quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Outro tiro ideológico na memória paraibana







Por Dalmo Oliveira[1]

 

O assassinato por si só já é algo inumano. Mas quando se mata outra pessoa por motivos ideológicos, aí é que enxergamos em que tipo de humanidade estamos metidos. Os tiros em Manoel Bezerra de Mattos Neto, desferidos por um encapuzado no último dia 24 numa casa de praia em Pitimbu, litoral sul da Paraíba, não tiraram a vida violentamente apenas de um homem. Eles feriram mortalmente, mais uma vez, a dignidade humana do povo da Paraíba.

Lembro-me dumas matérias que escrevi quando estava no jornal O NORTE, a partir dos relatórios que a Comissão Pastoral da Terra (CPT), coordenada à época pelo destemido Frei Anastácio, mostrando os números da pistolagem no campo paraibano e das mortes nos conflitos pela posse da terra. A violência ideológia não é coisa recente por aqui. Ela se repete num ciclo macabro, movida por diversas matizes da disputa social.

Apagar testemunhas e delatores é uma prática comum em todas as organizações criminosas. Quem nunca assistiu um bom filme sobre a máfia, retratanto aspectos da violência instaurada nas diversas camadas sociais? Uma trama que envolve, invariavelmente, policiais criminosos, criminosos impiedosos, vítimas inocentes e “cabras marcados para morrer”.

Para o pesquisador Geovani Jacó de Freitas, da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará, também membro do Laboratório de Estudos da Conflitualidade e da Violência (Covio) e autor de Ecos da Violência: narrativas e relações de poder no Nordeste canavieiro (2003), esse tipo de brutalidade social e cognitiva, sempre marcou as relações entre grupos sociais distintos no tecido social paraibano.

Homens assassinam homens desde os irmãos mitológicos Caim e Abel. A sanha criminosa manifestava-se apenas nas motivações instintivas naquele tempo. Era o ódio pelo ódio, e a vontade de destruir o objeto do nosso ódio animal. Mas logo as motivações se transformariam, à medida em que o homem passou a se agregar mais e mais nas chamadas sociedades primitivas.

A história do ódio e do assassinato sempre alimentou os best-sellers mundiais. De Dostoiewisk a Dráuzio Varela, todos os grandes escritores retratam e relatam episódios onde a violência do ser humano aniquila outros. Mas um crime é um crime e não há como criar eufemismos e subterfúgios para os assassinos. Claro que um cara como Hitler, que efetivamente deva ter disparado poucas vezes, mas foi o responsável maior pelo extermínio de tantos homens, mulheres e crianças, não pode ser comparado ao cara que disparou a doze na no peito e na cara do Manoel de Mattos.

Hitler matou e mandou matar por causa de uma ideologia de supremacia racial. O assassino de Pitimbu matou por encomenda. Talvez nem tivesse tanto ódio assim de sua vítima, mas cumpria uma missão, como os soldados do Füher. Uma missão claramente ideológica, movida pelo claro conflito de classes.

A gangue que atua na região onde foram denunciadas as ações de grupos de extermínio na divisa PB/PE se move ideologicamente. O banditismo desse grupo é alimentado por razões para além do crime pelo crime. Há uma razão ideológica semelhante àquela que vitimou, João Pedro Teixeira, Margarida Maria Alves, Chico Mendes, e a irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA).

Não é simplesmente um crime por terra, mas um assassínio calculado e programado para desestimular e destruir aqueles que se posicionam em defesa da maioria expropriada pelos latifúndios, ou pelos que se levantam contra o tráfico de drogas e de armas. Uma cadeia criminosa que alimenta outra.

E como se não bastasse a brutalidade dos derradeiros assassinatos, ainda se fomenta o extermínio de tantos quantos denunciem a criminalidade, como o ex-deputado Frei Anastácio e o deputado federal Luiz Couto. Não estamos falando de um acerto de contas, mas de uma organização covarde contra a população indefesa paraibana e brasileira.

Para estancar a matança só há uma solução: da um basta no silêncio cúmplice e covarde. Contra a estupidez das armas, só a mobilização solidária do povo oprimido.

 



[1] Graduado em jornalismo pela UFPB, ex-repórter de O NORTE, mestre em Comunicação pela UFPE.

sábado, dezembro 20, 2008

PMJP vai capacitar servidores da saúde para anemia falciforme na Capital

foto: Mazinho Gomes


Usuários do SUS com anemia falciforme cobraram atenção da secretaria de Saúde da PMJP









Identificar pessoas com a doença falciforme na região metropolitana de João Pessoa. Essa deve ser uma das primeiras ações da Secretaria de Saúde da capital para 2009. A decisão foi anunciada na última segunda-feira, 15, pela supervisora do Setor de Atenção à Saúde da entidade, Márcia Rique, durante reunião com os coordenadores da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH), Marcelo Cidalina e Dalmo Oliveira.
“A idéia é mobilizar profissionais de saúde ao Programa Saúde da Família para identificar e atender pessoas com a doença falciforme que residam próximas aos postos de atendimento nos bairros”, diz Márcia Rique. A ASPPAH vai repassar à secretaria dados cadastrais de portadores do problema atendidos pelo Hemocentro e pelo laboratório de hematologia do Hospital Universitário Luciano Wanderlei. “A busca ativa de pacientes falciformes será a única maneira de iniciarmos um programa municipal de atenção especial aos cidadãos que sobrevivem com o problema”, diz Dalmo Oliveira.
No dia 7 de janeiro representantes da secretaria e da associação voltam a se reunir para definir os primeiros eventos de capacitação na rede municipal da saúde. Inicialmente haverá um trabalho de sensibilização nas reuniões matriciais nos cinco distritos de saúde da capital. “Vamos atuar juntos aos apoiadores do Saúde da Família”, diz Rique.
A parceria entre a ONG e a secretaria de saúde de João Pessoa pretende levar informações sobre anemia falciforme para todas as 180 equipes do programa Saúde da Família. “Nosso maior problema atualmente é a falta de informação sobre a doença, tanto junto à população, quanto no meio dos profissionais de saúde”, revela Marcelo Cidalina, coordenador administrativo da ASPPAH.
Os membros da associação de pessoas com doença falciforme reivindicaram também que o município defina um hospital de sua rede como referência para a população da capital no acompanhamento, tratamento e aconselhamento sobre esse tipo de anemia. A secretaria acenou que essa unidade hospitalar deverá ser o novo Hospital Municipal, no bairro de Mangabeira, na zona oeste da capital.
“Não temos hematologistas no nosso quadro, mas poderemos adequar o hospital para receber esse público especial. Vamos providenciar a sensibilização e capacitação dos médicos e enfermeiras”, diz o Dr. Anderson, supervisor daquela unidade, também presente à reunião.
“Há um entendimento já com a secretaria de saúde do Estado para definir o hospital Arlinda Marques, em Jaguaribe, como a unidade hospitalar referência no cuidado das crianças com o problema do sangue que é genético e hereditário”, adianta Cidalina. “E as internações de complexidades média e alta vão ficar por conta do HU da UFPB”, acrescenta.

Testagem e cuidados especiais
Outra notícia importante relacionada à doença falciforme na Paraíba diz respeito à testagem dos recém-nascidos já a partir do teste-do-pezinho. A secretaria de saúde do Estado, através da Gerência do Ciclo da Vida, está finalizando a implantação da 2ª fase do teste na rede pública estadual. “Depois que pudermos detectar a doença falciforme no nascimento dos bebês, vai diminuir o índice de óbitos entre os recém-nascidos, porque logo eles vão receber todos os cuidados especiais indispensáveis às crianças com o problema”, diz Dalmo.
A 2ª fase do teste-do-pezinho já permite que estados como Minas, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, por exemplo, já saibam a incidências da anemia falciforme em suas populações. “Estimamos, de forma pouco empírica, que a proporção de bebês nascidos vivos com o problema atinja uma em cada grupo de 1.300 crianças nascidas vivas na Paraíba”, avalia o ativista, que tem também um primo com a doença falciforme.
A parceria entre a ASPPAH e a secretaria municipal prevê também a produção de peças para a mídia sobre o problema. “A idéia é usar os grandes meios de comunicação (TV, rádio, outdoor, internet) para começar a explicar aos cidadãos que os portadores desta hemoglobinopatia podem usufruir de uma condição de vida e sobrevida em níveis normais, bastando acessarem os cuidados básicos especiais necessários para os acometidos pelo problema”, diz Oliveira.
A ASSPAH pretende ainda obter uma sede própria, que possa servir também como casa-abrigo, para apoiar os pacientes do interior que estejam em tratamento na capital. “Estamos iniciando uma discussão para dividir um espaço com a comunidade franciscana no Castelo Branco”, revela Marcelo Cidalina.

terça-feira, outubro 21, 2008

Encaminhamentos pela democratização da comunicação na Paraíba


Auditório Aruanda foi palco das discussões na UFPB









Por uma semana nós discutimos e analisamos alguns aspectos sobre a democratização da Comunicação na Paraíba. Em dois momentos eu participei das discussões, que se concentraram entre o auditório Aruanda e em salas do Decomtur da UFPB. No dia 14, duas “Roda de diálogos” promovidas pelos organizadores abordaram a problemática.
Pela manhã fizemos uma análise acerca da reativação do Fórum Metropolitano de Comunicação Social. José Moreira, presidente da regional da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO), que atuou como facilitador da Roda, fez um breve histórico sobre a luta das emissoras comunitárias no Estado. Ao final agendou-se uma reunião que ocorre nesta terça-feira, 21, na sede da ONG Amazona, em João Pessoa.
A pauta da reunião deve tratar da produção de meios alternativos para divulgação das ações articulações do movimento pela democratização da comunicação. Certamente um site deverá ser construído para esse fim. “A idéia é construirmos um portal que funcione também como Observatório da mídia local”, diz Alexandre Santos, do coletivo COMjunto, um dos realizadores da 3ª Semana.
Uma outra proposta é a realização de um evento que discuta mais detalhadamente os direitos da cidadania paraibana frente à mídia convencional. “Há um consenso de que é preciso dar um basta nos abusos que os comunicadores de rádios e tvs cometem, principalmente, na cobertura da chamada área policial”, comentou a jornalista Jany Mary Alencar, da Amazona.
Os participantes também observaram a necessidade de se levar essa discussão para a sociedade em atos públicos a serem agendados para os próximos meses. “Se a população não se der conta da necessidade de uma mídia mais democrática e de uma maior democratização dos próprios meios de comunicação, dificilmente conseguiremos mudar as coisas da forma como elas estão”, disse Dalmo Oliveira, ex-diretor do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba.
De Pernambuco, Luís Lourenço, diretor de programação da TVU da UFPE, trouxe sua experiência junto à Associação Brasileira de Emissoras Públicas (Abepec). Ele lembra que a Lei das Telecomunicações já completou 40 anos e que não há uma lei ordinária sobre essa questão desde que o Governo Federal resolveu separar a legislação que cuida das chamadas “teles” e a regulação jurídica para radiodifusão.






Participantes da rodas de diálogos amarraram estratégias

terça-feira, setembro 02, 2008

Crianças até quatro anos são mais vulneráveis à anemia falciforme*

Crianças até quatro anos são mais vulneráveis à anemia falciforme*

Por Dalmo Oliveira**



No final de junho assisti uma palestra sobre anemia falciforme que me deixou arrepiado. Não só pelo fato de ser portador do mal, mas pelo dano que esse problema de saúde pública causa especialmente entre as crianças pequenas da nossa população afro-descendente. O médico palestrante, Dr. Rodolfo Delfini Cançado, é uma das maiores autoridades brasileiras do assunto e atua como professor adjunto na disciplina de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e é assessor técnico para hemoglobinopatias do Ministério da Saúde do Brasil. Cançado falava para uma platéia mais que especial: 30 representantes de ong’s de portadores da doença falciforme de vários estados brasileiros.
O especialista falou por quase duas horas e mostrou pesquisas importantes sobre o problema que atinge a produção das hemácias sanguíneas. Ele apresentou, por exemplo, um estudo que analisou o registro de óbito pelo Sistema de Informações de Mortalidade do SUS no período de 1979 a 1995, em que os pesquisadores descobriram que 25% dos óbitos ocorreu em crianças com menos de quatro anos. Desse grupo, 50% chegaram ao óbito até a idade de 15 anos. Os médicos descobriram que a média de idade ao óbito foi de 18,6 anos naquele período. Considerando a real possibilidade do sub-registro, avaliou-se uma média de 140 óbitos/ano causados por complicações decorrentes da AF.
Noutra pesquisa mais recente, Loureiro & Rozenfeld (2005) publicaram na Revista de Saúde Publica dados sobre internações hospitalares entre os anos de 2000 e 2002, quando 9.349 pacientes foram internados por causa da doença falciforme. A mediana de idade desses pacientes era de 12 anos. O estudo notou que 70% das internações ocorreram com pacientes com menos de 20 anos. Pacientes com idade entre 26,5 a 30 anos foram os que mais evoluíram ao óbito. “A taxa de óbito entre adultos com mais de 20 anos foi cinco vezes maior do que entre crianças e adolescentes”, comenta Cançado.

Dopller transcraniano pode
diminuir incidência de AVCs







Ano passado o pesquisador Kirkham F.Nat publicou um estudo onde mostra que a incidência de acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em crianças com a doença falciforme varia de 8 a 10 % naquelas na faixa em torno do cinco anos. O risco relativo da ocorrência de AVC em doentes falciformes pode ser até 300 vezes maior em relação aos indivíduos sem a doença. A pesquisa diz que 11% terão AVC até 15 anos de idade. de 17% a 22% será do tipo “silencioso”. As crianças apresentam um índice perto dos 80% de sofrerem AVC isquêmico, e entre os adultos, 20% dos doentes sofrerão derrame cerebral hemorrágico. Os médicos perceberam ainda que a recorrência de novo AVC pode ocorrer em 2/3 dos pacientes não tratados, a maioria no prazo de 2 a 3 anos do evento inicial.
O médico hematologista chega a duas conclusões preocupantes a partir dos dados das pesquisas: a primeira é de que o cuidado com as crianças abaixo dos quatro
anos deve ser redobrado, e a segunda é que, na fase adulta há uma tendência maior de que as internações de pacientes com a doença falciforme evolua para óbitos.

Políticas públicas

Fase 2 do teste do pezinho ainda não chegou
à Paraíba e só é feito em 13 estados brasileiros




Rodolfo Cançado abordou ainda questões relacionadas às políticas públicas específicas para a questão da anemia falciforme. Ele lembro que em 92 uma Portaria do Ministério da Saúde instituía a obrigatoriedade dos exames de detecção de fenilcetonúria e hipotireoidismo congênito na chamada “Fase I” do teste do pezinho. “Em 2001, mediante a Portaria no 822/01 do Ministério da Saúde, foi criado o Programa Nacional de Triagem Neonatal, incluindo a triagem para as hemoglobinopatias, quando passou a ser incluído o exame para anemia falciforme”, lembra. O especialista diz que apenas 13 estados brasileiros implementaram essa segunda faze do teste do pezinho onde se detecta a doença falciforme. A Paraíba, por exemplo, ainda não faz parte desse grupo.
Cançado considera que a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias representou passo importante no reconhecimento da relevância dessas doenças como problema de Saúde Pública no Brasil. “Ela marca o início da mudança da história natural da doença, corrigindo antigas distorções e trazendo vários benefícios, sobretudo a restauração de um dos princípios fundamentais da ética médica, a igualdade, garantindo acesso igual aos testes de triagem a todos os recém-nascidos brasileiros, independentemente da origem geográfica, étnica e classe sócio-econômica”, avalia o médico paulista.


13 milhões de crianças triadas nos últimos cinco anos

Nos últimos cinco anos, depois que o Governo Federal instituiu o Programa Nacional de Triagem Neo-natal, cerca de 13 milhões de crianças já foram beneficiadas. Foi a partir daí que o Brasil pode ter uma idéia melhor da gravidade da doença falciforme na sua população. Descobriu-se, por exemplo, que o nascimento anual de pessoas que carregam apenas o traço falciforme é de 200 mil. A segunda fase do teste do pezinho, que detecta a anemia falciforme, ainda não foi implantado na Paraíba. Na população geral a incidência de pessoas com esse traço genético varia ente 2 a 8%. “Mas, entre os cidadãos afro-descendentes ela aumenta para uma taxa de 6 a 10 por cento”, informa Rodolfo Cançado. Há uma expectativa de que o Brasil possua hoje cerca de 7.200.000 indivíduos com herança genética do traço falciforme.
Com relação às pessoas com a doença falciforme completa (aquelas que nasceram com os dois genes SS que formam a hemoglobina) os números também são preocupantes. Os casos estimados estão numa faixa de 25.000 a 30.000 indivíduos. Eu sou um desses. “São cerca de três mil casos novos por ano no país, com uma estimativa aproximada de um caso para cada 1000 nascidos vivos”, revela o pesquisador.

Dr. Cançado: Doença falciforme é o maior problema
de saúde pública brasileiro














Foto: Arquivo pessoal

Rodolfo diz que a maioria dos óbitos ocorreu nos dois primeiros anos vida, demonstrando o risco maior nesta idade e uma maior necessidade da organização da atenção aos eventos agudos ocorridos principalmente nesta faixa etária. “A maioria dos óbitos ocorreram em ambiente hospitalar,mas ainda é alta a ocorrência de óbitos domiciliares. A infecção foi a principal causa de óbito, mas o sequestro esplênico se destaca como importante evento determinante de mortalidade”, comenta o hematólogo.
“Mesmo após a implantação de um eficiente programa de triagem neonatal, muitos óbitos poderiam ser evitados pela educação e melhoria da qualidade da assistência à saúde . A capacitação dos profissionais da saúde, envolvidos diretamente na atenção básica, para o atendimento aos eventos agudos da doença falciforme e os programas de educação voltados para o paciente e familiares são eixos importantes para o desenvolvimento do programa”, defende.

Apalpar o baço da criança em crise é primeira providência
para detectar o sequestro de sangue para esse órgão

Foto: Arquivo do Dr. Rodolfo Cançado





Esperança nas novas drogas e tratamentos

O quadro devastador da doença falciforme começa a ser debelado com a adoção de novos medicamentos, como a Hidroxiuréia, que ajuda na diminuição da morbidade, diminuindo também a mortalidade dos pacientes, segundo pesquisa realizada em 2003. Os autores garantem que a medicação em pacientes falcêmicos garante a redução dos episódios de Síndrome Torácica Aguda (STA), a redução dos eventos de obstrução dos vasos sanguíneos (vasoclusão, na linguagem médica). A pesquisa diz que a adoção da Hidroxiuréia proporciona uma redução de 40% da mortalidade nos portadores do defeito genético.
Alguns estudos clínicos dizem que há uma tendência crescente do número de pacientes com a doença falciforme candidatos à transfusão regular de hemácias. A repetição das transfusões provoca uma sobrecarga de ferro, comprometendo o funcionamento de vários órgãos. “Isso é um fator prognóstico desfavorável e, portanto, porcentagem significativa dos pacientes tem indicação de tratamento ferroquelante. O processo de quelação de ferro por medicamentos reduz tanto a morbidade quanto a mortalidade em pacientes com o problema”, diz o professor Rodolfo Cançado.
Ele recomenda que os portadores da doença falciforme façam uso de medicamentos e de vacinas, como Ácido Fólico, analgésicos, Hidroxiuréia (para pacientes com indicação), quelantes de Ferro, Penicilina (oral ou benzatina) ou Eritromicina (no caso de alergia à Penicilina), sempre verificando a possibilidade de alergia a esse medicamento. Por fim, o médico recomenda que os portadores do mal sanguíneo busquem sempre especialistas de saúde, que atuem principalmente nas áreas de oftalmologia, pneumologia, neurologia, endocrinologia, cardiologia, nefrologia, ginecologia/obstetrícia, ortopedia, hemoterapia. As pessoas com a doença falciforme também precisarão de especialistas para medidas de suporte, a exemplo do assistente social, enfermeiro, odontólogo, psicólogo e fisioterapeuta.
As diretrizes recomendadas para a Política Nacional de atenção ao doente falciforme é que aja o seguimento das pessoas diagnosticadas com hemoglobinopatias pela Hemorrede Pública do SUS, bem como o acompanhamento das pessoas com diagnóstico tardio de doença falciforme. “É preciso garantir a integralidade da atenção aos acometidos por esse mal, proporcionando o atendimento por equipes multidisciplinares, estabelecendo interfaces entre as áreas da saúde da família, saúde da mulher, saúde bucal, imunizações etc”, diz Cançado.
O médico defende uma melhor organização da rede de assistência , respeitando-se a descentralização e levando em consideração a autonomia dos gestores públicos quanto a sua estrutura de organização da atenção.
“Capacitação de recursos humanos, com a criação de centros de referência de capacitação e informação, como o mineiro CEHMOB, ligado à UFMG, ou como o carioca CR Saúde Bucal, para dinamizar a atenção básica à população afetada pelas hemoglobinopatias”, prescreve Dr. Rodolfo.
Ele aposta também na promoção e no incentivo à pesquisa, na realização de eventos científicos; na produção de material didático para capacitação de trabalhadores do SUS e para informação da população. Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco são os estados de maior prevalência e os locais onde oficialmente há um programa ou uma ação pública funcionando.



///////////////////////////////////////////////////////////////////////////
* Artigo produzido a partir de dados apresentados pelo Dr. Rodolfo Delfini Cançado em palestra do curso Gesc Net/Norvatis, em São Paulo, dia 20/06/2008.
**Dalmo Oliveira, jornalista, mestre em Comunicação pela UFPE.

domingo, abril 13, 2008

Balula morreu: viva Balula!


Balula morreu: viva Balula!

Por Dalmo Oliveira*


Eu ainda não me acostumei com a idéia da morte de João Balula. Tentei visitá-lo quando esteve internado no Pavilhão Henfil. Levei uma revista para ele passar o tempo. Quando entrei no quarto ele já havia anunciado que não estava mais disposto a receber novas visitas. Encontrei-o todo encoberto num lençol encardido de hospital, escondendo-se do mundo. No quarto havia mais dois pacientes. Tentei tabular um diálogo com um deles para saber como estava a situação deles. O cara me disse que Balula mantinha uma febre freqüente.

O pior veio na saída: no quarto da frente deparei-me com um quadro dantesco, onde duas figuras humanas compunham a cena. Uma delas era um paciente deitado e algemado a uma cama de ferro. Na porta do quarto um policial militar vigiava o doente. Rapidamente percebi que se tratava de um presidiário em estado terminal pela AIDS.

Pensei “meu Deus, onde foram colocar o meu amigo!”. Saí às pressas pelo corredor pouco iluminado do pavilhão, olhando pelos cantos os grupos de pacientes internados naquela espécie de purgatório. No saguão do hospital comentei com Mabel Dias, que havia me acompanhado na visita, o quanto seria deprimente para Balula estar internado ali.

Disse a ela que precisávamos arranjar um outro hospital para transferir o companheiro. Sai de lá com essa idéia na cabeça. Não é possível que não se consiga um hospital para internar Balula com mais dignidade. Não entendia como o governo havia investido tanta grana para reformar a recepção do Clementino Fraga, mas as condições lá dentro continuavam tão ruins.

Na semana seguinte recebi a notícia que a saúde do Balula estava melhor e que ele havia saído do quadro crítico, daí relaxei com relação à vontade de tirá-lo do Henfil. Os dias se passaram e na fatídica noite do estranho eclipse lunar, por volta da 1h da manhã o telefone fixo toca. Era o professor Antonio Novaes: “Dalmo, o Balula morreu!”, disse-me de uma só lapada.

Durante o velório e enterro do cara, acho que fui uma das pessoas que mais chorou. Havia tempo que não chorava tanto. Nem nas piores crises álgicas da anemia falciforme que me fazem não esquecer da condição humana miserável que herdei dos meus antepassados africanos. Mas aquele não era um choro de dor. Chorava e sentia uma angústia triste pelo fato de não ter afido quando podia ter tomado alguma providência para dar dignidade à internação do meu amado companheiro. A sensação de omissão se apoderava da minha mente com um nitidez insuportável.

Nada adiantava, o pior acontecera, meu amigo estava morto. Perdíamos simplesmente o maior militante da causa do povo negro paraibano, de maneira torpe, desumana, cruel. Logo agora que eu abraçara a militância no movimento negro exatamente para tentar colaborar no quesito da saúde da população. Não me conformo!

Nas semanas seguintes, os movimentos sociais que lidam com DST/AIDS e as pessoas mais chegadas a Balula resolveram denunciar as condições do Pavilhão Henfil. Começamos a pensar de que forma poderíamos agir para que outras vítimas da AIDS não morressem por falta de uma UTI. Alguns atos públicos foram planejados e já realizados, mas ainda estamos longe de resolver o problema. A sociedade civil precisar exigir dos poderes públicos que algo seja feito para dar dignidade às pessoas que estão tentando escapar da morte provocada pela AIDS no único hospital de referência do Estado.

Para mim ficou a certeza de que é preciso acabar com uma estruturar hospitalar que mais parece um porão para depósito de soropositivos condenados à morte. Na minha cabeça ficou a idéia de que esse tipo de atendimento é uma espécie de punição a mais para aqueles que contraíram o vírus, seja em que circunstâncias forem.


PÓSTUMAS HOMENAGENS

Desde que o Balula morreu as homenagens ao fantástico guerreiro da negritude e de outras causas populares não cessam de acontecer. A mais recente foi ventilada por dirigentes da fundação onde ele trabalhava, a Funjope. A idéia foi comprada pelo vereador Fuba e rapidamente ganhou adesão de todos que testemunharam o empenho do Balula em prol da cultura popular pessoense. Trata-se de dar seu nome à lei de incentivo à cultura do município de João Pessoa, que passaria a ser denominada “Lei de Incentivo à Cultura Viva Balula”.

Homenagem justíssima na concepção de inúmeros promotores culturais que interagiram com o militante do movimento negro tabajara. Além do reconhecimento, a homenagem poderá funcionar também como estímulo à auto-estima de uma comunidade que, a despeito de toda a contribuição que deu e dá à cultura local e nacional, permanece numa posição de inferioridade e descriminação em relação à “branca” elite paraibana.

Elite que, aliás, já deflagrou uma campanha reacionária à propositura do Fuba, através das declarações do jornalista Carlos Aranha divulgadas, via correio eletrônico, pela internet, defendendo que no lugar do negro Balula, a mudança no nome da lei deveria homenagear o já também falecido Altimar Pimentel. Evidentemente ninguém poderá imputar ao jornalista e compositor de “Sociedade dos poetas putos” o rótulo de porta-voz da elite branca e racista tabajara. O que nos parece, nesse episódio, é que o discurso de Aranha em defesa de Altimar, se constituiu, provavelmente, e até de forma inconsciente, a partir dos pressupostos de um ideal de cultura como exercício exclusivo de determinados setores sociais, geralmente privilegiados do ponto de vista econômico e social.

Comparar João Balula e Altimar Pimetel é, no mínimo, ridículo. Ambos tiveram sua importância no fortalecimento da cultura paraibana, com suas competências, em campos sociais diversos (e às vezes antagônicos). Altimar como autêntico catalogador e fomentador de manifestações culturais tradicionais. Balula como agitador cultural dos guetos, periferias e outros espaços alternativos e marginalizados da cultural popular local. Pimentel como o clássico intelectual forjado pela academia. Balula o típico intelectual orgânico gramischiniano. Um que utilizava as ferramentas clássicas da pesquisa, outro que se valia de instrumentais alternativos, como intuição, improviso e atos anti-convencionais.

Por fim, é preciso entender que esse tipo de disputa se coloca muito mais no campo ideológico do que no meramente artístico-cultural. Tratar a cultura nesse patamar de discussão é semelhante ao tratamento que os soropositivos das classes subalternas recebem no Henfil. Simplesmente vergonhoso!


/////////////////////////////////////////////////////////

* Dalmo Oliveira é jornalista, militante do movimento negro da Paraíba, mestre em Comunicação pela UFPE e coordenador geral da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias.