sábado, setembro 10, 2011

Que inclusão é essa?

Potiguaras enfileirados (Foto: Walter Rafael)
Muito esquisita essa "homenagem" que o governo da Paraíba quis fazer aos potiguaras, incluindo alguns componentes das tribos que habitam a Baía da traição há séculos, no desfile cívico-militar de 7 de setembro, em João Pessoa.

Eu diria que foi mais uma humilhação expor os guerreiros e pajés daquela forma. Ao pingo do meio dia, os indigenas tiveram que caminhar descalços pelo asfalto pipocante da Duarte da Silveira. Enquanto os milicos exibiam suas armas e tanques reluzentes, os potiguaras carregavam flechas e tacapes, como se a modernidade jamais pudesse chegar para esse segmento da nossa sociedade.

Não é dessa maneira, caricata e desrespeitosa, que o governo do "homem branco" vai querer convencer que o povo potiguara é reconhecido pela sua contribuição histórica ao processo de independência da pátria, muito menos da Paraíba.
Os "homens brancos" no tanque (Foto: Assessoria da PM)

terça-feira, agosto 30, 2011

Mulheres marcham para conferência estadual

Mesa de abertura no Cine Banguê (Foto: Fabiana Veloso)
Por Fabiana Veloso*


Gritos de guerra no início do evento deram o clima de fraternidade na 3ª Conferência Regional de Políticas Públicas para as Mulheres, em João Pessoa (PB). “Se uma cai, todas caem!”. Este espírito de união foi conduzido para os outros dias e estimulado com interferências performáticas sobre violência doméstica, aborto, lutas de vários segmentos.


Bandeiras, bâneres, faixas e estandartes de diversas organizações de mulheres foram apresentadas à frente do palco. A conferência foi aberta com declarações emocionadas feitas pelas participantes da mesa, em especial pela secretária de políticas publicas para mulheres de João Pessoa, Nézia Gomes, que chorou quando, em seu discurso, falou das mulheres mais necessitadas.


No segundo dia, após a leitura do regulamento e apresentação das palestras, ocorreu a formação dos grupos de trabalhos. Cada GT teve uma metodologia. No GT com o tema “Mulheres no Poder”, por exemplo, nove propostas da coordenação desse GT, foram colocadas para aprovação antes de abrir para as outras propostas, o que levou um certo tempo até o recebimento das novas contribuições.


As representantes da ABRAÇO-PB, da TVUFPB e da Fenaj formaram o bloco da comunicação para encaminhamento das propostas da área, que foram, inicialmente, recusadas por não fazerem parte daquele tema específico. Com muita argumentação e pressão foi decidido pela criação do eixo “Comunicação & Cultura”, para aceitação inicial das 27 propostas apresentadas. Algumas delas já estavam contempladas noutros GTs, também estratégicos, especialmente nos de Educação e Violência. Eram seis ao todo, sendo Meio Ambiente, Saúde e Geração de Emprego e Renda os outros temas dos grupos.


No dia seguinte a harmonia ainda pairava entre as participantes. Encaminhamentos de moções e articulação de uma chapa única, com divisão por segmentos, marcavam o ritmo para a conclusão do evento dentro do prazo. Os grupos se reuniram para discutir suas vagas. No da comunicação estavam presentes as representantes da ABRAÇO-PB, Amarc, API e Fenaj, para disputar quatro vagas. Mesmo com elogios a atuação da nossa representação da ABRAÇO-PB na conferência, a decisão das três últimas foi a de nos excluir e contemplar a representante da TVUFPB. O fato causou estranheza nos outros segmentos que decidiu fazer o remanejamento de mais uma vaga para contemplar também a representante da ABRAÇO-PB.


Pouco a pouco o esgotamento físico e mental começou a tomar conta da plenária, o que dificultou a condução dos trabalhos, mas não desanimou as mulheres, que concluíram com sucesso todos os trabalhos. As propostas foram apresentadas, reformuladas, aprovadas, suprimidas e/ou rejeitadas.


As moções foram aclamadas com exceção de uma que foi rejeitada por conter um equívoco no texto. Para a estadual foram eleitas 113 titulares para a sociedade civil, sendo 74 de João Pessoa, 11 de Cabedelo, 14 de Santa Rita, 14 do Conde. E 49 para representantes do poder público dos municípios. A conferência estadual acontecerá em outubro, no mesmo local.


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* Fabiana Veloso é coordenadora de Comunicação da ABRAÇO-PB e coordenadora-geral da Associação Cultural Posse Nova República. Faz parte ainda do Conselho Técnico-Científico Consultivo da Associação Paraibana dos Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH)

segunda-feira, agosto 29, 2011

Panis et circenses pós-mambembe

As colunas sociais da capital paraibana se esbaldaram nos últimos dias exibindo as presenças hilárias de políticos e outros VIPs no camarote especial do Circo Tihany Spetacular, luxuosamente armado no estacionamento de um megasupermercado, na Estrada de Cabedelo. A propaganda do circo internacional saiu até no jornal A União.
Confesso que não gosto de circo. Não vejo graça, nem nos palhaços. Acho que sou duma geração pós-circense, mais tecnológica, mais televisiva, mais virtual.
Mas o que me deixa mais indignado com esse tipo de “cultura” é o financiamento público ao Tihany, através do Ministério da Cultura e das leis de incentivo, tipo Rouanet. É a institucionalização daquela velha estratégia romana, criticada pelos velhos comunistas, em que os governos burgueses enganam o povo oferecendo-lhe apenas “panis et circenses”.
Reforçado pela mídia provinciana, o entretenimento circense pós-mambembe funciona hoje, tão somente, como um escape para a pequena burguesia local fantasiar que está assistindo um espetáculo especial, tipo Cirque du Soleil.
Minha dúvida principal é: em que medida esse tipo de incentivo, com dinheiro público, favorece relamente a cultura brasileira? 

Se o Ministério da Cultura quer levar cultura ao povo, porque financia um espetáculo com ingressos com preços tão proibitivos para a maioria da população??

quarta-feira, agosto 24, 2011

Foi embora nosso "James Dean"!

José Roberto Araújo, o Zezinho do Geisel


Um trágico acidente de moto ceifou a vida do meu amigo José Roberto, a quem chamávamos carinhosamente de "Zezinho Bilau". Ele bateu, caiu da moto e foi atropelado na BR 230 perto da Unipê.
Bilau vai deixar saudades pela sua energia alegre. Sua pressa em curtir a vida. Mesmo morando em Tambauzinho, Zezinho estava sempre no Geisel, onde cresceu desde a fundação do bairro. Loiro, alto, forte com vibrantes olhos claros, Zezinho tinha um quê de James Dean.
Sua morte nesse tipo de acidente seria algo previsível, pelo estilo de vida que levava. Mas Zezinho não era só aventura: festivo por natureza, ele estava envolvido com vários projetos culturais, como o teatro de bonecos da Emlur e o bloco carnavalesco do Bar do Batente, no Expedicionários, do qual foi co-autor do hino oficial. Me lembro vivamente do dia em que foi lá em casa me mostrar a música.
Vascaíno e botafoguense doente, Zezinho sonhava em ser locutor esportivo... Mais uma voz silenciada cedo demais!

quinta-feira, agosto 18, 2011

Dinossauros e Ciganos, patrimônios de Sousa

Texto e fotos de Fabiana Veloso (fabiana.velosopb@gmail.com)

Fogão improvisado em casa cigana num dos ranchos de Sousa
Ouro, luxo, riqueza, fartura... Essas seriam algumas das palavras que comporiam o imaginário sobre os ciganos. Até seria para os que vivem em outras regiões, mas não para os ciganos que moram em Sousa, Alto sertão da Paraíba.

Miséria e fome foram apontados pelos participantes da conferência de segurança alimentar regional em visita a comunidade cigana do local. Uma terra seca, que contrasta com as, aproximadamente, 800 vidas que moram no local. Falta água. Falta autoestima dos remanescentes que ficaram nas comunidades, chamadas de ranchos. São três ao todo, organizados por famílias. Todas marcadas pelo mesmo estigma do preconceito e da discriminação. É sabido que a população de Sousa, aqueles que não moram nos ranchos Raimundo Benevides Gadelha (conhecida também como Pedro Maia), Vicente Vidal de Negreiros e Valério Correia, manifestam um tratamento ainda de desconfiança para com o povo cigano.

Em 1982 os “ciganos de Sousa” receberam um terreno do candidato à deputado, na época, Gilberto Sarmento, e na seqüência o então governador Antônio Mariz fez projeto para a construção de casas em alvenaria. José Maranhão, em seu governo, após a morte de Mariz, construiu umas 100 casas, faltando outras para a conclusão do projeto. Foi então o começo de um novo tempo, onde os ciganos deixariam a filosofia nômade para se fixarem em um lugar - já fazem trinta anos, mas pouco se conquistou depois disso.

Segundo dados da pesquisa da professora doutora Janine Marta, apresentados pelo gerente de Políticas de Ações Afirmativas da SEMDH, Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana do Estado da Paraíba, José Roberto da Silva, na Conferência de Segurança Alimentar Regional, em Sousa, estima-se que existam quatro mil ciganos na Paraíba. A maior parte no município de Sousa com cerca de 750. Destes apenas 32 ciganos sabem ler e escrever e quatro estão na universidade.

A pesquisa mostra o quanto os ciganos na Paraíba precisam de atenção do governo federal, estadual e municipal. Pois além do terreno doado por Gilberto Sarmento, a maior população de ciganos no estado pouco receberam. Projetos foram iniciados e abandonados com as mudanças de gestão.

CCDI: um computador para toda a comunidade
Numa situação de verdadeiro descaso do poder público. Francisco Vidal, conhecido como Nestor Cigano, vice-presidente da CCDI (Centro Calon de Desenvolvimento Integral), fala do potencial cultural das comunidades ciganas. Segundo ele, através do Centro, os ciganos poderiam estar desenvolvendo várias atividades como a confecção de roupas típicas e, através de cursos, o repasse do aprendizado na elaboração da comida e da música, por exemplo. A tradição da dança cigana ainda é mantida com dificuldades por um grupo de jovens que, vez ou outra, se apresenta. No entanto, o dialeto cigano está dia a dia sendo esquecido.

Ronaldo reclama do forte preconceito que seu povo ainda sofre
Ronaldo Carlos, líder das comunidades ciganas de Sousa, diz que o maior problema é mesmo o preconceito. Segundo ele, antes de qualquer apuração, tudo que aparece de ruim o povo cigano é responsabilizado. Esse tratamento é confirmado quando uma atendente do de um posto de saúde é chamada para fazer um curativo em uma cigana de 84 anos, e ao chegar ao local a prestadora do serviço se recusa a fazer o atendimento com alegações discriminatórias, diz Carlos. Fatos como estes são reforçados quando Renato Soraio, membro da comunidade cigana Pedro Maia. Ele informa que apenas 5% das famílias estão sendo beneficiadas com um programa de distribuição de pão.

Vida cigana: tradição e resistência
A Conferência Regional de Segurança Alimentar ocorrida em Sousa , no dia 13 de agosto, contou com apenas 25 inscritos. Segundo a organização, mesmo com os convites feitos as secretarias dos municípios, a participação foi baixa. Aparecida, Bom Sucesso, São José do Rio do Peixe, Poço de José de Moura, São Francisco e Sousa estavam representados e terão delegados para a estadual.