quarta-feira, janeiro 18, 2012

O mascate da simplicidade

Seu Cabral: exemplo de dignidade

Eu era um pirralho franzino e magricela, com as pernas de cambito, como dizem aqui no brejo paraibano, quando meu tio, José Cabral, convidou, a mim e a meu irmão, para ajudá-lo no ofício de ambulante na feira central de Guarabira. Eu devia ter de oito para dez anos. Meu irmão dois anos a menos que eu. As feiras aconteciam às quartas e sábados. O produto a ser oferecido: peças de elástico vendidas em retalho.

No início sentíamos um pouco de vergonha, mas, aos poucos, fomos tomando gosto por aquilo. Era uma tarefa relativamente fácil, bastava circular nas ruas internas no antigo (e magnífico) Mercado Central com os maços de elástico presos numa das extremidades, formando uma espécie de chicote, parecendo um rabo de cavalos.
- Elástico! Elástico! Três peças por um Cruzeiro. Saíamos oferecendo, especialmente para as mulheres mais velhas, donas de casa e afins.

Na terceira semana de atividades já estávamos comercializando outros produtos, como pentes, agulhas, linhas e outras coisas vinculadas às necessidades da costura popular, dos afazeres domésticos e dos cuidados pessoais.

Em algumas oportunidades, acompanhei meu tio e meus primos, Deda e Hildo, em feiras de cidades circunvizinhas, como Pilõezinho, Alagoinha e Pirpirituba. Para mim, aquilo não significava, necessariamente, uma iniciação em ofício visando uma profissão ou um modo de sobrevivência. Era, de fato, uma experiência de vida fabulosa, poder estar no meio do povo, estar fora de casa, sem ser para molecar.

Cabral era meu tio mais humilde, mas também o mais próximo. Sua simplicidade em lidar com a vida, sem autoritarismos, sem arrogâncias, sem melindres, educando apenas pelo exemplo, nos transmitia uma segurança, uma confiabilidade e um prazer imenso em poder estar compartilhando com ele daquela aventura mascate.

A minha experiência em venda ambulante de peças de elástico nas feiras do brejo paraibano duraria pouco. Provavelmente minhas limitações de saúde naquela época me impediram de continuar no “ramo”. Mas foi um período que ficou grafado em minha memória defeituosa para sempre. Preparar a “mercadoria” na noite anterior, acordar cedinho e arrumar as peças para a venda, cortar os rolos de elástico em pedaços de um metro e meio, mais ou menos, montar os “chicotes”, contar as unidades, providenciar dinheiro trocado, dar o troco correto, convencer as compradoras, abordar a freguesia provável, elaborar as frases da propaganda a ser gritada nos anúncios improvisados. Cada detalhe dessa operação de logística, marketing e venda se tornou um ponto fundamental para minha vida futura. Era uma espécie de estágio para ser “gente grande”, aulas práticas de convencimento e de comércio alternativo.

Lembro do cheiro da farinha recém-torrada nos sacões enormes do mercado de cereais. Do feijão macassa vendido a granel. Do barulho que as apanhadeiras de alumínio faziam ao serem enfiadas no amontoado de grãos de milho. Lembro do ar “poluído” com o pólen da farinha, do arroz vermelho e do fubá de milho. Cheiro da carne fresca exposta na parte do açogue. Do peixe “avoador” com sua essência salgada incensando o ar no setor de pescados secos. Dos gaiolões repletos de galinhas e frangos “de capoeira”.

Perto do meio dia, o almoço improvisado na própria feira. Um PF com bife acebolado, macaxeira com galinha etc. A peleja da venda ia até o meio da tarde e quando a feira começava a afracar, batíamos em retirada. Depois era contar o apurado, separar a grana do próximo investimento e guardar alguns trocados para gastar depois com bobagens.

Cabral era sobrinho do meu avô materno, João. Foi criado com minha mãe e meus tios como mais um da prole numerosa originada por João Banqueiro e Rita Rosa. Baixinho em relação aos outros irmãos-postiços, era um contador de causos e histórias fantásticas. Tinha uma memória prodigiosa e uma narrativa envolvente, sempre entrecortada por uma risada quase contida. Dos tios, era o que possuía o maior repertório de “histórias de trancoso”, aventuras de malassombro e de brigas e arengas de personagens impressionantes que habitaram seu imaginário nas zonas rurais do brejo mítico da Paraíba.

A agricultura o abandonou, mas ele jamais abandonou a agricultura. Há alguns anos havia conseguido um pedaço de terra nas cercanias de Guarabira onde plantara umas braças de macaxeiras entremeadas com milho e feijão de corda. Valente, corajoso e trabalhador, seu Cabral nunca deixou que as dificuldades da vida dura tirassem dele o prazer de trabalhar, de produzir, de inventar. Lembro duma época em que ele deu para fazer joões teimosos, aqueles bonequinhos feitos com isopor, papel celofane e um pedaço de metal no fundo, que o faz manterem-se sempre de pé. Era um sucesso com a criançada.

Há alguns anos meu tio descobriu um câncer na próstata, mas lutou bravamente e se curou. No primeiro dia desse ano, Cabral sentiu-se mal com uma forte dor abdominal na região do umbigo. Como a dor não passava, procurou uma unidade de saúde (UPA), onde recebeu atendimento médico superficial. Mesmo com o aparelho de ultrassonografia, não havia ninguém no final de semana que manipulasse a máquina. Depois de algumas horas ele foi liberado e voltou para casa, mas logo em seguida as dores na barriga voltaram com mais intensidade. Foi levado ao hospital regional, mas lá também não foi feito o exame do ultrassom. Seu Cabral estava infartando e ninguém conseguiu diagnosticar o problema. Meu tio viu a aurora de 2012 de maneira trágica e sofrida. Uma parada cardiorespiratória interrompeu sua vida na manhã do primeiro dia desse ano.

Um homem idoso, negro e pobre costuma ser forte candidato à negligência dos médicos que atendem no serviço de saúde pública do nosso país. Fico imaginando se tio Cabral possuísse um vistoso plano de saúde privada, se fosse encaminhado com rapidez para a capital... Teria sobrevivido?

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Desaconselhados

Luciano Cartaxo é provável candidato (Foto: onorte.com.br)



Os caciques do diretório petista de João Pessoa voltaram de São Paulo acabrunhados depois que a direção nacional da legenda desaconselhou a permanência do PT pessoense no, assim chamado, “conselho político” do governo municipal. Vai ser preciso esperar até março para ver qual a decisão da legenda em relação à política de alianças partidárias com vistas às eleições municipais de 2012. Enquanto isso, a cadeira do PT-JP no conselho do prefeito Agra fica em stand by. O balde de água fria, por outro lado, serviu de combustível aos setores do Partido dos Trabalhadores na Paraíba que defendem uma candidatura própria e autônoma na eleição vindoura.

Essa disputa intestina no PT paraibano, tem, na verdade, como pano de fundo, as eleições presidenciais de 2014. De qualquer forma, tem sido desgastante, do ponto de vista ideológico, ver aqueles que, dentro do próprio PT, defendem a composição com o PSB, usarem um discurso desqualificante para sua própria legenda. O discurso da inviabilidade da candidatura própria vai de encontro à própria lógica da estratégia parlamentarista, principalmente num partido que, Brasil afora, tem consagrado lideranças de seu quadro nos poderes executivos em prefeituras, governos estaduais e está, há quase dez anos, governando o país.

Sem fronteira



A anunciada instalação de uma fábrica da montadora italiana FIAT no município pernambucano de Goiana reacendeu a velha chaga bairrista entre os paraibanos e seus vizinhos ao sul. Muita gente aqui na Paraíba não admite, mas o fato é que Pernambuco tem uma inalcançável tradição oligopolista empresarial, e nós, uma larga tradição ruralista. Boato ou não, mas bastou a imprensa paraibana comentar que havia uma determinação do governo pernambucano de que a seleção dos futuros operários priorizasse os seus “súditos” para que a reação tabajara gritasse alto. Num mundo globalizado como o que vivemos, soa realmente incongruente qualquer atitude monopolista deste tipo, especialmente no disputado campo do mundo do trabalho.

Além do apelo geográfico, o fator competência é o que deve preponderar nas contratações para um projeto tão complexo e gerador de emprego e renda como esse da FIAT pernambucana. Da mesma forma como esperamos ter sido esse o critério usado pelo novo governo paraibano para atrair centenas de profissionais pernambucanos que hoje já operam diversos setores da máquina pública paraibana, notadamente na área da saúde.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Deputado Frei Anastácio denuncia que foi agredido pela Polícia

Anastácio: agredido por PMs (Foto: MAISPB)

O deputado estadual Frei Anastácio (PT) denunciou que foi agredido por três policiais militares,quando tentava entrar no assentamento João Gomes,em Alhandra,durante ação de despejo da polícia, no início da manhã desta quarta-feira, 30. Segundo o deputado, três policiais de moto tentaram impedir que ele tivesse acesso a área. “Eles torceram meus braços para traz, com força, e só não me espancaram porque os índios que estão na área correram para me acudir”, disse Frei Anastácio.
O parlamentar já comunicou o fato ao presidente da Assembléia Legislativa e irá fazer exame de corpo de delito, no Instituto de Polícia Científica. “Além de agredirem um parlamentar, os policiais também cometeram agressão contra um idoso, já que tenho 66 anos idade. Em toda minha luta, de quase 40 anos, nunca fui tão maltratado com força física pela PM, nem durante a ditadura militar eu passei por isso. Até mesmo quando fui preso, não passei por tanta humilhação”, desabafou o deputado.
O deputado explicou que o fato aconteceu a 200 metros dos três lotes do assentamento da reforma agrária, João Gomes, que está ocupado por índios Tabajaras, desde o início do mês. Os lotes foram comprados pela cerâmica Elizabeth, que tem projeto de implantação de uma fábrica de cimento na área. Frei Anastácio foi ao local para dar apoio aos índios e trabalhadores, já que mais de 200 homens da PM estavam na área para realizar o despejo.
O deputado reafirma que é contra a instalação da fábrica dentro do assentamento. “Essa fábrica irá explorar quase três mil hectares de terras.Outras três fábricas estão programadas para a área.Se isso acontecer,mais de 10 mil famílias irão ser atingidas”,disse o deputado.
Porque os índios ocuparam os lotes vendidos?
Frei Anastácio explicou que os índios ocuparam os três lotes comprados pela cerâmica Elizabeth, numa ação de retomada de suas terras na região do litoral sul do estado da Paraíba. Os indígenas reivindicam a demarcação de aproximadamente 10.000 hectares. “Essas terras hoje estão ocupadas, em sua maioria, pelo Grupo João Santos, pelo monocultivo de cana-de-açúcar da destilaria Tabú e por assentamentos, além de ser uma área que sofre intenso assédio de empresas privadas. Mas, as terras que estão nas mãos dos assentados não são reclamadas pelos índios, já que cumprem sua função social”,explicou Frei Anastácio.
O deputado relata que, no entanto, no momento em que as terras são vendidas para o capital privado, os índios entram em ação e querem a posse. “É isso que está acontecendo na grande Mucatu.Essa área está incluída na luta pela demarcação que os Tabajaras querem.Eles reivindicam as terras que vão do Rio Gramame até o Rio Pipoca, uma extensa área que fica entre os municípios de Conde, Alhandra e parte de Pitimbu. “Dessa forma, as terras que forem vendidas em assentamentos e as que estão sendo exploradas pelo capital privado, são alvo dos índios e eu estou ao lado deles e dos trabalhadores que querem viver de duas terras”,concluiu Frei Anastácio.