domingo, novembro 28, 2010

Escurinho comemora 15 anos com som podreira no Santa Roza

Escurinho e seu power trio: 15 anos difundindo cultura da malocage



















 Os 15 anos de estrada do pluripercussionista Escurinho foram comemorados ontem no Bar dos Artistas em grande malocage stile. Cheguei por volta da 1h com o show já pela metade. O som tava uma podreira, como sempre, ali na caverna do Santa Roza, mas a galera fiel nem aí pras microfonias e distorções.
Escuro aparentava certo infado e o batera ainda está se engajando na formação da banda. Deu pra curtir Malunguim, Usura e Aprender inglês.
A trajetória de Escurinho e de seu fiel escudeiro, Alex Madureira, reflete a dificuldade que ainda tem os artistas locais no mercado da música, a despeito do talento inegável que possuem. O último artista paraibano a quebrar a barreira do mainstream foi Chico Cesar, contemporâneo de Escurinho, citado na última música citada a cima.
De qualquer forma, a estrada de Escurinho é bastante iluminada no circuíto da cena “indepedente” nacional. Ele surfa bem pelas redes sociais menos óbvias e já consolidou seu nome no roll não menos disputado do circuito under regional.
Saúde e longa estrada!
O percussionista e o guitarrista: entrosamento (fotos: Dalmo Oliveira)

quinta-feira, novembro 11, 2010

Todo mundo no festival!

BNegão e banda: música crítica e dançante


Há muito tempo João Pessoa não tinha acesso a uma quantidade tão grande de shows do chamado circuíto alternativo nacional como vai ter a partir deste sábado,13, quando começa a maratona de shows musicais do Festival Mundo.
Entre as melhores atrações estão o alagoano Wado, os brasilienses do Móveis Coloniais de Acajú e o ex-Planet Hemp, BNegão e sua trupe. O evento abre o palco para a nova música alternativa da Paraíba, com as presenças de Madalena Moog, Sex on the Beach, VGO, Sem Horas, além de Beto Brito e Cabruêra.
A sonzeira vai rolar sempre a partir das 16h na Usina Cultural da Energisa, ali pertinho da Praça da Independência, no início da Epitácio. O blog vai fazer cobertura especial do evento.
Feriadão pra ninguém botar defeito!



PROGRAMAÇÃO DO FERIADÃO
Sábado (13/11)
Violator (DF)
Madness Factory
Desalma (PE)
Wado (AL)
Falsos Conejos (Argentina)
Pé de Coco
A Banda do Joseph Tourton (PE)
Ubella Preta
Varadouro Groove Orchestra
Domingo (14/11)
Móveis Coloniais de Acaju (DF)
Julia Says (PE)
Beto Brito
Seu Pereira & Coletivo 401
Os Reis da Cocada Preta
Sem Horas
Elmo
Anjo Gabriel (PE)
Dalva Suada

Segunda (15/11)
Bnegão & Os Seletores de Frequência (RJ)
Abiarap
The Tormentos (Argentina)
Cabruêra
Camarones Orquestra Guitarrística (RN)
Gigante Aniamal (SP)
Sex On The Beach (CG)
Madalena Moog

quarta-feira, outubro 20, 2010

O discurso do retrovisor: negação do passado como estratégia discursiva nas eleições paraibanas de 2010

Capa original do romance de Orwell















         O candidato do PSB ao governo da Paraíba, Ricardo Coutinho, tem produzido um rico material discursivo para a análise dos teóricos da comunicação e da linguagem. Sua candidatura é, de longe, a mais profícua na criação de neologismos semânticos e aforismos no campo político. Nas últimas semanas, o candidato girassol investiu em mais uma analogia para mostrar sua disposição futurista.
         “Vou quebrar o retrovisor”, costuma sentenciar o socialista, prometendo aos seus possíveis eleitores que, caso eleito, não vai olhar para trás, para as coisas “mal feitas” pelos seus antecessores.
         Espelhos retrovisores foram adotados em automóveis para aumentar o controle dos motoristas sobre a dirigibilidade. Colocados em locais estratégicos dos carros, os retrovisores puderam ajudar as pessoas a evitar acidentes nos trânsitos de ruas e estradas.
         Quando, por algum motivo, perdemos a retrovisibilidade, dirigir passa a exigir mais atenção. Sem retrovisores passamos a ficar mais vulneráveis a uma dose maior imprevisibilidades e riscos.
         Claro que a analogia com o aparato vitráceo dos automóveis não é muito pertinente para o campo político ou social. Primeiro porque, por mais que se queira, é impossível apagar o passado, simplesmente “quebrando o retrovisor”.
           Quando Ricardo diz que não precisa estar mirando o passado ele nega a própria deontologia da História, o que pode ser um erro gravíssimo para um agente político. Mesmo para aqueles que supervalorizam o futuro e a modernidade.
         Do ponto de vista sociológico, renegar a História tem sido uma estratégia vinculada aos ditadores de vários matizes. Na extinta União Soviética comunista, Joseph Stálin se notabilizou pela manipulação da História, apagando, literalmente, desafetos políticos de um passado recente.
         No clássico da literatura libertária, “1984”, o britânico George Orwell criou o personagem Winston, que na trama trabalha no “Ministério da Verdade”, atualizando notícias e informações para acomodar, constantemente, as posições dos países-continentes em guerras infindáveis.
          Talvez um governo do candidato dos girassóis não fosse tão totalitarista como possamos temer que venha ser, mas há indícios claros no discurso do socialista de que a nomenklatura que o cerca está predisposta a engendrar estratégias de governança pouco convencionais e arriscadas.
         O discurso da aposentadoria do retrovisor também pode ser útil para uma certa amnésia ideológica oportunista. Pois ao apagar o passado, Coutinho pode não estar apenas querendo dizer que pretende “esquecer” dos problemas antigos que teve e tem com os maranhistas, petistas e outros istas de fora do seu campo coligativo, mas, principalmente, que precisa apagar da memória coletiva paraibana sua aliança recente com as lideranças da direita, representada presentemente, pelo ex-governador Cássio Cunha Lima e os líderes do DEM.
         Assim como na distopia de Orwell, o discurso do candidato socialista investe na idéia do duplipensamento, cujo termo é uma crítica ao tratamento da mídia e dos governos à realidade (http://www.duplipensar.net/george-orwell/duplipensar.html). Desta forma, guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força.
         De fato, quando se propõe o esquecimento do passado estamos, na verdade, dizendo que devemos ignorar nossa história. Foi o que aconteceu com o chamado “fim do comunismo”, simbolizado pela derrubada do muro de Berlim, que alguns teóricos passaram a chamar de “fim da história”.  
         Apagar o passado, destruindo os “retrovisores”, parece ser apenas mais uma estratégia discursiva criada para um momento conjuntural específico, em que parece ser cômodo ao enunciador se desvencilhar de acontecimentos desfavoráveis ocorridos no tempo pretérito.
          

quinta-feira, outubro 14, 2010

Atacama’s survivors


Por Dalmo Oliveira











O resgate dos trabalhadores mineiros no deserto de Atacama, na região norte do Chile, se tornou uma das imagens mais marcantes da televisão mundial nos últimos tempos. Não à toa, a cápsula criada para o resgate subterrâneo foi batizada de Fênix.
O efeito que a mídia criou sobre o episódio pode ser comparado ao impacto do milagre que Jesus realizou ao ressuscitar Lázaro, narrado pela Bíblia. Hoje, o “milagre” tem uma razão tecnológica.
A saga dos mineiros chilenos foi exaustivamente acompanhada pela mídia, desde o dia em que o desmoronamento selou a sorte daqueles operários. Os dramas pessoais, a aflição das famílias, a situação psicológica do grupo sepultado vivo. Tudo isso foi se somando para o sucesso de audiência da cobertura midiática sobre o resgate dos soterrados.
O ingrediente tecnológico foi, sem dúvida, o grande diferencial no desdobramento desse caso. A começar pelo contato permanente das equipes de resgate com os mineiros através de celulares, câmeras digitais etc.
Mas o desafio maior realmente foi o de desenvolver, em tempo recorde, um dispositivo seguro, eficaz e eficiente capaz de trazer os mineiros à superfície. Para a construção do dispositivo diversos campos do conhecimento humano foram mobilizados, entre as várias engenharias, geologia e as áreas da saúde.
O socorro aos mineiros chilenos, configurado numa espécie de superelevador, mostrou à humanidade, através da mídia, as enormes capacidades que os homens podem mobilizar para solucionar problemas considerados incontornáveis e irremediáveis.
Algo semelhante ocorrera recentemente no caso do vazamento de petróleo numa plataforma em alto mar no Golfo do México, quando foram gastos vários dias para que uma solução de sucesso fosse enfim encontrada.
Com o avanço tecnológico para a exploração ambiental em vários setores econômicos, a humanidade tem se confrontado, cada vez mais, com desafios impensados pelo capitalismo na atualidade. Os desastres ambientais, decorridos da mega-exploração de recursos ambientais forçam os pesquisadores, técnicos e demais envolvidos nas diversas etapas desses processos a repensarem suas estratégias.
A prevenção de acidentes pode ser a área mais beneficiada e demandada quando fatos como esse no Atacama ocorrem repentinamente. É diante dos mais duros desafios que ocorre de fato a evolução humana. A necessidade de inovação, de adaptação, de inventividade, obrigam-nos a buscar sempre novas soluções, novos rumos para os obstáculos que a vida e a natureza nos oferecem constantemente.
Por isso, a melhor definição para humanidade é sobrevivência.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Sem tolerância religiosa não há democracia







(fotos: Dalmo Oliveira)
Governador Maranhão participou de Conferência Estadual
Prefeito Luciano Agra prestigiou Conferência Regional

Por Dalmo Oliveira

Em junho do ano passado eu participei, de maneira bastante ativa, da organização da 2ª Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial, evento promovido pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Humano (SEDH). O evento foi aberto pelo governador José Maranhão (PMDB), que se confraternizou com todas as pessoas presentes.
Na platéia havia uma representação qualificada e significativa de lideranças ligadas às religiões de matriz africana no estado – leia-se religiosos e adeptos do candomblé, da umbanda e da jurema. Outro político presente ao evento foi o deputado (e padre) Luiz Couto (PT), mostrando o caráter ecumênico do evento. Semanas antes, o prefeito de João Pessoa, Luciano Agra (PSB), esteve na abertura da conferência regional preparatória do evento estadual.
Nas últimas semanas, em decorrência das disputas para o segundo turno das eleições para o governo da Paraíba, começaram a surgir manifestações, provavelmente oriundas de setores de sustentação do candidato peemedebista, acusando o adversário, Ricardo Coutinho, de ligações com "cultuadores do demônio", numa vinculação preconceituosa e equivocada aos religiosos de matriz africana.
Anteriormente, Coutinho foi hostilizado pelos adversários sendo taxado de “ateu”, ou seja, descrente em Deus. Agora a acusação muda e dá ao ex-prefeito de João Pessoa uma espécie de “fé no maligno”.
Religião e política sempre andaram juntas, desde que o mundo é mundo. Por mais que se tente negar, a prática religiosa continua sendo um exercício de poder, às vezes muito semelhante com o que ocorre nos parlamentos e palácios.
Agora mesmo, o arcebispo da Paraíba, Dom Aldo Paggoto, utiliza o youtube para divulgar um manifesto de ataque à candidata petista Dilma Roussef. Nas eleições passadas, o pastor máximo dos católicos paraibanos, foi ao guia eleitoral defender a candidatura do tucano Cássio Cunha Lima.
Maranhão, um reconhecido católico praticante, esposo de uma senhora também muito militante do catolicismo local, não parece ser o tipo de político que se utilizaria do fundamentalismo religioso para atacar seus adversários políticos. Os ataques – muitas vezes anônimos – ao oponente e ex-aliado Ricardo Coutinho, tendo as religiões afrobrasileiras como pano-de-fundo, não devem ter recebido a anuência de Maranhão.
Esse tipo de apelação parece ser mais característica de setores religiosos mais fundamentalistas, como os grupos evangélicos neopentencostais, que estariam mais próximos à candidatura do atual governador.
Numa guerra às cegas, como parece ser a disputa eleitoral deste ano, fica quase impossível aos comandantes-em-chefe das duas facções impedir que seus “soldados” utilizem de armas desleais no campo de batalha ideológico.
Entretanto, as batalhas religiosas dentro da guerra política poderiam ser arrefecidas se os líderes da disputa tivessem investido, desde o início, mais em propostas concretas e objetivas do que em misticismos metafísicos.
O surgimento deste tipo de artifício na campanha eleitoral de 2010 na Paraíba, serve, ao menos, para fortalecer a justificativa de uma demanda antiga dos movimentos sociais em defesa da promoção da igualdade racial: de que precisamos, urgentemente, discutir de forma madura e civilizada a laicidade da vida pública e do Estado paraibano.
 Seja quem for que se consagre o novo governante do Estado no próximo dia 31, é preciso, desde já, que os dois aglomerados políticos em disputa, assumam compromissos visando o fomento de políticas públicas que garantam a livre manifestação religiosa dos afroparaibanos.
Políticas públicas que acabem com os privilégios de religião A ou B nos locais públicos mantidos com os recursos dos cidadãos. Se é permitido a exposição de símbolos cristãos nas repartições públicas, nos tribunais, nas casas legislativas, que se garanta, em pé de igualdade, a exposição da simbologia não-cristã também nesses locais. Ou, como ideal, que se limpe esses locais de qualquer referencial religioso.
A relação das pessoas com o sagrado não pode ser monopólio de uma crença apenas. Antes do cristianismo, antes do judaísmo, antes do espiritismo, e de tantas outras manifestações religiosas na atualidade, a humanidade já se relacionava com as divindades no continente africano, no extremo oriente e na América pré-colombiana. Por isso, a base da democracia será sempre a tolerância.