RADIOWEB ZUMBI DOS PALMARES

sábado, junho 26, 2010

A notícia sob encomenda e o jornalismo de resultados













Diretor, editor e repórteres do Site Congresso em Foco na premiação do ano passado.





            A premiação de jornalistas em decorrência de matérias de interesse público se tornou, nas últimas décadas, um artifício bastante recorrente no universo da mídia de imprensa. O que começou com a intenção de reconhecer o papel imprescindível da imprensa como “cão de guarda” da sociedade, foi-se transformando, ao longo dos últimos anos, numa espécie de biscoito-prêmio para os adestradíssimos profissionais do jornalismo de resultado da atualidade.
            No Brasil, tudo teve início quando a norteamericana do petróleo Esso criou o prêmio que se transformaria numa espécie de “Oscar” do jornalismo tupininquim, ainda na década dos 50. No site da empresa podemos ler:
O Prêmio Esso de Jornalismo, o mais importante e tradicional programa de reconhecimento de mérito dos profissionais de imprensa do Brasil, está completando 55 anos de existência ininterrupta. Criado, em 1955, com o nome de "Prêmio Esso de Reportagem", passou posteriormente a se chamar "Prêmio Esso de Jornalismo".
Dividida em diversas categorias, o conjunto de premiações é concedido aos melhores trabalhos publicados anualmente, segundo avaliação de comissões de julgamento integradas exclusivamente por jornalistas renomados ou profissionais de comunicação. Atualmente, para a mídia impressa estão destinadas 11 categorias, mais o prêmio principal, que leva o nome do programa. Completa a premiação, pelo 10º ano consecutivo, o Prêmio Esso de Telejornalismo, conferido ao melhor trabalho jornalístico exibido na televisão.
De 1955, até os dias de hoje, concorreram ao Prêmio Esso mais de 27 mil trabalhos jornalísticos. Para os profissionais de Imprensa, a conquista de um Prêmio Esso constitui elevada distinção, não só por sua tradição mas, principalmente, pelas características de independência e credibilidade do programa, construídas e mantidas ao longo de mais de cinco décadas.

            Durante o período da ditadura militar ocorreu, naturalmente, um refluxo no incentivo e reconhecimento  ao jornalismo mais crítico e autônomo, e os prêmios de jornalismo deixaram de proliferar, retornando com outras características a partir do início da década dos 90.
            Evidentemente, a exemplo do que aconteceu com a maioria das manifestações  nascidas no seio da sociedade civil, esse tipo de premiação passou também por aquilo que vou chamar de metamorfose institucional. Nesse sentido, hoje, os prêmios de jornalismo se transformaram nalgo semelhante a um concurso público de redações (produções jornalísticas), patrocinados pelo mundo corporativo, principalmente, ou por instituições vinculadas aos poderes públicos.
            Esse tipo de premiação passou a compor uma série de estratégias empresariais dentro de um conjunto de medidas que o universo corporativo passou a chamar de “responsabilidade social”. Os prêmios de reportagem da atualidade configuram-se, assim, numa extensão da chamada comunicação empresarial.
            Jornalistas profissionais do país inteiro, fundamentalmente aqueles que trabalham nas chamadas “grandes redações”, perceberam que essas premiações significam duas grandes oportunidades em suas carreiras: 1) uma boa quantia em dinheiro para turbinar seus nem sempre gloriosos salários; 2) reconhecimento social dentro da própria categoria, assim como pela sociedade de um modo geral.
            É o que acontece atualmente no jornalismo paraibano onde a caça aos editais dos prêmios de reportagem se tornou um esporte disputado. Recentemente profissionais da TV Correio alardearam, sem falsa modéstia, mais uma premiação desse tipo, tendo à frente o jovem (e ambicioso) repórter Wendell Rodrigues. Desta vez foi o primeiro lugar nacional no prêmio concedido pelo Banco do Nordeste, com a série de reportagens “Pode dar certo”. O conjunto de reportagens já havia sido premiada anteriormente num concurso patrocinado pelo Sebrae.
            Anualmente o Sindicato e Associação das Empresas de Transportes Coletivos Urbanos de João Pessoa (AETC-JP e Sintur-JP) também realizam, no nível estadual, sua premiação aos melhores da mídia tabajara. O auge do evento é um jantar de final de ano onde os jornalistas (e outros profissionais de Comunicação) se confraternizam.
            Num olhar menos crítico, os prêmios de jornalismo pode parecer iniciativa inquestionável por reconhecer os talentos e a missão honrosa dos profissionais de imprensa. A crítica pode soar como inveja dos que não participam ou não são agraciados.
            Mas o que acontece, de fato, é que esse tipo de “incentivo” ao jornalismo cotidiano acaba por consolidar a desconfiguração da missão precípua daquilo que chamávamos de jornalismo a bem pouco tempo. Em primeiro lugar porque por menos tendencioso que seja a banca julgadora das matérias concorrentes, todos sabem quem está bancando a premiação e quais os interesses não-jornalísticos por detrás deste tipo de patrocínio.
            No caso do Prêmio AETC, grande parte dos julgadores jamais exerceram aquela atividade jornalística que estão avaliando, ou só a conhecem teoricamente. Por outro lado, são poucas as reportagens construídas sem que o “foco” do tema da premiação já não tenha sido pautado pelo relise da assessoria de imprensa do órgão que promove o concurso.
            Enquanto os jornalistas se locupletam nas festas das premiações, o cidadão consumidor das notícias premiadas acaba sendo o maior perdedor nesta história toda, ao consumir, inadvertidamente, um jornalismo encomendado.

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Dalmo Oliveira é jornalista formado pela UFPB, com especialização pela UFJF e mestrado em Comunicação pela UFPE. Ex-diretor do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba e nunca recebeu um prêmio pelo que escreve.

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