quinta-feira, abril 27, 2006

A lógica do cavalo de tróia na imprensa paraibana

Em pleno século 21, numa sociedade pós-moderna, a comunicação é, de fato, uma das atividades sociais mais importantes. A imprensa se tornou o mais disputado lugar de fala no universo batizado por Jürgen Habermas de “Esfera Pública”. Ele idealizou um espaço de comunicação social que estivesse fora da vida doméstica, que não fossem os fóruns eclesiais das igrejas, e, logicamente, um lugar fora do alcance dos domínios do governo. Habermas pensou num espaço onde as pessoas discutissem livremente sobre os mais variados aspectos da vida (inclusive sobre a família, a igreja e o governo).
É na esfera pública onde idéias são debatidas democraticamente. Depois de séculos sendo desenvolvida e aprimorada a tal esfera pública vem sendo paulatinamente contaminada pela ação das grandes corporações e pela influência da mídia. A internet, considerada uma espécie de nova esfera pública, deslocou o debate para um ambiente que se tornou, ambiguamente, democrático e excludente. Democrático porque, teoricamente, nele todos poderiam se manifestar. Excludente porque, mesmo com a disseminação da informática, grande parte da população não tem acesso a esse tipo de plataforma para comunicação.
Aqui em João Pessoa um fenômeno na comunicação chama a atenção daqueles que se interessam diretamente pelo assunto. É o que eu vou chamar de febre jornalística. Vamos tentar explicar: a cada dia cresce o número de opinadores com colunas em jornais e sites tabajaras. Geralmente trata-se de figuras de renome na sociedade, como líderes religiosos, políticos e professores universitários.
O caso mais assombroso é o do novo arcebispo da Paraíba Aldo Pagotto. Bem falante, viciado em mídia, polêmico, o dirigente da Igreja Católica no estado publica seus textos opinativos nos três principais jornais paraibanos. Dom Pagotto escreve geralmente sobre questões eclesiásticas, mas não deixa de puxar a “caneta” para outras pautas como comportamento, violência, ambiente etc. É o discurso da Igreja disputando espaço hegemônico na esfera pública midiática paraibana.
Outro opinista juramentado é o professor Ivaldo Gomes, que se especializou numa espécie de webmilitância com ares de jornalismo de opinião. Gomes escreve cotidianamente no www.portalbip.com e no site do jornalista Anco Marcio (www.ancomarcio.com). Ferrenho defensor do direito à liberdade de expressão, Ivaldo confunde o exercício da expressão livre com a prática jornalística, reservada aos profissionais habilitados em cursos de graduação. Ivaldo Gomes transformou sua coluna numa tribuna livre, de onde dispara impressões político-ideológicas mescladas a informações que o escriba considera “de interesse público”.
Nosso derradeiro exemplo de doublé de jornalista vem da “militante do movimento cultural e pesquisadora”, Nara Limeira. Ela publica sua coluna semanalmente no jornal A União e no site www.portalbip.com, enfocando temas mais afeitos à cena cultural paraibana.
Nossos três opinistas poderiam, ao menos, buscar regularizar suas atividades na imprensa local solicitando à DRT-PB e ao Sindicato dos Jornalistas registro como “colaborador”. A lei que regulamenta a profissão de jornalista prevê a figura do colaborador, “assim entendido aquele que, mediante remuneração e sem relação de emprego, produz trabalho de natureza técnica, científica ou cultural, relacionado com a sua especificação, para ser divulgado com o nome e qualificação do autor” (DECRETO-LEI N.º 972, DE 17 DE OUTUBRO DE 1969).
Nos três casos ocorre um fenômeno comunicacional idêntico, batizado por Pierre Bourdieu em seu livro Sobre a Televisão, como a "lógica do Cavalo de Tróia". Consiste, mais ou menos, em enxertar inimigos na linha de lá da fortaleza. Bourdie pode explicar melhor: "(...) introduzindo nos universos autônomos produtores heterônomos que, com o apoio das forças externas, receberão uma consagração que não podem receber de seus pares".
O jornalismo transformou-se nesses dois últimos séculos numa atividade institucionalmente reconhecida, um campo do conhecimento humano que conquistou o direito de autonomia enquanto práxis sociabilizante e de utilidade pública, como o Direito, a Medicina e as Engenharias. Como modalidade privilegiada de discurso, do ponto de vista do reconhecimento social, o jornalismo também é o espaço em que o saber e o poder se articulam e se auto-promovem. Na concepção de outro francês, Michel Foucault, a disputa pela construção de enunciados no campo jornalístico se dá, principalmente, por acontecer neste campo a configuração dos discursos, onde legitimamente se veiculam os saberes institucionalizados, o locus onde se gesta o poder na sociedade.
É preciso destacar que a grande maioria desses opinadores ad hoc é composta justamente por aqueles notórios profissionais que usam o jornalismo para divulgar opiniões, pontos-de-vista. Todos sabemos que essa é a modalidade do jornalismo que mais influencia a chamada "opinião pública". É nesse sub-campo do jornalismo onde o jogo é jogado. Mas é aqui também onde estão concentrados os jornalistas mais consagrados. É no jornalismo opinativo onde o cidadão adquire reconhecimento social e consagração entre seus pares.
Nenhum desses jornalistas de ocasião quer, de fato, exercer o jornalismo na concepção estrita de reportar os fatos. O que os campos de interesses heterônomos desejam, de verdade, é tão somente obter a concessão de opinar sobre fatos escolhidos, massificar opiniões da tendência que representa e ganhar prestígio entre o grupo ao qual assumiu compromissos, ungidos pela áurea de neutralidade imputada ao fazer jornalístico.
O privilégio de ganhar a vida vendendo "verdades" não foi dado impunemente ao profissional de imprensa. O jornalista paga caro por esse cinismo de ares científicos. A lógica do cavalo-de-tróia é uma espécie de pirataria do privilégio: Oba! Vamos invadir a praia da comunicação, afinal, no início do século 21, informação anda colada à consagração, à inclusão e ao prestígio social. Mais agora que, potencialmente, cada ser humano pode produzir e distribuir suas idéias, fazer sua comunicação, turbinado pelas infovias que interligam a nova esfera pública habermasiana.


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