dos preconceitos quem é capaz de restituir a palavra aos silenciados. A tolerância para com os homossexuais é antes de mais nada uma exigência ética. Ela representa o direito que deve ser reconhecido a cada pessoa .
Terceiro: A epidemia de AIDS é uma realidade que desafia a Igreja na sua moral. A moral é uma realidade prática que tem conseqüências. Nos confrontamos constantemente entre a Moral Ideal pregada pela Igreja e a realidade. O ideal da moral da Igreja deve ser vista como metas para onde se orientar. Nessa perspectiva, ninguém se sente culpabilizado ou desobediente por não realizar o proposto, mas sabe para onde se dirigir. O ideal seria que ninguém se contaminasse com a AIDS, mas a realidade é outra. Devido ao número crescente de pessoas vítimas de doenças sexualmente transmissíveis, o preservativo entra como uma questão de saúde pública, como é o caso da gravidez na adolescência. Lembro-me de uma entrevista que o Cardeal Arns disse nos anos noventa que o preservativo era um mal menor. No entanto o cardeal, em nenhum momento desrespeitou a doutrina da Igreja.
Como padre aprendí que o Bispo é o pastor da Igreja, por isso jurei no dia da minha ordenação, obediência ao meu bispo, porém, quero frisar que a obediência no seu sentido teológico envolve a capacidade de dialogar sem submissão. Como lembra Dom Tomás Balduíno “a autoridade da Igreja tem mil caminhos para dialogar com o sacerdócio”
Que o Deus da misericórdia, da ternura, da bondade e do amor me conceda, nesta Quaresma, a serenidade das Bem aventuranças para que eu possa enfrentar esse meu sofrimento, que me levará à alegria da Páscoa.

João Pessoa PB, 29/02/2009
LUIZ ALBUQUERQUE COUTO - Sacerdote e Dep. Federal.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Encontro com Gil

fotos: dalmo oliveira









 






 

Esse é um relato duma noite meio que mágica, meio que trágica. Mas o que se sobressai mesmo é a magia! Quando encontrei o Gilberto Gil, minutos antes do início do show, ele tabulava uma tranqüila conversa/entrevista com o Sílvio Osias, renomado jornalista de cultura da cidade. Fiquei esperando minha vez e prestando atenção no papo dos dois. Aproveitei para fazer umas fotos desse encontro antropocultural proporcionado por aquele flagrante inesperado.

 

Imaginava, minutos antes, enquanto vínhamos no carro pro local do concerto, o que ele pensaria em se apresentar num canto com emblema tão sui generis: Jacaré Pop. “Porra, botar o Ministro pra tocar no Jacaré é sacanagem! É ou não é Tadeu?”. O cara cansado de tocar em estruturas como as do Canecão... Mas o poeta tem razão, e o bom artista deve ir aonde o povo está. E lá estava Gil e seu público sedento e apaixonado.

 

Quando, enfim, a produção começou a avisar ao Gil que o espetáculo começaria pontualmente às 11h30, e o Sílvio foi embora com sua filha, pude pedir um minuto da atenção de um dos meus maiores ídolos vivos na MPB. Expliquei que também sou jornalista e que trazia algumas “lembranças” para ele. Primeiro dê-lhe um exemplar do último cd do Toninho Borbo,  “Para fins de mercado”, explicando que se tratava de uma nova (e boa!) geração de músicos de Campina Grande.

 

Depois ofereci uma camiseta de nossa campanha ao Sindicato dos Jornalistas da Paraíba. Com a frase “Jornalismo combina com ética”. Expliquei que o produto fora produzido com tecidos do algodão da variedade naturalmente colorido, desenvolvido pela Embrapa, que, por coincidência ou não, também fica na Rainha da Borborema.

 

E por último, tirei da sacolinha um exemplar duma cartilha sobre anemia falciforme, recém lançada na cidade de Salvador, numa parceria da ABADFAL com as secretarias municipais de Saúde e de Educação de lá, especialmente pensada para o público escolar.

Gil falou que conhece a hemoglobinopatia que possuo. “Atinge mais nós pretos, né!?”, disse-me o Ministro. Daí revelei que queremos desenvolver um projeto para a mídia televisiva e internet com depoimentos de personalidades nacionais afrodescendente e de outras etnias, explicando para a população, em rápidos spots, aspectos da doença falciforme, que hoje é, reconhecidamente, o maior problema de saúde pública brasileiro e, mesmo assim, a população não tem informação.

 

“Procurem-me quando estiver tudo pronto. Pode me procurar”, disse Gil. Dê-lhe boas-vindas à Paraíba, agradeci e sai. Fui curtir o show magnífico que ele e sua mágica banda realizaram naquela noite, para um púbico, digamos, modesto prum cara como o Gil. O que se seguiu foram DUAS horas inteiríssimas de uma apresentação absolutamente inesquecível para mim.

 

Só quem curte muito o Gil sabe o transe que rola enquanto ele canta e toca. O que vi foi um músico incansável sobre o palco, que encerrou o espetáculo aos pulos, como se estivera na beira-mar de Ondina, arrastando o povo no seu Expresso 2222. Dá gosto de ver aquele negro chegar a esse ponto da carreira e da vida como ele chegou, na manha, na resistência e na coragem.

 

Admiro Gilberto Gil pelo rastaman que sempre foi, e agora mais que nunca com suas dreadlocks exuberantes, reconhecendo neste artista uma espécie de militância, um certo sacerdócio, atéico e fervoroso, ao mesmo tempo. O papo que ele levara com o Osias antes do início do show, tinha a ver com essa viagem filosófica-existencialista, sobre Deus etc. “Alguém me disse uma vez, é preciso refletir sobre a morte e o que ela realmente significa para cada um de nós”, comentava o artista. Uma das músicas executadas no show do Jacaré Pop foi “Não Tenho Medo da Morte”, do mais novo disco, Banda Larga Cordel, com músicas inéditas de Gil, depois que Quanta, em 1997. Veja o que diz a letra:

Não tenho medo da morte/mas sim medo de morrer/qual seria a diferença/você há de perguntar/é que a morte já é depois/que eu deixar de respirar/morrer ainda é aqui/na vida, no sol, no ar/ainda pode haver dor/ou vontade de mijar

A morte já é depois/já não haverá ninguém/como eu aqui agora/pensando sobre o além/já não haverá o além/o além já será então/não terei pé nem cabeça/nem figado, nem pulmão/como poderei ter medo/se não terei coração?

Não tenho medo da morte/mas medo de morrer, sim/a morte e depois de mim/mas quem vai morrer sou eu/o derradeiro ato meu/e eu terei de estar presente/assim como um presidente/dando posse ao sucessor/terei que morrer vivendo/sabendo que já me vou/ então nesse instante sim/sofrerei quem sabe um choque/um piripaque, ou um baque/um calafrio ou um toque/coisas naturais da vida/como comer, caminhar/morrer de morte matada/morrer de morte morrida/quem sabe eu sinta saudade/como em qualquer despedida.

 

Eu acho que estava cursando a 7ª série do antigo ginasial, no Colégio Santo Antonio, em Guarabira, quando uma de minhas melhores amigas da época, Ismênia, me perguntou, do nada, o que eu achava do Gilberto Gil. Lembro muito claramente que ela fez essa pergunta porque estávamos, na hora do recreio, perto de um lugar onde o rádio tocava “Andar com fé”. Naquele momento eu não sabia o que responder para a menina dos meus olhos. Depois saquei que ela perguntara aquilo provavelmente porque comparava minha negritude e similitude com a do cantor baiano. Mena está no meu imaginário, então, como uma das primeiras pessoas a tocar, sutilmente, através do Gil, na questão racial que me acompanharia a vida inteira.

  




















com a galera, curtindo o show

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Outro tiro ideológico na memória paraibana







Por Dalmo Oliveira[1]

 

O assassinato por si só já é algo inumano. Mas quando se mata outra pessoa por motivos ideológicos, aí é que enxergamos em que tipo de humanidade estamos metidos. Os tiros em Manoel Bezerra de Mattos Neto, desferidos por um encapuzado no último dia 24 numa casa de praia em Pitimbu, litoral sul da Paraíba, não tiraram a vida violentamente apenas de um homem. Eles feriram mortalmente, mais uma vez, a dignidade humana do povo da Paraíba.

Lembro-me dumas matérias que escrevi quando estava no jornal O NORTE, a partir dos relatórios que a Comissão Pastoral da Terra (CPT), coordenada à época pelo destemido Frei Anastácio, mostrando os números da pistolagem no campo paraibano e das mortes nos conflitos pela posse da terra. A violência ideológia não é coisa recente por aqui. Ela se repete num ciclo macabro, movida por diversas matizes da disputa social.

Apagar testemunhas e delatores é uma prática comum em todas as organizações criminosas. Quem nunca assistiu um bom filme sobre a máfia, retratanto aspectos da violência instaurada nas diversas camadas sociais? Uma trama que envolve, invariavelmente, policiais criminosos, criminosos impiedosos, vítimas inocentes e “cabras marcados para morrer”.

Para o pesquisador Geovani Jacó de Freitas, da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará, também membro do Laboratório de Estudos da Conflitualidade e da Violência (Covio) e autor de Ecos da Violência: narrativas e relações de poder no Nordeste canavieiro (2003), esse tipo de brutalidade social e cognitiva, sempre marcou as relações entre grupos sociais distintos no tecido social paraibano.

Homens assassinam homens desde os irmãos mitológicos Caim e Abel. A sanha criminosa manifestava-se apenas nas motivações instintivas naquele tempo. Era o ódio pelo ódio, e a vontade de destruir o objeto do nosso ódio animal. Mas logo as motivações se transformariam, à medida em que o homem passou a se agregar mais e mais nas chamadas sociedades primitivas.

A história do ódio e do assassinato sempre alimentou os best-sellers mundiais. De Dostoiewisk a Dráuzio Varela, todos os grandes escritores retratam e relatam episódios onde a violência do ser humano aniquila outros. Mas um crime é um crime e não há como criar eufemismos e subterfúgios para os assassinos. Claro que um cara como Hitler, que efetivamente deva ter disparado poucas vezes, mas foi o responsável maior pelo extermínio de tantos homens, mulheres e crianças, não pode ser comparado ao cara que disparou a doze na no peito e na cara do Manoel de Mattos.

Hitler matou e mandou matar por causa de uma ideologia de supremacia racial. O assassino de Pitimbu matou por encomenda. Talvez nem tivesse tanto ódio assim de sua vítima, mas cumpria uma missão, como os soldados do Füher. Uma missão claramente ideológica, movida pelo claro conflito de classes.

A gangue que atua na região onde foram denunciadas as ações de grupos de extermínio na divisa PB/PE se move ideologicamente. O banditismo desse grupo é alimentado por razões para além do crime pelo crime. Há uma razão ideológica semelhante àquela que vitimou, João Pedro Teixeira, Margarida Maria Alves, Chico Mendes, e a irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA).

Não é simplesmente um crime por terra, mas um assassínio calculado e programado para desestimular e destruir aqueles que se posicionam em defesa da maioria expropriada pelos latifúndios, ou pelos que se levantam contra o tráfico de drogas e de armas. Uma cadeia criminosa que alimenta outra.

E como se não bastasse a brutalidade dos derradeiros assassinatos, ainda se fomenta o extermínio de tantos quantos denunciem a criminalidade, como o ex-deputado Frei Anastácio e o deputado federal Luiz Couto. Não estamos falando de um acerto de contas, mas de uma organização covarde contra a população indefesa paraibana e brasileira.

Para estancar a matança só há uma solução: da um basta no silêncio cúmplice e covarde. Contra a estupidez das armas, só a mobilização solidária do povo oprimido.

 



[1] Graduado em jornalismo pela UFPB, ex-repórter de O NORTE, mestre em Comunicação pela UFPE.

sábado, dezembro 20, 2008

PMJP vai capacitar servidores da saúde para anemia falciforme na Capital

foto: Mazinho Gomes


Usuários do SUS com anemia falciforme cobraram atenção da secretaria de Saúde da PMJP









Identificar pessoas com a doença falciforme na região metropolitana de João Pessoa. Essa deve ser uma das primeiras ações da Secretaria de Saúde da capital para 2009. A decisão foi anunciada na última segunda-feira, 15, pela supervisora do Setor de Atenção à Saúde da entidade, Márcia Rique, durante reunião com os coordenadores da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH), Marcelo Cidalina e Dalmo Oliveira.
“A idéia é mobilizar profissionais de saúde ao Programa Saúde da Família para identificar e atender pessoas com a doença falciforme que residam próximas aos postos de atendimento nos bairros”, diz Márcia Rique. A ASPPAH vai repassar à secretaria dados cadastrais de portadores do problema atendidos pelo Hemocentro e pelo laboratório de hematologia do Hospital Universitário Luciano Wanderlei. “A busca ativa de pacientes falciformes será a única maneira de iniciarmos um programa municipal de atenção especial aos cidadãos que sobrevivem com o problema”, diz Dalmo Oliveira.
No dia 7 de janeiro representantes da secretaria e da associação voltam a se reunir para definir os primeiros eventos de capacitação na rede municipal da saúde. Inicialmente haverá um trabalho de sensibilização nas reuniões matriciais nos cinco distritos de saúde da capital. “Vamos atuar juntos aos apoiadores do Saúde da Família”, diz Rique.
A parceria entre a ONG e a secretaria de saúde de João Pessoa pretende levar informações sobre anemia falciforme para todas as 180 equipes do programa Saúde da Família. “Nosso maior problema atualmente é a falta de informação sobre a doença, tanto junto à população, quanto no meio dos profissionais de saúde”, revela Marcelo Cidalina, coordenador administrativo da ASPPAH.
Os membros da associação de pessoas com doença falciforme reivindicaram também que o município defina um hospital de sua rede como referência para a população da capital no acompanhamento, tratamento e aconselhamento sobre esse tipo de anemia. A secretaria acenou que essa unidade hospitalar deverá ser o novo Hospital Municipal, no bairro de Mangabeira, na zona oeste da capital.
“Não temos hematologistas no nosso quadro, mas poderemos adequar o hospital para receber esse público especial. Vamos providenciar a sensibilização e capacitação dos médicos e enfermeiras”, diz o Dr. Anderson, supervisor daquela unidade, também presente à reunião.
“Há um entendimento já com a secretaria de saúde do Estado para definir o hospital Arlinda Marques, em Jaguaribe, como a unidade hospitalar referência no cuidado das crianças com o problema do sangue que é genético e hereditário”, adianta Cidalina. “E as internações de complexidades média e alta vão ficar por conta do HU da UFPB”, acrescenta.

Testagem e cuidados especiais
Outra notícia importante relacionada à doença falciforme na Paraíba diz respeito à testagem dos recém-nascidos já a partir do teste-do-pezinho. A secretaria de saúde do Estado, através da Gerência do Ciclo da Vida, está finalizando a implantação da 2ª fase do teste na rede pública estadual. “Depois que pudermos detectar a doença falciforme no nascimento dos bebês, vai diminuir o índice de óbitos entre os recém-nascidos, porque logo eles vão receber todos os cuidados especiais indispensáveis às crianças com o problema”, diz Dalmo.
A 2ª fase do teste-do-pezinho já permite que estados como Minas, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, por exemplo, já saibam a incidências da anemia falciforme em suas populações. “Estimamos, de forma pouco empírica, que a proporção de bebês nascidos vivos com o problema atinja uma em cada grupo de 1.300 crianças nascidas vivas na Paraíba”, avalia o ativista, que tem também um primo com a doença falciforme.
A parceria entre a ASPPAH e a secretaria municipal prevê também a produção de peças para a mídia sobre o problema. “A idéia é usar os grandes meios de comunicação (TV, rádio, outdoor, internet) para começar a explicar aos cidadãos que os portadores desta hemoglobinopatia podem usufruir de uma condição de vida e sobrevida em níveis normais, bastando acessarem os cuidados básicos especiais necessários para os acometidos pelo problema”, diz Oliveira.
A ASSPAH pretende ainda obter uma sede própria, que possa servir também como casa-abrigo, para apoiar os pacientes do interior que estejam em tratamento na capital. “Estamos iniciando uma discussão para dividir um espaço com a comunidade franciscana no Castelo Branco”, revela Marcelo Cidalina.