quarta-feira, junho 07, 2006

A notícia é: minha tv a cores ficou só verdamarela!





É um fenômeno que se repete a cada quatro anos e que nós, como pentacampeões já deveríamos estar acostumados: quando tem Copa do Mundo, a mídia (principalmente a TV) só fala da “seleção canarinho”. Hoje a Band deu uma matéria sobre a culinária dos croatas! Meu Deus, o que haverá de tão formidável numa pauta como essas? Nos últimos cinco dias a coisa mais importante do noticiário foram as bolhas estouradas nos pés de Ronaldo Fenômeno. Uai, nunca vi jogador de futebol reclamar dos calos... No país do futebol e do carnaval é de se esperar que pés e pernas se tornem celebridades nacionais. Os pés do Ronaldo, as coxas da Juliana...
Obviamente a cobertura de economia, política e ciências sofrerá uma drástica redução. Corrupção, CPI`s, terremoto na Indonésia, tudo isso passa a ser noticiado an passan. Só a Globo tem quase 200 pessoas mobilizadas para o evento na Alemanha. A copa é tão forte que separou (mais uma vez!) o casal mais casal da tv brasileira.
Com o avanço tecnológico, certamente essa será a Copa com a maior cobertura jornalística de todos os tempos. Todo poderio midiático e sua parafernália antropotécnica estará à disposição dos dribles e gols que ocorrerem nos gramados germânicos e de tudo o mais que circundar os gramados do furher.
É também a época de faturar, que o diga as gigantes transnacionais como Visa e Coca-cola. No Brasil, a farra publicitária fica por conta das cervejarias e dos bancos, mas até o mercadinho do bairro aproveita a onda verdamarela da Copa...
Nacionalismo e patriotismo se fundem numa febre coletiva que transforma o país na “pátria de chuteiras”. Ah, se conseguíssemos mobilizar o povo assim para uma reforma agrária, para uma eleição decente, para discutir arte & cultura...

domingo, junho 04, 2006

Zuenir made in PB


Terça-feira, 30 de maio de 2006



Zuenir Ventura

Encantos x progresso

30.05.2006 | São onze horas de sábado e eu estou diante do ponto mais oriental das Américas – aquele de onde, se eu me lançar ao mar e seguir em linha reta, chegarei à África, se alguém não me acudir na segunda braçada. Trata-se de Cabo Branco, em João Pessoa, na Paraíba, uma das partes mais cobiçadas pelos exploradores e corsários até mesmo antes da Descoberta. “A terra é a mais liberal de todas do mundo”, escreveu em “Diálogos das Grandezas do Brasil” um coleguinha cronista ultramarino que esteve por aqui uns quatro séculos antes de mim, um tal de Ambrósio Fernandes Brandão.

Não sei se é porque sou de um país que não tem História – ou melhor, tem mas não a cultiva – toda vez que me encontro em algum sítio histórico como esse fico tocado por um compreensível sentimento do passado. Senti a mesma coisa quando há anos conheci o ponto mais ocidental da Europa, o Cabo das Rocas, em Portugal, de onde eu poderia mergulhar e sair nos EUA, e quando avistei o Cabo da Boa Esperança, lá no extremo sul da África, o ex-Cabo das Tormentas. Não tive como não me lembrar do episódio do Gigante Adamastor dos Lusíadas.

Por serem postos avançados, o assédio dos invasores em geral começa por eles. Em frente a este diante do qual estou agora travaram-se memoráveis batalhas marítimas contra os invasores holandeses, se é que aprendi direito a aula que me dá um de meus cicerones, grande conhecedor da história local. Ele fala com entusiasmo da chamada “pequenina e heróica” Paraíba, que é mesmo tinhosa: além de participar de várias guerras libertárias, teve que sobreviver enfrentando a seca que sempre rondou grande parte de seu exíguo território.

Além dos exemplos passados, a Paraíba viveu dois momentos decisivos na história política contemporânea, quando João Pessoa transformou-se no mártir da Revolução de 30 e quando José Américo – o escritor que inaugurou o romance regionalista, com “A bagaceira” – rompeu a censura em 1945, na ditadura de Vargas, com uma corajosa entrevista a Carlos Lacerda que ajudou a derrubar o ditador.

Falta à Paraíba um bom esquema de marketing. Ela tem atrativos que a gente acha que só encontra em outras paragens nordestinas – belas praias, rico folclore, artesanato. Só que não se sabe. Eu, por exemplo, desconhecia que a Igreja de São Francisco era “a mais linda do Brasil”, na opinião de Mário de Andrade. Pude ver a fachada, realmente uma jóia do barroco tropical. Mas não por dentro porque ela fica fechada de meio-dia às 14h. Como pode atrair visitantes uma cidade que fecha suas igrejas na hora do almoço de um sábado? O resultado é que o movimento turístico em Natal, Fortaleza, Recife é de dar inveja à pequena João Pessoa, com sérias repercussões em sua pobre economia.

Por outro lado, isso é bom. Como não é um pólo de atração, a cidade conserva-se mais ou menos livre de pragas como a prostituição infantil. Soube que existe, mas não na escala das capitais vizinhas. Não vi na orla e nem nos hotéis o mesmo espetáculo deprimente.

Trânsito tranqüilo, violência sob controle, pouco estresse, possibilidade de morar em casas com segurança (uma bendita legislação impede edifícios nas praias acima de quatro andares) e um mar que não tem tamanho tornam João Pessoa uma cidade com ares de província, o que talvez seja o seu grande charme. O problema é como conciliar progresso com a preservação desses encantos.

zuenir@nominimo.ibest.com.br

sexta-feira, junho 02, 2006

Trairagem


Essa estratégia é do tempo em que a Benetton botava negros diabinhos e loiros anjinhos em altidóres para aumentar a venda de sua malharia. Agora o Andorra Motel (http://www.andorramotel.com.br/), com lojas na estrada de Cabedelo, e em Bayeux, apelou para a provocação e baixaria ao conclamar a rapaziada para a prática da trairagem: “traia seus amigos e venha assistir aos jogos copa com quem você ama”, estampou na propaganda espalhada em pontos-chave da cidade. Já tem gente escrevendo pros jornais para reclamar do “abuso”. Os moralistas certamente vão enxergar no comercial do motel um atentado forte ao pudor coletivo e aos bons costumes da sagrada família pessoense. Mas, aqui pra nós, apologia à traição não é lá uma estratégia boa de marketing, é?... Já não basta o exemplo dos políticos nas próximas eleições!

Intercom nordestino


De 26 a 28 de maio estive em Maceió (AL) para apresentar um trabalho no 8º. Intercom Nordeste. Foi uma viagem agradável, com novos amigos do mestrado no Recife. Saímos de carro da “Veneza” por volta das 10h30 da sexta. Eu havia feito aquele percurso há uns dois anos, vindo de Salvador. Foi quando conheci a pacata Porto da Pedra, típica cidade praieira no litoral norte de Alagoas. Vale a pena fugir da estressada 101 e ir para o sul beirando o litoral alagoano, com as ondas do mar “lambendo as rodas”.
Ficamos na casa do Thiago Paulino em Barra de São Miguel: um luxo! Condomínio fechado com quartos vista-ao-mar. Sem dúvida um dos lugares mais “bacanas” (como diria Aranha) daquela península. Uns 30 minutos nos separava do Cefet, onde rolou o evento, no centro. Definitivamente é um dos litorais mais organizados do Nordeste. A suntuosidade dos edifícios da orla impressiona o turista. Há bares e restaurantes pra todos os gostos por toda parte. Fomos especialmente ao Divina Gula, com atendimento de primeira e uma bela jovem atenciosa checando o atendimento. Nossa mesa ruidosa chamava a atenção dos comensais. No domingo, 28, antes do retorno à Paraíba, encontramos, por acaso, o Akuaba , onde me deliciei com abará e bobó que só baiano sabe fazer. Se for por lá, não deixe de experimentar a cozinha do soteropolitano Osvaldo.
Além do gostoso passeio, a ida a Maceió serviu também para mostrar como anda a pesquisa comunicacional na região. Infelizmente veio pouca gente da Bahia, de Sergipe e do Ceará. Na conferencia de abertura, a professora Ana Maria Fadhul falou sobre a importância de uma regionalização dos estudos sobre a mídia nordestina. Nos bastidores, Fadhul entusiasmou-se pela história do comunicador Mussão. “É um excelente objeto”, garantia.
Interessante também os dados trazidos pelo professor César Bolaño: o Nordeste tem 10,7 milhões de lares com aparelhos de TV. Os senadores com concessões de rádio/tv: ACM-05; Edson Lobão-06; Efraim Moraes-01; Garibaldo-12; Sarney-09; Roseane-10. Outra coisa curiosa é que apenas algo em torno 5% da programação nordestina é produzida na Região, o resto vem do eixo Rio_Sampa e dos states. No campo do cinema, a novidade é o pólo de Fortaleza, segundo da região, atrás de Salvador. Bolaño explica que a partir dos 70`s a região ver ocorrer o fenômeno da “oligopolização” da indústria cultura (principalmente a televisão), que substitui um modelo mais “concorrencial” de mercado. É nesse período que se consolida o império global e se configuram as redes de comunicação modernas.
Na Paraíba, segundo o professor Luis Custódio (UEPB), o ensino de comunicação chega aos 35 anos, com cinco cursos funcionando no estado. Já temos mais de 20 doutores na área e as escolas da UFPB, em João Pessoa, e UEPB, em Campina Grande, se preparam para instalar seus respectivos programas de mestrados. Na capital tudo caminha para estudos de “mídia & cotidiano”, promovendo a interface das pesquisas em Comunicação e Sociologia, sob a batuta do professor Wellington Pereira. A outra linha promissora é a “comunicação & culturas populares”, liderada pelos professore Oswaldo Trigueiro.

terça-feira, maio 09, 2006

De como a Paraíba se tornou sinônimo de província

Há um certo vício semântico em nossos intelectuais, notadamente os camaradas jornalistas, na utilização irrefletida e banalizada da palavra “província”, ao referirem-se à cidade de João Pessoa e, às vezes, até à própria Paraíba. Eu diria um vício provinciano, reacionário e inocente.
Talvez até por ignorância muitos desses escribas usam a terminologia quando na verdade estavam querendo apenas dizer que João Pessoa/Paraíba é “atrasada”, ou quem sabe “ultrapassada”. Neste sentido, o referencial dessas senhoras e desses senhores é inequivocamente o da modernidade, ou, melhor, da pós-modernidade. Um conceito tão gasoso como ideologicamente impositivo.
Na imprensa paraibana, a cidade e o Estado são culpados de serem “provincianos” pelo fato de não acompanharem, por razões históricas, culturais e estruturais, o padrão de desenvolvimento dos grandes centros. Província, desta forma, foi ligada ideologicamente ao mesmo conceito de periferia: “O que era velho no norte, se torna novo no sul”, lembra Zero Quatro.
Do latin provincia, o primeiro significado que é dado ao termo é o de “Divisão regional e/ou administrativa de muitos países, em geral sob a autoridade de um delegado do poder central”. A vinculação com o campo da política é evidente nessa palavra. O tal “delegado do poder central” nada mais é que o excelentíssimo senhor governador, nomeado pelo povo, mas ligado inequivocamente ao poder central pelo chamado “pacto federativo”, onde todos os governadores mantém uma relação de dependência com o presidente da República.
Por tanto, quanto mais subserviente à Brasília, mais provinciano. Quanto mais dependente econômica e culturalmente de São Paulo, mais provinciano. “No Segundo Reinado, cada uma das grandes divisões administrativas, a qual tinha por chefe um presidente”, acrescenta o “pai dos burros”. Antigamente, os governadores eram também chamados de presidentes (das Províncias).
Nos tempos atuais, província também significa “o interior de um país, por oposição à capital e seus subúrbios”, segundo o Aurélio. Por extensão, os habitantes da província, ou seja, os paraibanos, somos todos um bando de “provincianos”. Claro! Muito mais que os pernambucanos e sua “Veneza brasileira”. Bem mais que os baianos e sua cosmopolita São Salvador, primeira capital brasileira e, talvez por isso mesmo, jamais poderá ser taxada de “provínciana”. Somos mais provincianos (poderíamos dizer tabaréis) que o pessoal de Natal, que assimilou tão bem a influência norte-americana, ou dos cearenses, esse povo negociador por natureza e que por isso mesmo precisa do intercâmbio constante com os centros de consumo e da moda.
Província também era a região conquistada fora da Itália e administrada por um governador patrício, nos primórdios do Império Romano. Ou o conjunto de conventos e conventuais duma ordem religiosa, governados pelo “provincial” e dependentes do superior-geral da ordem. Taí o dedo clerical na composição de nossa condição provinciana, às vezes franciscana, às vezes carmelita, às vezes beneditina.
O dicionário diz também que a província é uma “Extensão da jurisdição de uma metrópole”. Nesse caso, historicamente, a Paraíba é uma extensão jurisdicional de Pernambuco, conseqüentemente, João Pessoa seria uma espécie de sucursal da Grande Recife. Por isso que nossa intelectualidade se nutre do que escrevem os coleguinhas do Diário de Pernambuco. Por isso todo mundo acha bacana sair no Galo da Madrugada.
É esse complexo provinciano de inferioridade que faz com que os aviões com os turistas só cheguem até Guararapes, ou passem direto para Natal ou Fortaleza. Por culpa do nosso provincianismo (leia-se incompetência) é que a ilha de Fernando de Noronha pertence a Pernambuco, apesar de, geograficamente, estar mais próxima do litoral paraibano, de onde não se pode tomar barco ou avião para um passeio no arquipélago paradisíaco. Foi essa relação de dependência que fez com que por longos anos o paraibano fosse obrigado a fazer compras no Shopping Center Recife. É porque somos provincianos que nossos times não têm futuro e só torcemos pelo Flamengo, Vasco, Sport ou Náutico.
Já para a Fitogeografia, “província” é um “Território florístico que se caracteriza pela posse de ao menos uma comunidade climática e pelo endemismo de nível genérico e específico”. Desta forma, teríamos no Brasil três espécies de províncias: amazônica, central e atlântica. Por essa disciplina, somos uma província do gênero atlântico, graças a Deus! Estamos defronte para o oceano, de cara para a Mãe África, no extremo oriente dessa América velha, colonizada e tão provinciana quanto a Paraíba. O resto é charme de quem só enxerga seu próprio umbigo.

*Dalmo Oliveira é jornalista e provinciano de Guarabira (PB)